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Escala de folgas

Leandro Marçal

Teresa perguntou dos meus planos. Reparou que fiquei um bom tempo olhando o calendário nas últimas semanas. Ele fica ao lado do retrato de família, à frente da tela do computador, para não perder a conta dos dias. Por aqui, esse tipo de foto é sinal de normalidade e ajuda nas promoções e aumentos.

Ela não muda o mês das férias há mais de cinco anos e anda resistente para trocar os dias de descanso. Num almoço da semana passada, não entendeu meus motivos. Não vou viajar, nem terei a visita de familiares, tampouco vou organizar uma festa de aniversário de crianças, dessas em que pais e mães estão preocupados com a reação de outros pais e mães.

Podia perfeitamente explicar que a culpa é da Rússia. Mas, no escritório ninguém gosta de futebol. Quando não é taxado de ópio do povo, é tido como um costume de gente humilde e seus eufemismos. Nós, engravatados em escritórios, viciados em planilhas, tabelas e controles de orçamento, não somos disso.

Nessas cadeiras confortáveis, ninguém está muito preocupado com os 64 jogos entre seleções. Não ouço e nem ouso falar de bolão, chaveamento, partidas históricas ou mesmo um bom churrascão quando a seleção brasileira estiver em campo. Nada disso.

E olha que eu acumulei bons números no banco de horas, entreguei trabalhos com antecedência e tentei ser bem visto no último ano, para não perder uma partida que fosse. Aí vem o RH daqui, uma troca de datas dali, outra alteração de setor acolá e já viu: precisei negociar o mês da Copa, meu maior medo desde que assinei aquele contrato.

Na época de escola, tinha certeza de passar um mês no sofá em frente à TV e era capaz de soletrar nomes de zagueiros do leste europeu. Nos antigos empregos, quando os serviços braçais pagavam minhas contas, todo mundo parava na cantina e só voltava à labuta após o apito final. Agora, o desespero toma conta de mim.

Kremlin - Sorteio para a Copa do Mundo de 2018 na Rússia. Mikhail Shapaev © Organização pública russa "União do futebol russo", 2017

Kremlin e a Copa do Mundo de 2018 na Rússia.
Mikhail Shapaev © Organização pública russa “União do futebol russo”, 2017.

Nunca entreguei atestados, jamais respondi desaforos e mesmo quando precisei ficar até depois do expediente, encarava o sacrifício como um investimento para a Copa do Mundo. Depois de décadas anotando tabelas, preenchendo álbuns de figurinhas, pintando ruas e gravando histórias na memória, não posso romper a tradição. Questão de princípios.

Esses desalmados vão aproveitar as ruas vazias para fazer compras no mercado, enquanto funcionários descontentes miram um celular escondido, em busca de informações dos resultados. Chegarão a suas casas mais cedo e ainda vão criticar a gritaria e os fogos se houver gols do Neymar ou do Gabriel Jesus.

Teresa está intransigente, é a funcionária mais antiga da casa. Não quer, de jeito algum, trocar seus dias de férias pelas minhas folgas pendentes. Disfarça, diz para conversarmos sobre isso depois. Como sou o mais novo daqui, vou ter que aceitar ver a Copa do Mundo por WhatsApp, me contentando com melhores momentos e programas noturnos.

Pensando bem, acho melhor pedir demissão. Tenho um dinheiro guardado, depois da Copa entrego uns currículos por aí.

Como citar

MARçAL, Leandro. Escala de folgas. Ludopédio, São Paulo, v. 107, n. 8, 2018.