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Fora de casa

Gil Luiz Mendes, Maurício Targino

As histórias de torcedores nordestinos que fazem dos bares paulistanos ponto de encontro para matar a saudade da terra e acompanhar seus times do coração

 

Embaixada do Bahia em São Paulo se reúne desde 2009 para matar saudades do Tricolor da Boa Terra. Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia.

“Saudade é um parafuso
Que na rosca quando cai,
Só entra se for torcendo,
Porque batendo num vai
E enferrujando dentro
Nem distorcendo num sai”
(Antônio Pereira, poeta e cantador de Itapetim-PE)

As histórias a seguir falam sobre uma saudade que é levada no peito, exatamente abaixo do escudo do clube, de pessoas que deixaram o Nordeste para morar em São Paulo. Hoje os motivos das mudanças são bem diferentes de tempos passados, quando homens e mulheres corriam da seca em busca de uma vida melhor na parte mais pra baixo do mapa. O que liga essas gerações é o pertencimento a um lugar, sentimento que permanece inquieto ao passar do tempo. Saudade boa é saudade matada, reza um dito daquelas bandas. O futebol e o encontro entre semelhantes fazem com que a terra natal fique mais perto. Noventa minutos e alguns amigos diminuem distâncias e ausências.

O garçom Marquinhos é torcedor do Santa Cruz, mas veste a camisa do Náutico para agradar os clientes do bar em que trabalha. Foto: Leandro Godinho.

A distância é uma ilusão criada por cartógrafos

Saindo do número 489 da Rua Wizard, dobra à direita, atravessa para o outro lado da Rua Fradique Coutinho até chegar ao estabelecimento de número 1100. O percurso de mais ou menos 250 metros não dura três minutos: é a distância que separa Pernambuco da Bahia no centro do boêmio bairro da Vila Madalena, na Zona Oeste da capital paulista.

Nesse perímetro, ao menos uma vez por semana, o Nordeste fica mais perto. Até o clima frio e seco parece receber toda a umidade das brisas que sopram litoral abaixo. Os sotaques e as cores ficam mais familiares. Lá e em alguns outros pontos de São Paulo, o individual da cidade, que para muitos é cinza, abre espaço para o coletivo mais colorido. Vermelho e branco; vermelho e preto; preto e branco; vermelho, preto e branco; vermelho, branco e azul.

O primeiro endereço é um recinto pernambucano, tem nome de iguaria sul-americana e, dependendo do dia da semana, é ocupado por uma torcida diferente. Terças e sextas, é pintado de vermelho e branco, nas quartas e domingos, recebe as duas cores mais o preto. Em alguns sábados, dependendo da tabela das séries A e B do Campeonato Brasileiro, é necessário dividir o salão para receber as torcidas de Santa Cruz e Náutico.

O segundo logradouro é barulhento e festivo na mesma proporção em que é organizado e planejado. É lá que os soteropolitanos que escolheram três cores para torcer se reúnem para matar as saudades de Salvador. Sim, o Esporte Clube Bahia é o maior motivo para esses encontros, mas também relembrar músicas de antigos carnavais faz parecer que a capital baiana não está tão longe.

Há quem por um motivo ou outro prefira um lugar só seu. Com identidade própria. Além de compartilharem das mesmas cores e dos mesmos mascotes, torcedores de Sport e Vitória não dividem o mesmo bairro dos seus rivais na capital paulista. Os baianos escolheram o bairro de Pinheiros, próximo ao Largo da Batata, tradicional reduto nordestino na Zona Oeste paulistana. Os rubro-negros pernambucanos fincaram bandeira na Bela Vista, região central.

Torcedores do Bahia vão ao hotel da delegação antes da partida contra o Oeste. Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia.

No bar, na estrada, no estádio

São pouco mais de sete da noite de sexta-feira em São Paulo, e com o horário de verão o sol ainda brilhava instantes atrás. Enquanto muitos seguem presos no escritório à espera do final de semana, dezenas de nativos da Boa Terra lotam o bar da esquina entre as ruas Aspicuelta e Fradique Coutinho.

Seria apenas mais um encontro entre os membros da Embaixada do Bahia na capital paulista, mas este é especial. Além da rara ocasião de encontro fora de dia de jogo — que aconteceria na tarde seguinte, em Barueri (SP), contra o Oeste, pela Série B — é também a primeira confraternização realizada com o apoio do clube no lugar escolhido pelos torcedores.

