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Flamengo é “festa na favela”! É ou não é Witzel?

Letícia Marcolan, Marcus Vinícius Costa Lage

Na semana do Dia do Índio, o Esporte Clube Bahia, postou na sua conta oficial do Instagram um vídeo em apoio à causa urgente da demarcação das terras indígenas. A campanha “Não tem jogo sem demarcação” é uma das muitas do Núcleo de Ações Afirmativas, criado em janeiro de 2018: 

O grupo, formado por sociólogos, filósofos, publicitários, um defensor público, professores e pesquisadores sobre a questão de gênero no esporte, dentre outros, tem a missão de enfrentar temas delicados e pouco debatidos dentro do mundo do futebol, como o combate à homofobia, ao machismo e à intolerância religiosa, além da promoção de medidas em prol de pessoas com deficiência e correlatas. A intenção é transcender campanhas efêmeras e ir a fundo em busca de soluções para problemas sérios que atingem nossa sociedade, e não coincidentemente, também assolam o esporte.1

O núcleo é uma inovação do clube baiano, e vai de encontro a posições de “neutralidade”, ou, como casos de Palmeiras e Club Athletico Paranaense, até favoráveis ao atual governo, que ataca indiscriminadamente indígenas, negros, mulheres e LGBTQ+.

Em meio a comentários na postagem de divulgação do Núcleo feita pelo Bahia, um me chamou atenção: “Sempre amei o meu time, mas ultimamente sinto orgulho”2. Assim como esse torcedor, também amo meu time, o Clube de Regatas do Flamengo. Entretanto, algumas notícias recentes, ao contrário de orgulho, me fazem sentir vergonha. Além do alviverde paulista e do Furacão, a atual diretoria do Flamengo também parece manifestar simpatia com a ala mais conservadora da política brasileira, principalmente do estado do Rio de Janeiro.

Imagem compartilhada nas redes sociais por torcedores do Flamengo para criticar a postura da diretoria do clube. Foto: Reprodução.

Na final da Taça Rio de 2019, que sagrou o rubro-negro carioca campeão, o governador do estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, era o encarregado de entregar o troféu. De acordo com informações do site O Globo, “durante a partida pessoas ligadas ao governador teriam entrado em contato com a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj) e solicitaram que Witzel entregasse o troféu ao campeão. O pedido foi aceito.”3. Entretanto, o governador não apareceu. Dessa forma, o protocolo foi seguido e o diretor de competições da Ferj, Marcelo Viana, entregou a taça para Rhodolfo, capitão do Flamengo na ocasião.  

O governador, na estreia do Flamengo no Campeonato Carioca, já havia demonstrado interesse em aproximar-se do clube. Na ocasião, Witzel, que é corintiano, vestiu a camisa rubro-negra, entrou no gramado e recebeu os cumprimentos de Éverton Ribeiro, um dos jogadores mais importantes do time na temporada, que, inclusive, autografou a camisa do governador. Witzel ainda fez questão de “ir para torcida”, tirou fotos com torcedores e foi ao camarote do presidente do clube Rodolfo Landim para cumprimentá-lo4.

Wilson Witzel, recentemente, postou em suas redes sociais um vídeo em que aparece, em um helicóptero, ao lado de um policial militar que dispara uma rajada de tiros em direção a um bairro da cidade de Angra dos Reis. De acordo com informações, os tiros teriam atingido uma tenda utilizada por evangélicos. No dia seguinte, outra operação semelhante e, mais uma vez, com o aval do governador, foi realizada no Complexo da Maré. Nas imagens da operação, crianças uniformizadas correm dos tiros5.

Contudo, se o governador não deu as caras no Maracanã, outra figura amiga do governo Bolsonaro apareceu. O deputado Rodrigo Amorim, do PSL, comemorou dentro de campo o título do Flamengo de campeão carioca, além de ter cumprimentado e tirado fotos com os jogadores. Em seu blog, Mauro César Pereira noticiou o caso e entrou em contato com o clube para saber se Rodrigo teria sido convidado pelos rubro-negros a celebrar a vitória. A resposta foi curta e pouco esclarecedora: “Não, ele entrou com o Secretário de Esportes do Estado”6.

Não é a primeira vez que a figura do deputado liga-se ao clube. O mesmo estava na posse do atual presidente do Flamengo, Rodolfo Landim. Além disso, no dia 5 de abril deste ano, o deputado, em seu Instagram, agradeceu ao Flamengo, que lhe enviou uma camisa do clube com o seu nome e o número dezessete, em alusão ao partido do atual presidente. O deputado, além de ser do mesmo partido de Jair Bolsonaro, ficou famoso por ter quebrado a placa em homenagem a Marielle Franco, deputada do PSOL, assassinada em 2018, que também era torcedora do Flamengo.

