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Florence e eu: fascinação, esportes, drogas

Wagner Xavier de Camargo

Florence Griffith-Joyner era uma mulher e tanto. Foi uma corredora estadunidense do atletismo, nas provas de velocidade e revezamento, que deixou o planeta perplexo mediante seus resultados nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988. Foram três medalhas de ouro nos 100m, 200m e revezamento 4×100 metros. Nos dois primeiros eventos mencionados, ela registrou recordes que até hoje perduram: 10s54 (nos 100 m) e 21s34 (nos 200 m). Numa época ainda dominada por homens no esporte, esta mulher quebrou estereótipos de gênero e se torna a mais veloz do mundo!

Em fins daquele ano de 1988, com a engrenagem hormonal de meu corpo a mil, Florence me causava extrema fascinação. Parecia uma mulher corajosa, aparentemente independente, usava batons marcantes e possuía longas e espalhafatosas unhas postiças, um estilo que a caracterizou publicamente perante as câmeras de televisão que cobriam aqueles jogos. Em tempos em que a internet ainda era inacessível para grande maioria das pessoas, eu buscava informações sobre Flo-Jo, como era conhecida, nas bancas de jornais e revistas.

Florence e eu estávamos, de certo modo, imbricados. Ela literalmente “voava” sobre pistas de atletismo quando corria, impunha seu jeito peculiar de ser, desafiava regras e costumes considerados “recatados” para uma atleta mulher e ousava. Eu era um adolescente tímido, mais calado do que falante, considerado um magrelo e desajeitado que usava óculos fundos-de-garrafa e sem coragem para nada, nem para encarar os garotos-do-fundão, que viviam querendo me bater. Claro que de modo unilateral, porém a fascinação estava, então, ali estabelecida: uma mulher atleta como figura forte me inspirava, muito mais do que o insosso Carl-Lewis, por quem eu me impressionara nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984.

Eu e Florence tínhamos, portanto, algo em comum: ao passo que, já naqueles tempos, era exposto a elementos da vida adulta (como cigarro, álcool e maconha), considerados perniciosos para um pré-adolescente de 14 anos que ainda brincava de carrinhos, ficou-se sabendo mais tarde que, na mesma época, Florence flertava com o perigo no consumo de substâncias proibidas para o desempenho esportivo. A suspeita recaiu fortemente sobre o treinamento secreto dado pelo seu marido Alfredrick Alphonzo ‘Al’ Joyner (ex-medalhista de ouro em 1984 no salto triplo) e por sua performance rapidamente incrementada entre as eliminatórias olímpicas de 1987 e os Jogos de Seul. Florence e eu, apesar habitar mundos distintos, estávamos sendo expostos a substâncias ilícitas à disposição em nossos círculos sociais, talvez mesmo sem ter noção dos danos potencialmente fatais que poderiam nos causar.

Os Jogos Olímpicos de Seul foram os primeiros nos quais casos de doping se tornaram escândalos. Lembro-me de uma polêmica quando dois atletas búlgaros do halterofilismo foram pegos no teste antidoping, o que desencadeou a deserção de toda a equipe da Bulgária da modalidade. E o caso mais famoso, mundialmente televisionado e que impressionou a todos, foi o teste positivo do canadense Ben Johnson, que nem dois dias depois de ter conquistado a marca recorde de 9s79 nos 100 m, o “homem mais veloz do mundo” teve que devolver sua medalha quando admitiu ter consumido estanozolol, uma droga para melhorar a performance na corrida.

A partir dessa época começam a espocar notícias sobre substâncias dopantes e abusos de atletas de várias modalidades. A Agência Mundial Anti-Doping (WADA) surgiria nove anos mais tarde, porém o Comitê Olímpico Internacional (COI) já tinha uma longa lista de substâncias ilícitas e que incrementariam o rendimento esportivo, caso consumidas. Pesquisas mais recentes mostraram que o uso delas remete aos anos da Guerra Fria, que materializou via esporte a acirrada disputa pela hegemonia mundial entre Estados Unidos e União Soviética. Os Jogos de Seul, por sua vez, mostravam outras nações na disputa no quadro de medalhas (a exemplo da Alemanha Oriental) e uma já incipiente multipolarização de lugares por parte das mesmas num redesenho da geopolítica mundial – foi o que ocorreu, de fato, a partir das Olimpíadas de Barcelona, em 1992.

Florence Griffith-Joyner morreu em sua casa, vítima de uma asfixia em meio a um ataque epiléptico, exatamente dez anos depois dos Jogos que a glorificaram. Afastada há anos das pistas, seu falecimento trouxe à baila suspeitas de forte consumo de drogas anabólicas, o que talvez tenha causado uma morte precoce aos 38 anos. Minha vida, por sua vez, mudara muito desde 1988 e, em pouco tempo, me tornei um adolescente universitário, morando em outra cidade, cursando ciências sociais, e, curiosamente, praticando atletismo.

Agora em 2018 completou 20 anos do falecimento de Flo-Jo. Em que pese os mistérios relativos a ele, Florence ainda aciona em mim uma fascinação de quem ousou desafiar a morte para vencer/ultrapassar limites: biológicos, pois quis voar ao correr, e de gênero, de uma mulher de fibra, transgressora, que se impôs no mundo masculinista do esporte como ícone. Para além do senso comum que considera o/a usuário/a de doping “covarde” pelo uso de substâncias “proibidas”, penso que empurrar o corpo para o abismo do desconhecido, além dos limites convencionais estabelecidos, é ação, no mínimo, enigmática e digna de ser analisada.