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Figueira de Melo, um estádio na casa dos 102 anos

Leda Costa

Lendo o artigo de Gilmar Mascarenhas, recentemente publicado aqui no Ludopédio, fiquei ainda mais disposta a continuar minha vida de boleira que, aliás, ainda tem longo caminho a ser seguido. Afinal minha entrada no mundo futebolístico, além-televisão, é tão tardia que muitas são as experiências e os conhecimentos que me esperam e que preciso ir em busca. Seguindo esse objetivo, realizei o antigo desejo de conhecer o que eu chamaria de templo do futebol, embora esteja em aparente ruína. Me refiro ao Figueira de Melo, oficialmente denominado de Ronaldo Nazário. Aliás, aviso desde já que ao longo deste breve texto não farei uso desse nome oficial, mas sim daquele por intermédio do qual o estádio fez história e, sobretudo, evidenciou sua forte relação com uma rua e com um bairro.

Para fazer este texto, resolvi invocar o conto “Boca do Túnel’ de Sérgio Santana cujo narrador em certo momento diz que “Sim, São Cristóvão é um bairro tradicional e o clube do mesmo nome, uma verdadeira instituição”. “Boca do Túnel” é uma história que gira em torno de um jogo realizado em Figueira de Melo, entre um clube de maior e outro de menor poder aquisitivo que, no caso, é o próprio São Cristóvão. No decorrer das jogadas, são feitas uma série de divagações a respeito da difícil tarefa de entrar em campo já sabendo que as possibilidades de vitória são quase nulas. Porém, há de se dizer que nem sempre foi assim a vida do clube que tem o nome do bairro que o acolhe. Desde o primeiro campeonato do Rio de Janeiro, realizado em 1906 (ASSAF, MARTINS, 2010), apenas oito clubes foram campeões: Fluminense, Flamengo, Vasco, Botafogo, América, Bangu, Paysandu e São Cristóvão. Como é possível perceber, o território futebolístico é feito para poucos e um deles é o São Cristóvão que desde quando começou a participar dessa competição, em 1910, nunca deixou de disputá-la, independentemente da divisão (QUADROS, 2004, 11).

Correio da Manhã, 23/11/1926

Correio da Manhã, 23/11/1926.

Para muitas pessoas, isso pode parecer quase nada. Porém, considerando que o mundo do futebol é bastante excludente, há de se valorizar a trajetória do São Cristóvão, clube que é parte importante da história do futebol, por motivos diversos entre os quais destaco o fato de ser o dono do estádio mais antigo do Rio de Janeiro. Figueira de Melo, oficialmente denominado de Ronaldo Nazário, já foi um “magnífico ground” como afirma a matéria da revista Fon Fon que trata da sua inauguração, ocorrida em 23 de abril de 1916, em um dia de festividades que culminaram no jogo São Cristóvão 1 X Santos 1.

Jogo entre Paulistas e Cariocas, no estádio Figueira de Melo. Fonte: A Cigarra, 11/07/1917

Jogo entre Paulistas e Cariocas, no estádio Figueira de Melo. Fonte: A Cigarra, 11/07/1917.

Inauguração do estádio. Careta, p. 20, 29/04/1916 http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=083712&pasta=ano%20191&pesq=

Inauguração do estádio. Careta, p. 20, 29/04/1916.

As arquibancadas de madeira chamavam a atenção da imprensa da época, sobretudo das revistas ilustradas que, aliás, são fonte de memória importante para que possamos presumir um pouco as primeiras feições do estádio. O escudo do clube na cobertura das sociais e a presença maciça de público, quase sempre garantida, foram ficando no passado. Em 1943, uma superlotação no jogo contra o Flamengo provocou a queda das arquibancadas, o que deixou mais de duzentas pessoas feridas, segundo matéria do Jornal dos Sports. Mário Filho e outros jornalistas passaram a questionar os perigos de se realizar jogos envolvendo clássicos em estádios como os de Figueira de Melo. As razões para esse questionamento seriam, de acordo com o Jornal dos Sports “livrar o torcedor do suplicio da compressão em arquibancadas sem conforto e se segurança, isso sem falar no lado (…) que é o monetário.” (21/09/1943).