“Não somos uma torcida organizada e fazemos questão de deixar isso claro”, conta o publicitário Paulo Adriano Moreira, o P.A., morador de São Paulo há sete anos e atual presidente da Embaixada do Bahia. Minutos antes, um outro sujeito contara a história de dois integrantes que foram confundidos com membros de uma organizada do Bahia aliada à do Palmeiras e, por pouco, não levaram uma surra de corintianos no metrô da Estação da Luz.

“A única coisa que fazemos aqui é ‘comer água’ [gíria para se embriagar], matar saudades e torcer para o Bahia”, diz o também publicitário Lucas Ferraz, que desembarcou na capital paulista seis anos antes.

A conversa toda acontece na calçada. Dentro do bar, só se ouve clássicos da axé music e cantos da torcida do Bahia, executados por uma banda cujos integrantes se revezam ao microfone e nos instrumentos. Um deles é Rubens Moura, cujo filho Gabriel mudou-se de Salvador para São Paulo há três meses. “Meu pai tá lá dentro tocando e cantando. Ele diz que veio me visitar, mas acho que foi só desculpa pra vir ao jogo”, conta Gabriel em meio a risadas. “Moro sozinho e esse bar meio que virou minha casa, e essa galera, minha família.”

No dia seguinte, muitos dos que foram ao bar não sabem dizer a que horas a festa terminou. “É capaz de ter gente lá até agora”, diz um deles. É meio-dia, e uma equipe de TV faz entrevistas e imagens do grupo, que aumenta na mesma proporção em que latas e garrafas de cerveja são esvaziadas. Dois ônibus — chamados de 59 e 88, em alusão aos dois títulos nacionais do Bahia — estão estacionados próximos ao Museu de Arte de São Paulo à espera dos torcedores que irão a Barueri.

Um sujeito bigodudo e barulhento chega e é abordado por vários torcedores. É o segurança Alberto Gomes, o Beto. “Vim a São Paulo passear e fui ficando. Já são 12 anos aqui”. Figura folclórica entre os tricolores baianos exilados na capital paulista, ele se desculpa por não ter ido à confraternização, pois havia marcado para ir ao pagode com a esposa. “Comi tanta água quanto vocês, então tá tudo certo”, diz ele enquanto abre uma cerveja.

Enquanto os batuques soam alto na parte traseira do ônibus 59, P.A. e outros integrantes debatem a possibilidade de passar no hotel onde o time está hospedado. A intenção é surpreender os jogadores com um corredor humano até o ônibus que levará o time ao estádio.

O barulho quebra o fator surpresa. Os jogadores — e os hóspedes — escutam tudo de dentro do hotel. Alguns deles se mostram realmente tocados com a demonstração de apoio, outros parecem não se importar tanto. A Arena Barueri está a menos de dez quilômetros.

O taxista Deusdete não quis revelar seu sobrenome. Lá se vão mais de três décadas desde que deixou a pequena Santaluz, aos 18 anos, rumo a São Paulo. Lembra com exatidão o dia em que chegou: 15 de fevereiro de 1985, véspera de sábado de Carnaval. Duas semanas depois, viu seu primeiro jogo do Bahia na capital paulista: derrota por 2 x 0 para o Corinthians no Pacaembu. “Desde então vou pra tudo que é jogo do Bahêa em São Paulo. Pacaembu, Morumbi, Canindé… só não fui a Santos”. Pai de uma filha são-paulina e um filho palmeirense, não se incomoda com as escolhas da prole. “Sou um desportista. Respeitaria até se eles fossem Vitória”, sorri.

A fila para comprar ingresso toma uns 15 minutos de espera, seguidos de outros 25 para entrar. O conferente Júnior Braga acompanhou de perto a construção do estádio, inaugurado em 2007: desde 1994 ele mora a alguns metros dali. A bola já está rolando e ele vocifera contra o 3G, que não atualiza a transmissão em tempo real pelo celular. “Se sair gol a gente vai saber”, diz o pedreiro Ailton Soares, que veio de Diadema (SP), onde mora desde 1998. “É melhor entrar com o placar em 0 x 0”, diz seu colega de profissão Enildo Rodrigues, que mora em Cotia (SP) há 14 anos. “Vai que o Bahia faz 1 x 0 agora e toma o empate na hora que a gente entrar”, pondera. O vizinho da Arena Barueri não conhecia os outros dois. O recém-formado trio mostra entrosamento ao lembrar do time bicampeão baiano em 1993–94. “Com Marcelo, Raudinei e Naldinho não tinha para ninguém”, diz Júnior, antes de atravessar a catraca e correr rumo às arquibancadas.

