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Figueirense: solidários trabalhadores do futebol

Alexandre Fernandez Vaz

Minhas primeiras incursões a estádios de futebol foram ao Orlando Scarpelli, na região continental da cidade de Florianópolis. Criança pequena, com meu pai e meu irmão fui várias vezes assistir a jogos do Figueirense Futebol Clube. Vi in loco o grande Internacional bicampeão brasileiro 1975-1976 golear o anfitrião, assim como presenciei histórica virada sobre o bem armado Grêmio de Telê Santana, que quebrara o monopólio colorado no Rio Grande do Sul em 1977. O Inter fora octacampeão gaúcho. Assisti a clássicos contra o Avaí, brigas entre jogadores, mau comportamento de torcedores, entre tantas experiências. Foi ao mesmo estádio que voltei depois de décadas de afastamento, testemunhando o ingresso do Figueira à Série A. Naquele 2003 despontava na lateral-esquerda do time o jovem Filipe, hoje Filipe Luís, do Flamengo.

O Figueirense ficou vários anos na Série A e pela equipe passaram veteranos em forma, como Cléber e Edmundo, bons goleiros, a exemplo de Wilson e Tiago Volpi, jogadores que depois despontaram, como Michel Bastos e Henrique, jovens que chegaram ao plano internacional, entre eles, além do citado Filipe, André Santos, Roberto Firmino e Felipe Santana. Faltou pouco para o clube chegar à Copa Libertadores de 2012, depois de excelente campanha no Brasileiro do ano anterior.

Nos últimos anos, o Figueira oscilou entre a primeira e a segunda divisões nacionais, para, neste ano, ainda na Série B, chegar a uma situação que seus torcedores jamais poderiam ter imaginado.

Na última terça-feira o Figueirense deveria ter enfrentado o Cuiabá, na Arena Pantanal. Com salários e outros direitos atrasados há meses, e dadas as dificuldades na negociação, os jogadores do Furacão do Estreito se recusaram a entrar em campo, de modo que o adversário foi, por WO, sagrado vencedor da contenda. Que a empresa gestora do clube se chame Elephant e que o clímax do conflito tenha acontecido em um dos elefantes brancos construídos para a Copa de 2014, não deixa de ser uma ironia. O ato seria repetido pela equipe sub-23 dois dias depois, ao não entrar em campo para enfrentar o Santos Futebol Clube, pelo Brasileiro da categoria.

Jogadores do Figueirense não sobem a campo para o jogo contra o Cuiabá. Foto: Reprodução.

Um grande mal-estar tomou conta dos círculos futebolísticos da capital de Santa Catarina, dividida entre o apoio ao ato dos profissionais de futebol e a condenação aos “mercenários”. Houve quem dissesse, sintomaticamente, que, como castigo, os jogadores já não seriam “comprados” por qualquer outro clube. Os administradores do futebol do Alvinegro estariam à procura dos líderes do movimento. Dirigentes dizem que é preciso averiguar o que verdadeiramente estaria “por trás” do episódio. Por trás, pela frente, pelos lados e por dentro, há o mesmo: profissionais sem receber seus direitos, o que vale para as categorias de base e funcionários de outros setores do clube.

Amparados pela Lei Pelé e pelas regras trabalhistas brasileiras, os futebolistas agiram dentro do direito que detêm e das obrigações que lhes competem. Antes da fatídica noite, várias outras ações de protesto foram realizadas, entre elas a não concentração em jogos em casa e a recusa em tomar parte de sessões de treinamento. Nada disso fora suficiente, e as consequências já se mostravam: o goleiro Denis, talvez a principal figura do time neste ano, conseguiu a rescisão do contrato na Justiça, e Hemerson Maria, campeão catarinense como jogador do Figueira em 1994, e de breve e vitoriosa carreira como treinador, fez um duro pronunciamento público e deixou o comando da equipe, onde a muito custo realizava grande trabalho.

Jogadores do Figueirense encerram greve e prometem jogar no sábado (24/08): “Respeito à torcida”. Foto: Reprodução/Guto Marchiori.

A atitude dos jogadores é justa e correta. Os possíveis problemas advindos, como os prejuízos da televisão e as incertezas do campeonato, são secundários. É incrível, ademais, que torcedores pensem apenas no consumo do jogo que não aconteceu, enquanto um conjunto de direitos é aviltado frente a nossos olhos. Se muitos agimos em relação ao futebol apenas como meros consumidores do espetáculo, então que, pelo menos, passemos a considerar que os artistas são trabalhadores remunerados. Sim, com bons salários, em geral, se nas Séries A e B. Mas, gente que vive do trabalho e que tem carreira breve e com dificuldades de reconversão profissional.

Não estamos acostumados a ações políticas explícitas, sobretudo reivindicatórias, no futebol. Até mesmo na arte, campo em que a política estrutura o objeto, há estranhamento. Na recente Feira Literária de Paraty (FLIP) não foram poucos os que reclamaram da efervescência do debate, como se ele fosse alheio ao fazer literário. O autor em destaque no litoral sul do Rio de Janeiro foi, neste ano, Euclides da Cunha, o que faz ainda mais estranhar o estranhamento dos que supõem que a Literatura é neutra. A autonomia da arte não significa que ela seja insípida.

Muitos consideraram que a atitude dos jogadores, embora justa em sua motivação, foi responsável por manchar a história do clube. Discordo. No início da tarde de quinta, o volante Zé Antônio, capitão da equipe, fez um pronunciamento duro e objetivo, antes de mais uma sessão treinamento cancelado. Estava cercado pelo elenco, que lhe apoiava. Um jornalista esportivo disse, aparentando indignação: “quem manda no clube, agora, são os jogadores”. Sim, é isso, mesmo. Trabalhadores assumindo posição, unidos, solidários, tomando a história em suas mãos. No céu do futuro brilha a estrela dos não conformistas.

Florianópolis, agosto de 2019.