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Fonte Nova: a síntese do futebol baiano, palco de sorriso e choro

Coriolano Pereira da Rocha Junior

O Estádio da Fonte Nova foi inaugurado oficialmente em 28 de janeiro de 1951, um ano após a Copa do Mundo de Futebol que o Brasil sediara e perdera para o Uruguai, em 1950. O jogo de abertura foi Botafogo x Guarany, duas equipes hoje ausentes do cenário esportivo baiano. Naquele início, a capacidade estimada de público estava em torno de 30.000 pessoas. A Fonte Nova viria para substituir o já velho Campo da Graça.

O estádio deveria ter sido uma das sedes da Copa de 1950, fato que muito orgulharia a Bahia, por a levar para a maior festa do futebol e, assim, receber em suas terras equipes, jogadores e torcidas de diferentes nações. Todavia, a obra não ficou pronta a tempo, condição que, ao contrário de orgulho, acabou por gerar uma insatisfação para o baiano, não apenas por perder a chance de sediar jogos da Copa, mas também, por naquele momento, ter se sentido à margem de uma pretensa capacidade criadora e renovadora que se vivia no país. Mais uma vez a Bahia ficava de fora da festa nacional, mesmo com toda sua importância e tradição.

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Antigo estádio Octávio Mangabeira. Foto: Agência Brasil.

Mesmo com esse dissabor inicial, durante décadas a Fonte Nova animou tardes e noites de futebol soteropolitano e mesmo nacional, sendo palco das principais competições futebolísticas locais e brasileiras. O estádio assumiu um lugar especial no coração baiano, que, além de nele viver os prazeres do futebol, acabou por ver nele, mesmo com o atraso da inauguração, um orgulho da arquitetura baiana. Obra do escritório do arquiteto Diógenes Rebouças, um dos gênios baianos, cravado próximo a um cenário na época bucólico e querido, o Dique do Tororó, que foi construído no século XVII, para ser uma frente de proteção da cidade, que, então, se concentrava na parte alta e que foi, aos poucos, perdendo essa função e passando a fazer parte do cotidiano soteropolitano.

Foi essa Fonte Nova que existiu em Salvador, até que a cidade entendeu que era preciso um novo estádio, ou melhor, era necessário revigorar e ampliar a Fonte Nova, já que a original se tornara pequena para os grandes públicos que lá iam.

A remodelação previa a construção de um segundo anel de arquibancadas, que permitiria a ampliação do público. Durante as obras, os baianos lidaram com dúvidas e inquietações quanto à capacidade de segurança do estádio, se perguntavam se as bases do antigo estádio suportariam a nova estrutura e, aí, lembravam-se de que a Bahia não foi capaz de construir o Estádio a tempo da Copa de 1950 e que, mesmo após a inauguração em 1951, foi mesmo aproximadamente um ano após isso que os trabalhos foram finalizados, até então ainda havia uma condição provisória.

Após tanta espera, dúvidas, excitações, chegava a hora da nova inauguração, se abriria um novo marco no futebol baiano.

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Vista aérea da Fonte Nova. Foto: ME/ Portal da Copa.

Era verão em Salvador, mais um dia de sol, mais um dia de futebol na Fonte Nova. A cidade para lá se virava em festa, afinal, jogariam nesta data Bahia e Vitória, os dois clubes com as maiores torcidas do estado. Outros dois grandes clubes brasileiros lá estariam, o Clube de Regatas Flamengo (Rio de Janeiro) e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense (Porto Alegre). Os jogos seriam Bahia x Flamengo, de abertura, e Vitória x Grêmio, no fechamento da dupla rodada de festa. Sobre a inauguração, o Jornal dos Sports e também o Jornal do Brasil (Rio de Janeiro, 04/03/1971), além de anunciarem a programação, definiam o novo estádio como um dos maiores e mais bonitos do país, com capacidade oficial de 110.000 pessoas.

Acontece que a jornada, ao invés de ser de festa, foi de dor. Durante a rodada, no segundo jogo, um desastre aconteceu e acabou gerando acidentes e mortes, e, assim, o novo estádio baiano, teve sua reabertura marcada pela dor. Em 5 de março de 1971, o Jornal dos Sports e também o Jornal do Brasil estampavam que explosão e pânico causaram a tragédia.

Como dito, na população sempre houve dúvida sobre a segurança no novo estádio e foi assim que o estouro de uma lâmpada provocou estardalhaço, correria e desespero, provocando os acidentes e as mortes. Ou seja, o temor inicial acabou gerando uma onda de pavor, levando as pessoas a pensarem que seria um desabamento. Para além disso, a platéia estava acima do indicado, com pessoas espremidas em grades.

A Fonte Nova, espaço querido do soteropolitano, templo do esporte bretão jogado em terras baianas, sempre foi palco de festas, de alegrias e comemorações, de sorrisos por vitórias, de lamentos por derrotas, mas, também, em alguns momentos, de dor por tragédias. Tragédias estas que não se coadunam com o espírito da torcida baiana, independente de seu time de coração, mas aconteceu e a Fonte Nova, se calou e chorou. Esta relatada foi uma, outra ainda aconteceu, mas isto fica para depois.

Por enquanto, fiquemos com a imagem de uma Fonte Nova aberta para o Dique, que sorri para a cidade, que alegra e se alegra com a presença do público em suas arquibancadas.