O primeiro tempo já está quase na metade e os minutos não vistos parecem não fazer falta. Nada de interessante acontece em campo, ao contrário do setor de visitantes, lotado por quase três mil tricolores. A cantoria e a batucada são constantes. O apoio, incondicional. Mas o time do Bahia não ajuda e o placar imaculado faz justiça ao futebol visto. Sentado no primeiro degrau da arquibancada, o vidraceiro André Magalhães é outro a sentir falta do time de 1994. “Se tivéssemos um Paulo Emílio na armação, um Naldinho, um Marcelo Ramos no ataque, já estaríamos ganhando o jogo”.

Para André, foi o maior Bahia que ele viu jogar. Nascido no bairro da Ribeira, foi frequentador assíduo da Fonte Nova até 1999, quando mudou-se para São Paulo. Mesmo indo à terra natal pelo menos a cada dois anos, não foi ao estádio que agora é arena. “A última vez que pisei na Fonte Nova foi em 96 ou 97, contra a Portuguesa (N.A. foi em 1996, Bahia 1 x 3 Portuguesa). Engraçado que o primeiro jogo que vi em São Paulo também foi contra a Portuguesa”, relembra. “Tinha o Daniel Alves, teve gol daquele atacante que depois jogou no Ceará… Sérgio Alves” (N.A. O jogo terminou em 2 x 2).

A despeito de todo o apoio efusivo da esmagadora maioria do público, foi o Oeste que saiu na frente. Sem esfriar o ânimo, a torcida empurrou o time rumo ao empate e seguiu fazendo barulho até o apito final. A euforia das últimas horas deu lugar a uma indisfarçável frustração. “Está vendo esse estádio? Guarde bem cada detalhe. Ano que vem estaremos aqui novamente”, diz alguém na arquibancada, sugerindo que o time continuará na segunda divisão por mais uma temporada.

No bar ao lado do estádio, torcedores do tricolor baiano jogam dominó enquanto a jukebox toca o hino oficial do Bahia repetidas vezes. Ao lado do ônibus, um dos torcedores mostra algumas manchas na pele do atabaque.

“Sabe o que são? Sangue. Sangue que demos pelo time, sangue que esses caras não deram hoje. Nem cumprimentar a torcida depois do jogo eles vieram”, lamenta um torcedor. “Quer moleza, vai torcer pro Barcelona. Bora, Bahêa, minha porra”, grita outro.

Torcida Leões de Sampa se tornou o primeiro consulado oficial do Sport. Foto: Walfrido Neto/Arquivo Pessoal.

A toca do Leão

Walfrido Freire Neto está com virose. É início de tarde de domingo, e logo mais o Sport terá uma partida dura contra o líder do Brasileiro, o Palmeiras. Ele gostaria que o motivo da falta de apetite — praticamente não se alimentou nas últimas 24 horas — fosse o nervosismo pré-jogo.

Quando o assunto é Sport Club do Recife, não é de fraquejar. Mas este jogo, disputado a poucos metros do apartamento onde mora e cujo estádio pode ser visto da janela, parece exigir mais do que o da semana anterior, contra o Vitória. Walfrido fez uma viagem-relâmpago ao Recife apenas para assistir à partida, na qual puxou o grito de guerra do time no meio das arquibancadas. “Mesmo morando há mais de dez anos em São Paulo, Recife sempre parece estar mais perto do que a esquina de minha rua”, diz ele.

A torcida que fundou seis anos antes — e que se tornou o primeiro consulado oficial do clube — ajuda a matar a saudade da capital pernambucana. De tanto se encontrarem no setor de visitantes dos estádios paulistanos quando o Sport jogava na cidade, Walfrido e outros torcedores perceberam que seria interessante se reunir para ver também partidas transmitidas pela TV. Assim, a vitória magra por 1 x 0 sobre o América-MG, pela Série B, na noite de 31 de agosto de 2010, marcou a fundação da Leões de Sampa.