Em 1946, foi justamente um clássico, Vasco x São Cristóvão, que reinaugurou o estádio que apresentava, entretanto, sensíveis mudanças. Sua capacidade para receber público se viu diminuída,  o campo teve sua posição original alterada e novas arquibancadas de cimento substituíram as antigas. Porém, seu retorno foi comemorado e sua relevância ficou expressa, por exemplo, em uma charge do desenhista Lorenzo Molas criada para homenagear a volta do estádio. Nela pode-se ver a figura da mascote do clube – criada pelo próprio Molas – representada pela figura de um santo obeso e caolho que nas portas de sua casa, convida os outros colegas como Vasco (Almirante), Botafogo (Pato Donald), Flamengo (Popaye), Fluminense (Cartola) e América (O Diabo), para entrar [1].

Jornal dos Sports, 29-06-1946

Jornal dos Sports, 29-06-1946.

Nos anos de 1950, o São Cristóvão enfrentou diversas crises financeiras, constantemente noticiadas nos jornais. Mesmo com problemas, foi nessa década que o Figueira de Melo recebeu o Dínamo de Zagreb que veio disputar um amistoso com o time da casa, dando mostras de que o campo ainda era representativo no cenário esportivo carioca. Nas décadas seguintes, as quedas para a série B e os breves retornos a A se tornam frequentes. Em 1995, o São Cristóvão participou pela última vez da principal série do carioca.

Em 2000, surgiu alguma esperança de melhoras. O gramado passou por uma reforma sendo inaugurado em jogo amistoso contra o Vasco da Gama que, além disso, fez alguns treinos em Figueira de Melo, enquanto São Januário estava interditado devido à queda do alambrado na final da Copa João Havelange daquele mesmo ano. Quase uma década depois, Figueira de Melo voltou a ser notícia ao receber o clássico São Cristóvão e América que havia caído, pela primeira vez em sua história, para série B do Carioca. O jogo, além de representar o reencontro de dois tradicionais adversários, ficou marcado pela boa presença de público que se espalhou não somente nas arquibancadas, mas no viaduto Rufino Pizarro.

O Globo, 20/07/2009, p.8

O Globo, 20/07/2009, p. 8.

A matéria enfatiza o lado pitoresco do jogo, mostrando torcedores assistindo à partida de cima de uma edificação feita para o fluxo de carros. Por outro lado, a imagem desses torcedores evidencia uma frase daquele mesmo narrador do conto “Boca do túnel” e que diz respeito às nocivas consequências da construção de um viaduto para uma rua, afinal esse tipo de monstrengo “só é bom para quem passa cima dele (…) Por baixo vira uma verdadeira desolação: escuro, fuligem e tristeza”. É debaixo de uma paisagem sombria que se esconde o estádio do São Cristóvão e seus quase 102 anos de existência.

Vista de baixo da sede do São Cristóvão e do Estádio Figueira de Melo. Foto: Leda Costa

Vista de baixo da sede do São Cristóvão e do Estádio Figueira de Melo. Foto: Leda Costa.

Circulando pelos arredores, nota-se que poucos são os que sabem que existe um estádio ali perto, o que é bastante compreensível pois a rua Figueira de Melo vive encoberta, o que torna pouco agradável – e nem sempre seguro – andar pelo local que tem pouca iluminação e pequeno tráfego de pessoas.

Desde o final da década de 1970, o mencionado viaduto foi construído para ligar o Campo de São Cristóvão ao Elevado Paulo de Frontin que, por sua vez, já havia descaracterizado o bairro vizinho, Rio Comprido. Nos anos de 1990 as obras da Linha Vermelha por conta da ECO-92 alteram definitivamente a paisagem local, modificando sensivelmente a vida de uma região que há tempos sofria com o processo de deterioração urbana.

