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Forasteiros da América: uma reflexão sobre as seleções convidadas para a Copa América

João Pedro Durso Ponciano

No último dia 14 de junho, ocorreu o início da tradicional Copa América, competição centenária que nesta edição está sendo sediada no Brasil. Devido ao grande número de edições já disputadas nesses 103 anos, o torneio possui uma vasta história e peculiaridades que deram forma ao modelo atual utilizado há quase 30 anos.

Desde 1993 a Conmebol (Confederação sul-americana de futebol) adotou a medida de convidar duas seleções não pertencentes à América do Sul para participarem da Copa. Dessa forma completam-se 12 participantes, o que simplifica a organização dos grupos para a competição.

A Conmebol conta com 10 federações nacionais de futebol, são elas: Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela. Desse modo a competição, caso acontecesse somente com este número de participantes, demandaria uma quantidade maior de jogos e/ou um regulamento o qual poderia se tornar confuso.

O melhor método, com dez participantes, seria como o utilizado até a 35ª edição, em 1991, o qual consistia em dois grupos de cinco seleções na primeira fase. As duas primeiras de cada grupo classificavam-se para o quadrangular final. Jogando entre si, a equipe que conquistasse mais pontos no final dos jogos se consagrava campeã.

Dessa forma as quatro melhores seleções disputavam sete jogos em 21 dias, o que, para um jogador, somado à rotina de treinos e viagens, pode ser desgastante. Por esse e outros fatores a Organização alterou o método de disputa utilizando duas seleções convidadas.

Assim, o torneio completa 12 participantes, formando três grupos de quatro integrantes. Desta forma, realiza-se, na minha visão, um método melhor de disputa com um jogo a menos para os semifinalistas. Classificam-se para as quartas de final os dois primeiros colocados de cada grupo e os dois melhores terceiros colocados, totalizando ao final da fase de grupos quatro seleções eliminadas.

Além de Catar e Japão, outros “intrusos” foram Costa Rica, Estados Unidos, Haiti, Jamaica, México e Panamá. Em 2011 quase houve a participação da seleção espanhola, mas, para que houvesse o descanso dos atletas no intervalo inter-temporadas, a federação de futebol do País recusou o convite. Outra seleção convidada para o ano de 2011, mas que não participou, foi a chinesa.

Torcedores do Catar na estreia da Copa América. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

A necessidade de que sejam convidadas duas seleções “forasteiras” para completar o chaveamento deixa dilemas em aberto e uma dúvida sobre quais os impactos podem ser causados caso haja triunfo de algum dos convidados. Nenhuma seleção de fora foi campeã da Copa América até os dias atuais. As duas melhores campanhas de convidados foram da seleção mexicana, vice-campeã nas edições de 1993 e 2001.

O dilema de identidade colocado neste trecho seria qual a melhor escolha de seleções convidadas para o torneio. Convidar seleções completamente exteriores, vindas até então com exclusividade da Ásia? Ou oferecer a vaga para seleções provenientes da América Central e do Norte, porém mais qualificadas e com chances de título, como o exemplo maior o México? A Conmebol parece ter encontrado uma saída para este dilema convidando, ao longo das edições, seleções da América Central com menor expressão no futebol (como são Costa Rica, Jamaica e algumas outras). As participações delas foram menos expressivas que as mexicanas e estadunidenses em um âmbito geral, não saindo da fase de grupos.

Entretanto, durante esses 26 anos, a seleção japonesa foi convidada em algumas edições deixando, dentre algumas perguntas, o porquê a preferência pelo Japão juntamente com outra seleção do continente americano.

A seleção japonesa é um ótimo disfarce de poder técnico para a competição Sul-Americana. Como o Japão é dominante nos torneios futebolísticos asiáticos há algum tempo, dá a impressão de um time competitivo e com um nível que pode se equiparar com as equipes da Conmebol. Porém, o nível médio das equipes asiáticas é bastante abaixo das seleções Sul-Americanas, o que pode ser medido pelo Ranking de Seleções Masculinas da FIFA. Nesse, as equipes estão, em sua maioria, no top 30, enquanto as asiáticas encontram-se na borda médio-inferior. Portanto, a ideia de convidar o Japão é passar a impressão de superioridade continental utilizando o maior campeão asiático para que as seleções sul-americanas vençam o time japonês apresentando domínio dentro de campo.

Ao longo dos anos apareceram outros interesses com os convites às seleções asiáticas. Em 2011, o interesse à participação chinesa se deu devido ao crescimento do mercado de futebol chinês que estava em um processo para se tornar uma potência financeira que é hoje. A concretização dessa proposta aproximaria os consumidores de futebol das Américas ao futebol chinês como um todo.

E por fim, o convite à seleção do Catar, a qual vem em fase de organização para a Copa do Mundo de 2022, que acontecerá em solos do Oriente Médio pela primeira vez. Esse convite é, possivelmente, uma tentativa de apresentação do futebol catariano, o qual não possuía reconhecimento mundial e sofre várias críticas devido a escolha do país como sede para a copa. Porém este assunto demandaria outra produção textual.

Torcedor do Catar na estreia da seleção no Maracanã. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

Com a participação das seleções centro-americanas, a necessidade de convidados fica, de certa forma, mascarada devido a familiaridade que essas equipes apresentam para os sul-americanos. Dessa forma, pode ser menos estranho ao torcedor assistir uma partida que abrange seleções do continente americano que asiáticos ou outro continente. Ao longo dos últimos anos, principalmente o futebol latino de algumas seleções vem se equalizando em nível competitivo, ou no caminho com uma boa evolução. Caso da Costa Rica, Honduras e Panamá as quais, mesmo ainda sendo fragilizadas, já possuem alguns resultados positivos nos últimos anos e poderiam agregar bastante à Copa América.

Dessa maneira, acredito que seria completamente positivo se a Conmebol visasse o futebol da Concacaf (Confederação de futebol da América do Norte, Central e Caribe) como prioridade para a Copa América, assim como já foi feito na maioria dos anos, principalmente com as seleções estadunidense e mexicana. Vejo o fato das participações de países asiáticos na Copa América somente com pontos negativos, desnecessários de acontecer devido ao número de seleções que são nossas vizinhas e poderiam disputar a competição.