A aproximação entre torcedores, que em sua maioria não se conheciam no Recife, facilitou a organização de viagens para jogos do Sport em cidades próximas — ou nem tanto — da capital paulista.

“Fui de ônibus daqui até o Paraguai por causa desse time”, conta Gilmar Cândido, apelidado de Nego Doce, que mora em São Paulo desde 2003. “Assim que o time se classificou para enfrentar o Libertad na Copa Sul-Americana (de 2013) fui logo pedindo folga no trabalho”, diz. “Não quis nem saber se algum conhecido iria junto.”

Algumas das histórias de Nego Doce se tornaram folclóricas na Leões de Sampa. Certa vez foi de São Paulo a Curitiba sem checar a previsão do tempo para a capital paranaense. “Como eu ia só assistir ao jogo e voltar logo depois, fui só com a roupa do corpo e a carteira”, conta. Por roupa do corpo entenda-se uma camisa regata no mínimo inadequada para encarar a temperatura abaixo de dez graus naquela tarde.

No bar que atualmente serve de sede para a Leões de Sampa, no bairro da Bela Vista, é fácil perceber que o jogo do Sport está para começar. Não apenas pelas camisas rubro-negras que começam a chegar por volta de uma ou duas horas antes do apito inicial. Há todo um ritual de preparação do ambiente. Bandeiras, faixas e toalhas de mesa nas cores vermelha e preta deixam o lugar com cara de Ilha do Retiro. O cardápio de pratos nordestinos, a cerveja gelada e os instrumentos musicais completam a atmosfera, que volta e meia causa um certo espanto aos frequentadores “comuns”.

O jogo da noite é contra o Vitória, adversário direto na luta contra o rebaixamento. A tensão que parecia ter se dissipado com o gol de Diego Souza aos cinco minutos de jogo retorna com toda a intensidade em dois pênaltis contra o Sport marcados em um curto intervalo de tempo. Ambos desperdiçados pela equipe baiana.

Ao contrário do que se poderia sugerir, o nervosismo não dá trégua. Alguns lidam com isso esvaziando garrafas de cerveja em ritmo acelerado. Outros se arriscam a puxar algumas canções de incentivo ao time — algumas compostas pelos próprios integrantes da Leões de Sampa — acompanhados pelos instrumentos que se revezam entre aqueles com algum talento musical e outros nem tanto. Há quem prefira rezar para encarar o tempo que parece não passar. Mas passa. O juiz apita o fim do jogo. O Sport segue fora da zona de rebaixamento.

Uma semana depois, o exorbitante preço do ingresso no Allianz Arena atrai menos torcedores do Sport do que o esperado. O espectro da violência entre torcidas também parece afugentar os visitantes. Isso é percebido logo na entrada, quando um oficial da Polícia Militar pede para que todos entrem logo, pois “se eles (a torcida do Palmeiras) resolverem vir para cima de vocês a gente (a PM) não pode fazer milagre”.

Dentro do estádio, a empolgação vista no bar é quase inexistente. Cadeiras estreitas, fiscais que pedem para que os torcedores assistam sentados e toda a sorte de restrições tiram a magia outrora proporcionada por um estádio de futebol. Ao final, o placar desfavorável de 2 x 1 é menos incômodo do que as falhas de arbitragem, cruciais para o resultado. Mas a maior derrota parece mesmo ser a impossibilidade de fazer no estádio uma festa semelhante a que o bar na Bela Vista recebe toda vez que o Sport joga.

O alemão Wolfgang viu a festa dos torcedores após o gol do Náutico e decidiu pagar uma rodada de cerveja. Foto: Tadeu Meyer.

Itinerantes de vermelho e branco

Muitos do que vestem vermelho e branco no bar na Vila Madalena no início da noite de sábado ainda não moravam em São Paulo quando um grupo de torcedores do Clube Náutico Capibaribe decidiu formar a Confraria Timbus da Garoa, após um empate sem gols contra o Santo André em novembro de 2011. O resultado garantiu matematicamente o acesso da equipe à Série A no ano seguinte.

O economista Saulo Moraes havia chegado a São Paulo pouco tempo antes e estava no jogo que marcou o começo da confraria. “No início, assistíamos aos jogos em um bar lá no Itaim, mas ele não abria aos domingos, o que era um problema nos jogos do Pernambucano e da Série A”, conta. “Passamos então a assistir na casa de Bruno [Fernandes, empresário e uma espécie de “presidente” da Confraria] ou no bar dele em Higienópolis”.

