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Flamengo x Globo: processo aberto pelo clube acentua problemas na transmissão do Brasileirão

Anderson David Gomes dos Santos

Após a recusa em vender os direitos de transmissão de suas partidas no Carioca, o Flamengo acirra a disputa com a Globo, processando no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro o grupo comunicacional pelo contrato do Campeonato Brasileiro de Futebol. Como não vi o processo, que foi colocado em segredo de justiça pelo juiz, comentarei o que é possível a partir do que foi publicado por repórteres esportivos.

A base dos problemas apontados pelo Flamengo está no contrato que começou em 2019 e vai até 2024. É o primeiro para o Brasileiro que divide o pagamento de cotas por critérios: 40% igualitários, 30% jogos transmitidos e 30% classificação (50-25-25 para a Turner). Mas só para as TVs, não inclui o pay-per-view (ppv).

Os contratos foram assinados sob sigilo e, ainda que tanto no UOL quanto no Lance! existam trechos a partir do processo, optamos por manter as observações feitas a partir do que foi publicado por Rodrigo Mattos e Leo Burla, no UOL, e por Pedro Torre, no Instagram, pois todos os elementos se confirmam.

Torcida do Flamengo conseguirá ver seu time pela TV? Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

1. Mais jogos no ppv

Vejo como movimento natural da Globo botar mais jogos de Corinthians e Flamengo no ppv por dois motivos: é o valor flexível, com a empresa podendo lucrar mais; e é onde, na mudança da divisão dos valores pagos por mídia, passou a pagar mais, com valores mínimos garantidos a alguns clubes, caso do carioca.

Até 2018, o peso da TV aberta era muito maior, assim, fazia sentido para a Globo distribuir os jogos das duas equipes nesta mídia. A mudança no contrato em vigor considera a nova divisão das cotas (que mantém o benefício a alguns clubes a partir do ppv) e a nova concorrência. Além disso, com a queda constante de assinantes da TV fechada, o Premiere precisou ser flexibilizado para mídias móveis em 2018, mas seguiu a queda na sua base de clientes.

2. Prejudicar a Turner

Movimento super natural da Globo, que já fazia algo semelhante quando sub-licenciava os direitos para Record e Band. A escolha dos jogos na TV aberta sempre foi da detentora dos direitos, na lógica do “quem paga a festa define o horário”. Problema não exclusivo do Brasil num momento em que os mercados europeus querem audiência da China, por exemplo.

O Athletico soube compensar a saída do ppv nisso. Acreditando que ganharia menos nesta plataforma do que mereceria, o clube resolveu não assinar. Isso forçou a Globo a exibir mais jogos do clube de forma gratuita – justificando investimento nesta mídia e a briga contra a Turner (no jogo contra outro clube que assinou com ela).

Mas concordo com a reclamação em se incluir jogos transmitidos pela Turner na TV fechada para o cálculo da cota por exibição. Não faz sentido porque os contratos são diferentes. Os clubes da Turner, por exemplo, resolveram dividir igualitariamente o valor da classificação em 2019 – menos o Fortaleza, prejudicado por um contrato assinado quando ainda estava na Série C e que definia valor fixo (na prática, R$ 14 milhões a menos que os demais na TV fechada).

Athletico não cedeu os seus jogos para o ppv, enquanto o Flamengo abriu processo contra o Grupo Globo. Foto: Globoplay

3. Outros pontos

O clube fala que o pagamento seria num fluxo mensal. Do que li para o meu livro, o pagamento seria em partes (início, 40%; meio do ano, provisório dos 30% de exibição; e final do campeonato). Mas, volto a dizer, não tive acesso aos contratos. Estou relatando o que li durante o processo de negociação e as notícias do ano passado informando que os clubes estavam com a corda no pescoço, com balanços parciais no vermelho, justamente pela mudança.

Outro ponto novo relatado por Torre é que a Globo passou a descontar despesas dos custos de viagens no valor das cotas, o que não ocorria antes. O Flamengo reclama disso, mas admite que o ponto não estava no novo contrato. Numa proporção, daria R$ 1,5 milhão a menos no ano.

4. Considerações

É importante ressaltar, da mesma forma que Bahia, Athletico e Palmeiras no início do ano passado, a disputa é puramente individual. O Flamengo quer ganhar mais porque acha que merece e não está preocupado com os demais, não à toa o processo foi aberto só por ele – nem o Corinthians, de situação semelhante, entrou.

Ratifico meu posicionamento que as “falhas” que eu concordo no que foi apontado é justamente pela falta de um acordo coletivo – o que não deve ocorrer tão cedo. Além disso, os clubes repassavam TUDO para a Globo Esportes sobre o Brasileiro. A empresa é que se desfez de algumas coisas, caso da negociação por placas, transmissão internacional e, pelo visto, a estrutura de viagens.

Foi necessário o Flamengo, assim como estavam Palmeiras e Athletico, ser menos dependente dos recursos do broadcasting para tentar confrontar o grupo comunicacional que, desde a gestão de Fernando Manuel Pinto e o aumento da concorrência, resolveu mudar o discurso sobre equilíbrio.

Por fim, registre-se que a divisão não se dá pelo broadcasting/espaços de mídia, como na Premier League ou na Copa do Brasil, com a liga/CBF buscando as receitas e repassando os valores a partir de determinado planejamento. Logo, problemas hão de aparecer (também na Turner).

Como citar

SANTOS, Anderson David Gomes dos. Flamengo x Globo: processo aberto pelo clube acentua problemas na transmissão do Brasileirão. Ludopédio, São Paulo, v. 128, n. 15, 2020.