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Finda o carnaval mas o lança-perfume corre solto na pré Copa

Luciane de Castro

Volto antes do prazo quinzenal para o amado Ludopédio para falar sobre o lançamento das camisas que a seleção usará na Copa da França, que está logo ali, por sinal.

Já tem um tempo que minha participação no carnaval limita-se a apreciar a festa dos outros e admirar a disposição da turma em balangandar por aí mostrando todos os dentes – coisa de quem tem privilégio, saliente-se – e usando de muito deboche em tempos de surrealpolitk (alô Joanna Burigo minha deusa!).

Festa verdadeira pra mim é a da conquista. É quando, em tempos de silenciamento/apagamento, conseguimos dar um maravilhoso salto ante todos os obstáculos estrategicamente colocados por aqueles que ocupam os postos de poder/decisão.

Mas Lu, deixe de ser ranzinza! É um senhor avanço não usarmos o resto do uniforme masculino! 

Querid@s, este é o tipo de coisa que não é mais que obrigação. Oferecer às atletas material esportivo condizente com seus biotipos e que permitam um melhor desempenho da atividade, equipara-se ao uso do capacete numa obra, do protetor auricular num chão de fábrica. Onde é que está a CIPA, pelamordasdeusas?!

Começo daí minha explanação. Se há comemoração em torno de um uniforme exclusivo, há que se pensar no futebol apresentado para que a camisa continue sendo respeitada. O que vimos do atual técnico (aquele que mostrou que era ruim para o cargo mas voltou pra continuar mostrando que está aonde não deveria estar) nos dá o tom do que podemos ver na França em junho. E a camisa bonita não vai ajudar. Quem dera tivesse o poder de transformar a organização da seleção em campo!

E aí que, em ritmo de carnaval, geral se anima, mas a mim chega como restolho de um lança-perfume fuleiro.
Olha que camisa linda!
Eu quero! Eu quero!
E eu daqui fico olhando e pensando que Vadão é mantido no cargo mesmo com o péssimo retrospecto acumulado nos últimos jogos, detendo, inclusive, a ponta das derrotas consecutivas.
Não sei vocês, mas ao meu olfato essa perfumaria está vencida. E na Copa, vai feder.

Jogadoras posam com o novo uniforme da seleção feminina. Foto: Nike/Divulgação.

Há coisas mais importantes a se cobrar, como por exemplo, o que o grupo de trabalho do Comitê de Reformas formulou como primordial: a criação de um departamento de futebol feminino conduzido por uma mulher. 
Óbvio que esta, entre outras demandas sugeridas neste trabalho voluntário que fizemos com a CBF, não foram atendidas/implementadas por uma razão bastante simples: os postos de poder não podem ficar nas mãos das mulheres e é pra essa reflexão que chamo pralém do oba oba em torno da camisa que não passa de perfumaria.

Soma-se a isso, o valor da camisa de jogo: 449 goldenshowers e 90 golpes. A camisa de torcedora está 249 goldenshowers e 90 golpes.
Considerando que a maioria das mulheres ganham salários menores que os homens e que grande parte da população está na base a pirâmide, dispensar quase 50% de um salário mínimo em uma camisa que corre o risco de passar por mais um perrengue em mundial, não é lá um grande negócio.

Sublinho que minha crítica está totalmente voltada ao comando do futebol feminino na CBF. Sei BEM como é o corre das atletas. Sei BEM como se dedicam e buscam melhores resultados, mas liderança é importante também, oras!

E o comando do futebol de mulheres está só preocupado em jogar esse lança-perfume barato e paloso em cima da torcida. Há os que se empolgam. Há os que refutam estes artifícios. 
Evolução de verdade não é só na aparência.
É preciso ocupar os espaços de poder e cumprir com o desenvolvimento que esperamos visando o protagonismo que nosso futebol merece porquanto temos jogadoras excepcionais!
Privilegiar afetos em detrimento de bons resultados cheira mal e essa perfumaria mais parece aquele talco jogado no salão pra fazer parecer que o caminho é fácil.

Guarda o lança-perfume porque o carnaval já acabou. Agora é Copa!