“Conta logo que você faz campanha contra esse bar”, interrompe em meio a risos a administradora Marina Correia, moradora de São Paulo há dois anos e meio. Saulo explica, também rindo. “Não é campanha contra, é porque o outro bar ficava na esquina da rua que eu moro. Pra vir aqui é quase como ir à Arena Pernambuco”, emenda.

A saída do estádio que recebeu quatro partidas da Copa do Mundo de 2014 e o retorno aos Aflitos é uma unanimidade entre os cerca de 25 torcedores distribuídos pelas mesas. Faz pouco mais de seis meses que eles decidiram se reunir no Empanadas Bar, mesmo local em que os torcedores do rival Santa Cruz já veem as partidas do clube há mais tempo.

“Não tivemos choque de horários este ano, nem teremos no ano que vem, já que vamos subir para a A e eles vão cair para a B”, ironiza o administrador Rafael Romanguera, que se mudou do Recife para a capital paulista em 2014 e tornou-se uma espécie de “primeiro-ministro” da Confraria Timbus da Garoa. “E se levarem a Coisa [apelido do Sport entre os rivais pernambucanos] junto vai ser melhor ainda”.

Mas para seguir pensando na volta à Série A como querem todos e no troféu da Série B como profetiza Romanguera, o Náutico precisa vencer o alvinegro cearense. A retranca e a catimba do Vozão, no entanto, são adversários duros. Em um primeiro tempo de poucas chances, o zero não sai do placar. O panorama pouco muda na etapa final, apesar de o time pernambucano criar mais chances. Em um curto espaço de tempo, dois gritos de gol são frustrados pela marcação de impedimento. “E a regra que diz que não pode marcar dois impedimentos em menos de cinco minutos? Juiz ladrão!”, grita Marina com um misto de humor e nervosismo. “Toda vez que Marina vem o Náutico não ganha”, afirma outro na mesa.

O Ceará se fecha no campo de defesa, e o relógio já marca os acréscimos de jogo. Ninguém se atreve a sair do bar ou a mover um músculo. Uma falta no lado direito do ataque transforma o nervosismo em um último fio de esperança. A bola é alçada na área, e o zagueiro Igor Rabello desvia para as redes. O grito de gol toma conta do bar e dos arredores. Sem que ninguém tenha pedido, cinco cervejas são servidas de uma só vez à mesa. Ninguém entende direito de onde vieram até que descobrem ser um presente de Wolfgang Haag, diretor-presidente da divisão brasileira de um laboratório de veterinária.

Com a má fase do Santa Cruz, poucos torcedores se reúnem para acompanhar os jogos pela TV. Foto: Danilo Souza/Arquivo Pessoal.

Haag passava pela frente do bar com a esposa no exato instante em que saiu o gol. Apaixonado por futebol, o alemão que mudou-se para o Brasil em 2015 chegou a jogar nas divisões de base do Colonia. “Vi essa festa e tive que parar e aproveitar um pouco dela”, diz ele em português. “Agora você tem um time para torcer no Brasil”, dizem os eufóricos alvirrubros enquanto entregam a bandeira do Náutico para o mais novo membro da torcida.

Ainda estamos juntos

Raul Holanda é a única pessoa no Empanadas Bar com uma camisa do Santa Cruz. Senta, pede uma cerveja e conta os minutos esperando a chegada de algum outro tricolor. O segundo torcedor a chegar no recinto não usa o uniforme coral, mas sua camiseta tem as três cores do clube pernambucano. O terceiro e último componente do grupo a chegar naquela noite de quarta-feira é Fábio Trummer. Ele está vestido todo de branco.

Marquinhos, garçom e conterrâneo do trio, não estranha o baixo quorum. Já fazia tempo que, pouco a pouco, os torcedores do Santinha estavam diminuindo gradativamente a frequência no bar. Puxou pela memória e lembrou-se que há menos de um ano, no final de uma noite de sábado, um ônibus parava em frente ao estabelecimento e cerca de 30 ensandecidos tricolores invadiam o local enrolados em bandeiras comemorando o retorno à Série A do Campeonato Brasileiro, voltando da cidade de Itu (SP), onde o time havia vencido o Mogi Mirim por 3 a 0, encerrando um ciclo que durou dez anos e teve duras passagens por todas as divisões do futebol nacional.