A Rua Figueira de Melo possui características típicas dos primeiros bairros cariocas, como calçadas estreitas e fachadas muito perto das vias de tráfego. As construções predominantes são térreas, havendo também muitos sobrados. Porém, hoje em dia a rua é composta principalmente por comércios, garagens, oficinas mecânicas e lojas de acessórios automobilísticos, sem mencionar o grande número de imóveis abandonados. Alguns estudos mostram os incômodos sonoros e a má qualidade do ar que os moradores e pedestres respiram nas regiões por onde a Linha Vermelha passa, especialmente, São Cristóvão [2]. Essas construções, muitas vezes tomadas como fundamental para melhorias na mobilidade nas cidades, estão diretamente relacionada à aceleração do processo de decadência de diversos espaços urbanos e, neste caso, de um clube e de um estádio.

 

Passado, presente e futuro

Em 2011, São Cristóvão x CFZ disputaram o último jogo profissional em que o Figueira de Melo pôde receber público. Após essa data, somente as categorias de base ali atuam e foi assistindo a essa modalidade que pude conhecer o estádio com bola rolando, no ano passado. Enquanto jogavam São Cristóvão x Audax, partida válida pelo carioca da Série B Sub-20 de 2017, fiquei observando o entorno e pensando que o Figueira – e o clube São Cristóvão – era uma espécie de sobrevivente das transformações ocorridas na cidade e no próprio futebol. Há naquele lugar um antigo confronto contra o tempo cujos efeitos eram notáveis nas arquibancadas, o que nos força a fazer um exercício de imaginação para tentar resgatar, pelo menos em nossa mente, o que Figueira de Melo já foi um dia.

Estádio Figueira de Melo - oficialmente Ronaldo Nazário. Agosto de 2017. foto Leda Costa

Arquibancadas do estádio Figueira de Melo – oficialmente Ronaldo Nazário. Agosto de 2017. Foto: Leda Costa.

Estádio Figueira de Melo. ao fundo, o maciço da Tijuca e o Cristo Redentor

Estádio Figueira de Melo. ao fundo, o maciço da Tijuca e o Cristo Redentor.

As cadeiras do antigo Maracanã cobrem as arquibancadas de cimento resplandecendo sobre elas a inscrição “Campeão Carioca de 1926” . Ao fundo é possível ver parte do cartão postal do Rio de Janeiro formado pelo maciço da Tijuca em cujo morro do Corcovado pode-se avistar a estátua do Cristo Redentor. Atrás do gol à esquerda das arquibancadas, o campo termina nas paredes do fundo de uma fábrica vizinha onde pode-se ler a frase usada como uma espécie de slogan do clube: “Aqui nasceu o fenômeno”. O fenômeno em questão é Ronaldo, jogador que foi revelado pelo clube nos anos de 1990 e que se tornou um dos maiores nomes da seleção brasileira de futebol. Desde 2013, oficialmente o Figueira de Melo passou a se chamar estádio Ronaldo Luiz Nazário de Lima.

Foto.: Leda Costa

Aqui nasceu o Fenômeno. Foto: Leda Costa.

É provável que muitos dos meninos que estavam jogando, sonhem em se tornar um novo Ronaldo e diversos familiares, certamente, nutrem expectativas tão grandiosas quanto. E são esses familiares que compunham grande parte do público que estava presente ao jogo, o que tornou a atmosfera um pouco diferente das partidas profissionais. Muitas das pessoas ali presentes no estádio possuíam uma torcida direcionada a um filho, sobrinho, neto ou algum outro tipo de nível de parentesco, por isso foi comum ouvir gritos de incentivo – e cobrança – a nomes específicos e não ao time em si. Aliás, não havia torcedores de ambos os clubes, sendo, porém, notável a presença de olheiros ou agentes observando possíveis promessas. A imprensa, por sua vez, estava absolutamente ausente, ocorrendo somente uma filmagem do jogo por funcionários dos clubes e nada mais.

