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Fechado com Diniz, até quando?

Vitor Freire

O texto é sobre Fernando Diniz e o São Paulo, mas outro personagem dessa história é o nosso ex-goleiro artilheiro, ex-treinador e (ex-)ídolo, Rogério Ceni. Como todos sabem, incluindo aqueles que não acompanham futebol, Ceni teve toda sua carreira profissional sendo relacionada a instituição São Paulo Futebol Clube. Por seu lado, a instituição São Paulo Futebol Clube deve muito a Ceni, incluindo muitos títulos em sua carreira sendo o personagem que ele era para o time (defini-lo como goleiro é pouco para Ceni). Além de tudo, uma passagem curta como treinador, onde muitos dizem que ele foi injustiçado com um grande erro gerencial do presidente Leco.

Rogério Ceni expressou que não voltaria ao São Paulo enquanto Leco fosse presidente. Fernando Diniz foi contratado, manteve o São Paulo em um nível bom de jogo que o classificou para a Libertadores e então foi iniciada sua prova para a temporada de 2020. Diniz conseguiu ensinar aos jogadores sua filosofia e estilo de jogo e mostrava em campo um futebol de alto nível, despontando-o como um dos mais fortes times do país.

No último texto sobre o São Paulo, Lucas falou sobre o parque de diversões que era o São Paulo, e hoje comprovamos essa teoria com a montanha russa mais emocionante do mundo. Porém, derrotas inaceitáveis em momentos cruciais, se iniciando no começo do ano contra o Binacional e vindo até recentemente para o Lanús (jogo que vivi a maior e mais rápida montanha-russa de emoções que já vivenciei com o clube).

Fernando Diniz em derrota do São Paulo para o Palmeiras por 3 a 0 em 2019. Foto: Divulgação/Rubens Chiri/saopaulofc.net.

Essas derrotas tiram a credibilidade adquirida com a qualidade do futebol jogado pelo clube. O São Paulo precisa de títulos. Diniz passa a imagem de um técnico vencedor, com um bom estilo, mas não um que conseguirá ser o melhor. Rogério Ceni nos lembra títulos e acabou de conquistar um com o Fortaleza. Leco não será mais o presidente em 2021 e muito se especulava sobre Ceni no São Paulo em 2021.

Ceni foi mantido como plano B, caso Diniz não fosse bem (ganhasse título), ele viria em 2021. Esse era o plano, o são paulino sabia e o embate se tornou o seguinte: eu torço para o São Paulo ser campeão e nos mantermos com Diniz e sem Rogério Ceni, ou torço pro São Paulo não ser campeão e o Rogério Ceni assumir em 2021 pra sempre com todo o poder possível que der pra lhe dar?

Na última semana, Rogério Ceni colocou um ponto final nessa questão assumindo o Flamengo e deixando de ser nosso plano B. O são paulino olhou para frente e tomou a decisão mais correta e fácil: apoiar quem está ali no clube. Fernando Diniz é um personagem carismático para a torcida. É fácil de se apegar em um treinador que toma decisões agressivas com um time agressivo. Em um ano, ele montou um time em que o torcedor consegue se identificar e torcer para uma proposta de jogo. O são paulino não tinha algo para abraçar como o Dinizismo desde o Muricy.

Porém, há mais nesse embate de Rogério Ceni, Diniz e São Paulo, já que Rogério Ceni assume o Flamengo às pressas, dias antes do confronto de ida das quartas de final da Copa do Brasil contra o próprio São Paulo. Essa transferência na sua carreira, da forma que foi, enfureceu muitos torcedores. Será que ele não podia ter esperado o confronto passar? Será que ele foi obrigado a assumir para esse confronto? Será que ele quer se vingar do São Paulo e do Leco que não lhe deram a devida oportunidade?

Flamengo apresenta o técnico Rogério Ceni. Foto: Alexandre Vidal/CRF.

Isso são discussões que podemos unicamente imaginar situações e a realidade é que essa movimentação do Rogério Ceni colocou o São Paulo em uma situação extremamente delicada. Diniz contra quem estaria em seu lugar ano que vem. Mantê-lo foi uma sábia decisão? Estamos a dias de descobrir. Todo seu trabalho será resumido a esse número. É a prova final!

O são paulino está fazendo o seu trabalho manifestando seu apoio ao clube que está jogando bem, com um treinador que vem tomando sábias decisões. Mas caso o resultado quarta-feira seja adverso e Ceni saia vitorioso, continuaremos fechados com o Diniz? E caso ganhe, até quando estaremos fechados com o Diniz? Jogo de volta da semifinal da Copa do Brasil?

O trabalho do Diniz me envolveu em uma das situações mais complicadas que eu já vi. Tem que ganhar todo jogo sempre, pois tem que ser campeão. O são paulino está desgastado com tantas ilusões, mas esse será o momento em que serão testados. Muitos jogos decisivos contra times fortes em que todos sabemos que o São Paulo pode perder. Essa nossa relação com o Diniz seria mais uma história de verão? Ou, então, uma história de chefe que faz pedidos absurdos e gosta dos bons funcionários que entregam tudo que é pedido, não importando o quão desgastado eles foram no caminho de conseguir o que você pediu? Agiremos como apaixonados, que se unem a alguém e o fortalece ou agiremos como imaturos que, em uma tentativa de fazer ciúmes para aquele pretendente que não liga pra você e seguiu a vida, se une a alguém e o larga na primeira oportunidade?

Fernando Diniz com Rogério Ceni ao fundo, no primeiro jogo entre Fortaleza e São Paulo pelas oitavas de final da Copa do Brasil 2020. Foto: Divulgação/Rubens Chiri/saopaulofc.net.

Não adianta pedir para a instituição se movimentar, se não tivermos uma relação madura e honesta com o clube e seus funcionários. A montanha russa está subindo de novo e os são paulinos estão embarcados. Todos estão ansiosos para que, quando chegarmos ao fim do passeio, nós estejamos felizes. Até porque, será que o são paulino terá maturidade para lidar com um passeio chato e com imprevistos?

Nós estamos dentro da montanha russa construída por Diniz ao longo do seu trabalho e vamos passar por várias curvas sinuosas ainda. Cair não vamos. São Paulo não cai! Porém, por quantas curvas perigosas o são paulino vai aguentar passar sem pedir para sair? Podemos arrumar alguém para dirigir um carrossel, que gira sempre da mesma forma e velocidade, mas aí não teremos a emoção.

O Diniz está mostrando um brinquedo arriscadíssimo e emocionante. Acabamos de passar por duas quedas ali que eu, sinceramente, achei que não sairíamos vivos. Teremos turbulências pela frente que nem o próprio Fernando Diniz sabe se sairemos ilesos. O são paulino manda acelerar e diz que confia. Até onde vamos nos autorizar se machucar nesse brinquedo que balança muito, mas parece ser o melhor que vimos desde que abandonamos aquele do Muricy? Fechados com Diniz, até quando? Vamos aguentar as dores por um trabalho que vem mostrando sua melhora, apesar dos momentos de queda brusca e repentina?


Como citar

FREIRE, Vitor. Fechado com Diniz, até quando?. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 35, 2020.