Encostado no balcão e olhando para mesa com apenas três copos, o garçom, que também torce para o Santa Cruz, mas veste a camisa do Náutico nos dias de jogos do alvirrubro no mesmo local, teve outras recordações. No começo do ano, era complicado arrumar o salão para receber mais de uma dezena de torcedores e, ao passar das semanas, aquele número só aumentava. Por muitas vezes, torcedores de clubes paulistas se uniam aos santacruzenses por empatia pelo time e pela torcida. Em dois domingos consecutivos do mês de maio, dois títulos. Os gritos, a confiança, a alegria e as bandeiras foram sumindo no segundo semestre.

“Eu vim porque estava com saudades de vocês, não pela porcaria desse time”, disse um dos presentes na mesa com quatro cadeiras e um lugar vazio. “Eu não abandonei o time na Série D, vou abandonar agora que está na A”, retrucou Raul. Ao saber que o encontro resultaria nesse texto, Fábio foi enfático: “Pode colocar aí, a gente vem ver jogo no bar, vai para estádio, como visitante, levar chuva na arquibancada, pega um monte de vírus no computador com os links piratas, quando o jogo não passa na TV, mas ver o time jogar que é bom, até agora nada”.

Durante a partida contra o Botafogo, que deu a lanterna da competição para o time pernambucano, foram raras as jogadas que prenderam a atenção do grupo ali reunido. Enquanto Keno tentava pela quarta vez puxar um contra-ataque pelo lado esquerdo do ataque tricolor, o assunto era erro de estratégia e de planejamento da diretoria. Quando Uillian Correia perdia mais uma bola na intermediária, a ruindade de Doriva era amaldiçoada pelos três. Com o meio campo insistindo em modorrentas trocas de passes, era mais vantagem planejar como fariam para assistir ao show da Banda Eddie, grupo liderado por Trummer.

Na falta do Arruda, segundo maior orgulho dos corais perdendo apenas para a própria torcida, a parte radicada em São Paulo tenta matar a saudade do concreto das arquibancadas em cadeiras de madeira. Há um ano eles se reúnem semanalmente no Empanadas: não dão nome ao grupo, não têm embaixada, mas podem se considerar uma torcida organizada, no sentido mais romântico do termo. Talvez nem seja a intenção ser algo tão bem estruturado como é feito por torcidas rivais ou ter algum apoio da diretoria do clube. Se planejar para ir ao estádio juntos quando o clube vai à cidade, tomar cerveja e voltar a ter alguns hábitos comuns de sua terra já deixam o grupo pra lá de satisfeito.

Existe um ar de desconfiança entre os garçons do Empanadas, todos eles nordestinos. Não falam abertamente, mas se entreolham e ressaltam o semblante de dúvida. Olham para as três cadeiras ocupadas, que um dia foram trinta, e ficam a se perguntar por quanto tempo os torcedores do Santa Cruz vão permanecer frequentando o bar que tem nome de iguaria sul-americana e nenhum sotaque portenho. Talvez eles não saibam que teimosia e perseverança são qualidades que se misturam e viram uma característica própria da torcida do Santa Cruz. Eles já fizeram de tudo para acompanhar o time, como garimpar rádios pela internet para conseguir ouvir uma partida da Série C no Acre.

A Vitória Sampa começou por convites distribuídos nas arquibancadas. Foto: Gil Luiz Mendes.

Salvador é quase no Largo da Batata

Em 1983, Raimundo Rodrigues e Marcos Gabiza estavam no mesmo barco. Um remava e outro dava a direção para qual caminho a embarcação deveria seguir. Juntos levantaram a taça de campeão baiano de remo defendendo as cores do clube que amam. Trinta e três anos depois, não mais dentro da água, mas no Bar Castelo de Viana, em São Paulo, eles voltam a estar juntos graças ao Esporte Clube Vitória. Acompanhados por mais de 20 pessoas trajadas de vermelho e preto, eles riem, se abraçam, bebem e aguardam pelo início de mais uma partida do rubro-negro no Campeonato Brasileiro.