Em resposta a tais manifestações, a Esquerda Rubro-Negra, dias antes da final do Campeonato Carioca, enviou uma carta ao presidente Rodolfo Landim, republicada por Mauro Cezar em seu Instagram. Ao concluir o texto, a Esquerda Rubro-Negra asseverava: 

Caso o Flamengo venha a conquistar o seu 35º Campeonato Carioca no domingo esperamos que a presidência, no exercício de suas atribuições legais e como responsável pela promoção do evento, possa impedir que o Flamengo, em um momento esportivo de enorme relevância, seja usado como plataforma para personalidades, exibicionistas ou propaganda política extemporânea de qualquer natureza.7

Outra polêmica recente na gestão da nova diretoria foi o suposto veto a expressão “Festa na Favela”. De acordo com uma reportagem publicada pelo Jornal Extra, a empresa que administra as redes sociais do clube decidiu não utilizar mais a expressão, sob a justificativa de que “é algo associado à violência na cidade em que moramos”8. E acrescenta: “o que a torcida fala é o que a torcida fala. Podemos usar algumas coisas, mas não é porque a torcida fala que devemos falar.”9.

“Festa na Favela” é um grito de resistência da torcida rubro-negra que historicamente, por seu cunho popular, sofreu com provocações preconceituosas de torcidas rivais. Como afirma o jornalista Breiller Pires:

Nada tira do Flamengo a fama de representar o time do povão, algo que torcedores adversários desdenham e, por que não, invejam. Ao adotar a favela nos cânticos de arquibancada e ressignificar o termo como uma celebração da vocação democrática do clube, a torcida rubro-negra contribuiu para desmistificar a pecha de criminalidade, marginalização e violência que cerca seus moradores.10

Dessa forma, a diretoria do clube ao autorizar a suposta restrição estaria negando a identidade popular do Flamengo. A torcida, ao ressignificar a expressão, orgulha-se de representar as classes mais pobres da sociedade. Tal proibição só demonstra um total desconhecimento da história do clube por parte da dirigentes:

Para uma instituição de futebol, representar a favela significa, muito mais do que qualquer conotação do termo, levantar a bandeira em favor dos mais humildes. Dos craques descobertos nos subúrbios e lapidados no Ninho do Urubu. Em um contexto de repressão às minorias no lugar onde o extermínio de jovens negros segue rendendo menos manchetes que a morte de um branco na Zona Sul, ou em que o governador do Estado acaba por chancelar uma política de abate de “potenciais criminosos” por snipers no alto dos morros, um clube como o Flamengo tem a obrigação de reafirmar sua vocação popular e redobrar as ações de responsabilidade social. Ser favela é ser povão. Deveria ser motivo de orgulho, e não um pretexto para a diretoria reforçar estereótipos preconceituosos.11

A diretoria, em resposta, publicou uma nota, informando que o veto a expressão era mentira. De acordo com a nota, o termo “favela” não é mais uma palavra utilizada na comunicação institucional, e a sua não utilização não significa nenhum veto ou desvalorização de uma tradição da torcida. Após a polêmica, na comemoração do título do Campeonato Carioca de 2019, a expressão foi utilizada em todas as postagens do clube. Além disso, jogadores importantes do elenco, como Bruno Henrique, Diego e “Gabigol”, também utilizaram a expressão em suas postagens sobre a conquista. Também merece destaque que, na premiação, nenhum político entrou em campo.

Mosaico “Festa na Favela”, apresentado pela torcida do Flamengo na final do Campeonato Carioca de 2019. Foto: Divulgação.

O jornalista Marvio dos Anjos associa a aproximação da diretoria ao objetivo de acelerar seus projetos mais urgentes: os alvarás que liberarão o CT Ninho do Urubu, a reconquista do Maracanã e as licenças para a reforma da sede do clube na Gávea12.

Mas, para mim, as motivações pouco importam. A atual diretoria do Flamengo, ao aproximar-se de determinados grupos políticos, envergonha a torcida, o principal motivo de orgulho do clube.


Notas

[1] Texto de divulgação do Núcleo publicado pelo site oficia do Bahia: https://www.esporteclubebahia.com.br/a-luta/.

[2] Disponível em: https://www.instagram.com/ecbahia/?hl=pt-br.

[3] Disponível em: https://oglobo.globo.com/esportes/premiacao-da-taca-rio-tem-sumico-de-witzel-deputado-no-gramado-23564258.

[4] Disponível em: https://oglobo.globo.com/rio/witzel-veste-camisa-do-flamengo-tira-selfie-com-torcida-acompanha-estreia-do-time-no-maracana-23387733.

[5] Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/08/opinion/1557268763_938547.html.

[6] Disponível em: https://blogdomaurocezar.blogosfera.uol.com.br/2019/04/01/deputado-que-quebrou-placa-com-nome-de-marielle-festeja-com-o-fla-no-campo/.

[7] Disponível em: https://www.instagram.com/maurocezar000/p/BwXbambA3qs/.

[8] Disponível em: https://extra.globo.com/esporte/flamengo/flamengo-veta-expressao-festa-na-favela-de-suas-redes-sociais-associado-violencia-23612039.html.

[9] Disponível em: https://extra.globo.com/esporte/flamengo/flamengo-veta-expressao-festa-na-favela-de-suas-redes-sociais-associado-violencia-23612039.html.

[10] Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/20/deportes/1555783310_624413.html.

[11] Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/20/deportes/1555783310_624413.html.

[12] Disponível em: https://epoca.globo.com/como-flamengo-virou-prioridade-na-politica-do-rio-23577502.