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FIFA e Brasil: um embate também ideológico

Fausto Amaro Ribeiro Picoreli Montanha

Ideologia* em um sentido, digamos, neutro ou fraco, representa uma visão de mundo, conjunto de crenças de um indivíduo ou entidade. Já em sua conotação “negativa”, denota um desejo de naturalização de uma ideia ou conjunto de normas – daí, podermos falar em ideologia fascista, racista, nacionalista.

O recente caso, ainda não resolvido, envolvendo a entidade máxima do futebol mundial e o governo brasileiro pode ser interpretada sob o viés de um embate entre ideologias opostas. A FIFA, visando preservar o seu próprio interesse e o de seus parceiros comerciais, demanda que o Brasil aprove, o quanto antes, a Lei Geral da Copa, cumprindo as promessas do ex-presidente Lula, e que, dentre outras coisas, permite a venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios.

À parte a discussão sobre as consequências desse ato, em termos de violência e desordem durante e após os jogos, essa imposição dos desígnios da FIFA em território nacional se dá pelo seu poder, não só político como ideológico (assim como também o foi na África do Sul). Ideologia aqui compreendida como a naturalização de um modus operandi de organização de Copas do Mundo, que a FIFA pretende blindar de críticas e modificações. Por possuir o “monopólio” sobre um esporte tão popular e lucrativo, que faz às vezes de produto (cultural, comercial e social), a FIFA teria o direito quase divino de intervir em Estados soberanos, colheria os lucros e os “louros” pelo seu evento maior e legaria ao país-sede somente os custos e o privilégio de receber o maior evento do futebol mundial.

A presidenta Dilma Rousseff recebe o presidente da Fifa, Joseph Blatter, para tratar dos preparativos para a Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil.

A balança, nesse caso, parece um tanto desequilibrada. E está! Um excelente adágio popular brasileiro nos fala sobre uma parceria associativa em que um dos sócios assumiria apenas o ônus, enquanto o outro ficaria com todo o bônus. Infelizmente, não podemos reproduzir esse ditado aqui, mas fiquem livres para especular sobre ele nos comentários.

Por parte do governo brasileiro, percebe-se a vontade de ceder aos ditames da FIFA, mas apenas parcialmente (o suficiente para a realização do evento), sem arranhar em demasia nossa imagem de nação soberana e de crescente importância global. Aqui, podemos inferir que estão presentes duas ideologias inter-relacionadas. Uma, mais óbvia, é a ideologia nacionalista, que engloba todos os pressupostos necessários à manutenção da coesão do povo brasileiro e da proteção do interesse nacional frente ao estrangeiro. Por outro lado, há também, e aqui vem uma opinião pessoal e não tão óbvia quanto a primeira, a ideologia do próprio PT (o partido governista). Em que sentido? Naquele mesmo em que critica, e sempre criticou, as privatizações de governos anteriores e a suposta entrega do patrimônio nacional ao capital estrangeiro/privado decorrente desta prática. A meu ver, ao ceder totalmente às intenções da FIFA, fere-se tanto a ideologia do Brasil enquanto nação, quanto a do PT enquanto partido.

Não devemos nos esquecer do fator “tempo”, outro envolvido nessa equação. A medida que o prazo para uma possível, porém improvável, mudança de sede – prevista no contrato assinado entre o Brasil e a FIFA para organização dos jogos – se aproxima de expirar, o governo ganha um poderoso poder de barganha. Ouso dizer um poder que até então não detinha, ou possuía em menor potência que o da FIFA, “dona” do futebol e da Copa e ainda sob a tutela de um contrato que lhe é favorável em muitos aspectos.

Após audiência com a presidenta Dilma, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, concede entrevista coletiva. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil.

Esqueci de mencionar a CBF ao longo do texto. Minha mea culpa: acho difícil situá-la em um espectro ideológico. Algumas vezes a enxergo como pró-FIFA, em outras pró-governo. Enfim, talvez ela tenha apenas uma ideologia própria, que não consegui abordar nesse curto texto…

Chego ao final de meu texto ratificando o quão polêmico e complexo é o assunto aqui abordado, passível de ser interpretado por diferentes óticas e onde não é fácil distinguir um herói e um vilão, se é que eles existem. Em poucas palavras, poderíamos afirmar que tanto a FIFA como o governo brasileiro estão “apenas” defendendo seus interesses ou, para sermos coerentes com o título desse texto, suas ideologias.

*Dentre as obras que abordaram a questão da ideologia, podemos citar “Sobre o poder simbólico”, de Pierre Bourdieu, e “A Ideologia Alemã”, de Karl Marx e Friedrich Engels.

Como citar

MONTANHA, Fausto Amaro Ribeiro Picoreli. FIFA e Brasil: um embate também ideológico. Ludopédio, São Paulo, v. 33, n. 9, 2012.