Naquele domingo, a esquina da Rua dos Pinheiros com a Bianchi Bertoldi lembrava Salvador. O frio, que por cinco meses era constante nos dias paulistanos, foi embora dando lugar a uma temperatura semelhante a que faz na maior parte do ano na cidade do Barradão. Em frente à TV mal dá para ouvir o que narrador e comentarista dizem. Pouco importa o que eles falam; todos ali presentes sabem que a situação do time na competição não é das melhores. A luta para ficar longe da zona de rebaixamento e permanecer na Série A faz parte da rotina há algum tempo. Eram comuns, nas conversas, as lembranças dos dois pênaltis consecutivos perdidos por dois jogadores diferentes na partida anterior contra o Sport.

Estava difícil, mas o retrospecto negativo da equipe não alterou a rotina da Vitória Sampa em dias de jogos. O grupo foi criado em 2015 com a intenção de organizar os torcedores do rubro-negro baiano na capital paulista. Boa parte dos integrantes se encontrava apenas nos dias em que o time atuava em São Paulo. Conversavam algo sobre a partida em questão e não passavam disso. Até o dia em que Raimundo, chamado por todos de Rai, teve a inciativa de distribuir nas arquibancadas um convite para quem quisesse entrar em um grupo do Whatsapp. Hoje, mais de 200 pessoas fazem parte desse grupo e metade pertence à Vitória Sampa.

A reunião, além de deixar mais próxima uma saudosa Bahia, serve também para outras finalidades. “Nosso grupo não se reúne apenas para torcer. Fazemos ações sociais, por exemplo, visitando recentemente uma creche, onde distribuímos mantimentos. Quem colaborou na campanha hoje vai participar de um sorteio para ganhar uma camisa do time”, explica Rai.

Há 26 anos, Ademilton Ramos deixou sua terra natal para morar no Sudeste. Se hoje grande parte dos torcedores que não podem acompanhar seus times de perto por morarem em outros locais não encontram tanta dificuldade para ter notícias do seu time graças à internet e à TV a cabo, o mesmo não ocorria no início da década de 1990.

“Quando queria saber como andava o Vitória tinha que ligar para casa, e os parentes me contavam as novidades. Depois passei a assinar a Placar que mensalmente soltava umas trinta palavras para falar sobre o Vitória”, lembra Ademilton largando o copo no balcão e com os olhos fixos na tela. Era o final de primeiro tempo, e o Cruzeiro vencia os donos da casa por 1 a 0.

Para cortar o clima de tensão e silêncio do bar, Marcos Gabiza gritava o seu bordão já conhecido pelos outros torcedores. “Me apoie!” Depois do berro, repetido por alguns, eram entoadas as mesmas músicas que também reverberavam no Barradão. O estádio localizado no bairro de Canabrava ganhava uma extensão em plena Zona Oeste de São Paulo. Os cânticos faziam Carlos Eduardo Batista, em sua cadeira de rodas, lembrar dos tempos que frequentava as arquibancadas em Salvador.

“O Barradão faz muita falta. A gente se junta para ver o jogo aqui, mas é claro que não é a mesma coisa.”

Se reunir no bar com os amigos é a forma que Carlos Eduardo Batista encontrou para diminuir a falta do Barradão. Foto: Gil Luiz Mendes.

No intervalo do jogo, o clima era de revolta. Se a diretoria do clube, que não oferece nenhum tipo de apoio ao grupo de torcedores que se reúne em São Paulo, atravessasse as portas do ambiente naquele momento, seria execrada. Boa parte do time também não foi poupado. Para aliviar a raiva trazida nos primeiros 45 minutos de partida, só com um gole de cerveja gelada. E foram muitos.

Os piores impropérios contra os jogadores e os que administram o clube estavam guardados para o final do jogo. Grande parte da ira rubro-negra foi causada, além da derrota, por uma única jogada. Pênalti para o Vitória. Cárdenas põe a bola em cima da marca e toma distância. Em São Paulo, com os olhos cerrados por trás dos óculos de grau, Davi Conceição põe as mãos na cabeça. Kieza se posiciona ao lado da grande área e fica de joelhos. Ademilton repete o gesto do camisa 9 e se posta no chão. Pela terceira vez, com três jogadores diferentes, a mesma cena. Fim de jogo. Algumas cabeças baixas, outros conformados que, até o final do campeonato, toda partida terá o mesmo sofrimento e a certeza de que a Vitória Sampa estará junta e que o Castelo de Viana será um pedaço de Salvador todas as vezes que o rubro-negro jogar.


Publicado originalmente no Puntero Izquierdo em 2016, que é uma revista digital de publicação de histórias de futebol.