Observadores do São Cristóvão anotando dados do jogo. Foto.: Leda Costa

Observadores do São Cristóvão anotando dados do jogo. Foto: Leda Costa.

Arquibancadas do Figueira. foto.: Leda Costa

Arquibancadas do Figueira. Foto: Leda Costa.

Mãe de um dos jogadores comemorando o gol do filho. Foto.: Leda Costa

Mãe de um dos jogadores comemorando o gol do filho. Foto: Leda Costa.

O São Cristóvão venceu o jogo por 1 a 0, porém, ao final do campeonato, o time ficou na acanhada 16a colocação, em uma competição da qual participaram 19 clubes. Provavelmente, Figueira de Melo terá seus portões abertos para os jogos dessa modalidade em 2018, sendo, entretanto, difícil de saber quando voltará a receber os profissionais, pois falta verba para se conseguir algumas melhorias na infraestrutura que viabilizem obtenção dos laudos dos Bombeiros e da Polícia Militar, necessários à liberação do estádio para venda de ingressos. Enquanto esse dia não chega, o clube segue mandando suas partidas longe de casa, o que é bastante negativo se pensarmos em termos da cultura de arquibancada e na formação de novos torcedores motivados sobretudo pelo vínculo com o bairro e com o estádio.

Na sala de troféus a iamgemetra do hino do clube, composta por Lamartine Babo. foto: Leda Costa

Na sala de troféus há do hino do clube, composta por Lamartine Babo. Foto: Leda Costa.

Já o time profissional do São Cristóvão caiu novamente para a série C do Carioca, divisão que, em 2017, apresentou graves problemas em sua organização como, por exemplo, jogos não realizados devido à falta de ambulância nos estádios ou cancelados por conta do número insuficiente de atletas inscritos. É esse o tipo de competição que o São Cristóvão tem pela frente, em 2018, o ano em que fará 120 anos e seu estádio 102. Por isso, recorro novamente as palavras do narrador de “Boca do túnel” que, diante de todas as dificuldades enfrentadas por clubes de baixo orçamento, se pergunta: “Por que então continuar? Por quê? Talvez apenas para alimentar uma tradição, pois em algum também tradicional bairro desta cidade um grupo de pessoas abnegadas resolveu um dia fundar um clube e, com o decorrer do anos, possivelmente se acostumaram todos com a sua existência e acreditam ser uma heresia matá-lo.”

Mais que costume, clubes de futebol são parte componente da paisagem de bairros, constituindo-se como espaços de memória e sociabilidade capazes de reunir gerações diversas que relembram o passado, experimentam um presente nem sempre generoso e, muitas vezes, ficam à espera de dias gloriosos. É difícil saber se esses dias virão, mas ser capaz de esperar por eles ainda é um fator de resistência do São Cristóvão. Apenas não seria capaz de dizer até quando esse sentimento poderá ser mantido em uma cidade que se transforma sem um planejamento que considere a importância de locais como o estádio Figueira de Melo.

[1] Sobre as mascotes criadas por Lorenzo Lamas ver PESSOA, Flavio Mota de Lacerda. Humor, Futebol, Política e Sociedade Nas Charges Do Jornal Dos Sports: Um Estudo Comparativo Entre As Obras De Lorenzo Molas (1944-1947) e Henfil (1968-1972) Rio de Janeiro, Dissertação (Mestrado em História Comparada) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de História, PPGHC, Rio de Janeiro, 2013.

[2] AGUINAGA, Andrea Ferreira. Saúde urbana: um estudo de caso na Rua Bela, São Cristóvão, Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, 2016. 194 f.  Rio de Janeiro, 2016.

ASSAF, Roberto. MARTINS, Clovis. História dos campeonatos carioca de futebol. 1906/2010. Rio de Janeiro: Maquinária, 2010.

QUADROS, Raymundo, Chuva de glórias. A trajetória do São Cristóvão de futebol e Regatas. Campinas/SP: Pontes Livros, 2004.