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Fio (e Neymar Jr. e Janderson) – A beleza do jogo e a narrativa (contra a cronologia do tempo esportivo)

Alexandre Fernandez Vaz

“Foi um gol de anjo, o verdadeiro gol de placa / E a magnética agradecida se encantava / Fio maravilha, nós gostamos de você / Fio maravilha, faz mais um pra gente vê / (…) / Tabelou, driblou dois zagueiros / Deu um toque driblou o goleiro / Só não entrou com bola e tudo / Porque teve humildade em gol / (…)”, diz a famosa canção de Jorge Benjor, composta em 1972, quando ele ainda atendia pelo nome de Jorge Ben. O autor assistira no Maracanã ao jogo entre o Flamengo e o Benfica, de Portugal, e presenciara o improvável golaço do atacante Fio, feito não muito tempo depois de o jogador entrar em campo, vindo do banco de reservas.

É uma pena que não haja um filme que nos faça desfrutar ainda mais do gol de Fio, assim como tampouco temos o videoteipe da jogada decisiva daquele Santos contra Juventus, no velho Estádio da Rua Javari, a do gol mais bonito dos mais de mil que o Rei Pelé marcou, o dos três chapéus seguidos sem deixar a pelota chegar ao solo.

Bem, talvez seja melhor assim, já que as tantas narrativas dão a cada um a chance de imaginar e livremente reconstruir esses momentos tão singulares. No caso do ex-flamenguista temos a canção de Benjor, canônica, encarnada na memória de quem gosta de futebol e de música popular brasileira.

Por falar em jogadas bonitas, nos últimos dias sobreveio a discussão sobre a legitimidade da carretilha que Neymar Jr. tentou aplicar em um adversário do Montpellier, em jogo pelo campeonato francês, e a respeito da comemoração de Janderson, que subiu as escadas que dão acesso às arquibancadas para comemorar com a torcida o segundo gol do Corinthians contra o Santos, em Itaquera, pelo Paulista.

O camisa 10 do Paris Saint-Germain foi advertido verbalmente pelo árbitro, logo recebendo o cartão amarelo ao se exceder nas reclamações; o jovem corintiano, que já tinha uma amarelo, foi punido com o segundo e, portanto, com a expulsão de campo, logo no início do segundo tempo da partida.

“Só não entrou com bola e tudo / Porque teve humildade em gol” diz a canção. Mas, por que em tal jogada, se levada às últimas consequências, haveria soberba? A beleza de um lance de gol – que significa, no mais das vezes, domínio completo do processo e, portanto, talvez entrar com bola e tudo – mesmo que desnecessária para a obtenção do tento, deve ser desprezada? Ou, ainda pior, condenada?

Um dos pilares das competições esportivas é a igualdade formal de chances, dispositivo que, como é sabido, nem sempre se reflete na materialidade das competições. De qualquer forma, atletas da primeira divisão de futebol da França se encontram em nível de competitividade semelhante, então por que a tentativa de Neymar de uma bela finta seria humilhar o adversário? Ademais, ela não encontrou seu propósito, uma vez que o defensor do Montpellier evitou, dentro das regras, o prosseguimento da jogada. Sim, as reclamações do brasileiro foram acintosas, desnecessárias e tudo mais. O cartão foi motivado por elas, não pela jogada em si, que, no entanto, também fora censurada.

Neymar. Foto: Team Pics/PSG.

Janderson, por sua vez, fez a autocrítica, mas foi defendido pelo treinador Tiago Nunes, que disse que tampouco ele resistiria à emoção daquele momento e que, portanto, teria feito o mesmo que o autor do gol. Sim, o Corinthians ficou com um jogador a menos e as dificuldades para segurar a vitória redobraram, mas, como se conter, uma vez chegado a tão importante tento em um clássico de tal envergadura, jogado em Itaquera?

O esporte não tolera os momentos de desperdício, de inutilidade, que todo jogo comporta. Sem eles, perde-se uma dimensão fundamental do lúdico, reduzindo-se a ordem de movimentos de cada jogada à pura força ou, no máximo, a um virtuosismo esperável e previsível. Na verdade, não se admite que o tempo seja relativizado, que os movimentos em seu interior sejam não produtivos, ou, dito de outra forma, que se pondere o caráter cronológico da temporalidade. O único tempo do qual se pode dispor é quando se renuncia à disputa ao se obter uma vitória parcial, esperando o apito final do árbitro. A lamentável cera ou o toque de bola aos gritos de olé por parte dos torcedores.

“Aquele ali é o Fio, jogador de futebol”, disse-me minha mãe, quando eu tinha oito anos e estávamos no antigo aeroporto de Florianópolis, anterior ao que foi substituído pelo recém-inaugurado, instalação que mais parece um shopping center com uma pista de pouso e decolagem como uma de suas atrações. Não sei o que fazíamos lá, mas é provável que esperássemos a chegada de alguém, talvez de meu pai. No velho terminal, a então inconfundível figura esperava para embarcar, junto à delegação do CEUB Esporte Clube, de Brasília. Na noite anterior, a de uma quinta-feira (28 de agosto de 1975), o time do Distrito Federal fora derrotado pelo Figueirense, com dois gols do artilheiro Toninho Quintino, um no início de cada tempo regulamentar. Ele faria, no ano seguinte, uma dupla de ataque infernal com Jorge Mendonça, no Palmeiras campeão paulista. Toninho fez bela carreira, ele que atuara pelo Avaí, o grande rival do Figueira, e que defenderia as cores do Club Deportivo Universidad Católica, do Chile, do Cruzeiro e do Corinthians, entre outros, depois de deixar o Parque Antártica.

Como entre os Antigos, no futebol é a narrativa que salva os mortais do esquecimento, conferindo-lhes imortalidade. Isso não anula todo o labor da gente anônima que faz o futebol ser o que é, mas nos lembra que o potencial anonimato pode a qualquer momento ser rompido. Na noite fria do inverno de Florianópolis, Fio só não passou em branco porque foi advertido com cartão amarelo. Não importa. O que vale é o que sabemos dele pela narração musical do épico gol. Este é Fio, o do gol bonito, e por isso gostamos dele.

Ilha de Santa Catarina, fevereiro de 2020.