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França bicampeã da Copa: glória, imigração e preconceito

Thiago Rosa

Estádio Lujnik, Moscou, 15 de julho de 2018. França derrota a Croácia pelo placar de 4 a 2 e, após 20 anos, vence pela segunda vez uma Copa do Mundo. Assim como em 98, prevaleceu nos gramados russos a dedicação e o talento de jogadores cujas raízes vão muito além do território francês. Era a nova geração Black-Blanc-Beur (negros, brancos e árabes), mostrando a estreita relação entre futebol e imigração no país.

Dos 23 atletas comandados pelo técnico Didier Deschamps, nada menos do que 19 nasceram ou vêm de famílias que migraram para a França. Revelação do Mundial, Kylian Mbappé, por exemplo, é filho de um camaronês e de uma argelina. Dos 11 titulares da final, só o goleiro Lloris, o lateral direito Pavard e o atacante Giroud têm raízes totalmente francesas.

Situação bastante parecida a de quando os franceses conquistaram em casa seu primeiro título. Em 98, os grandes destaques da seleção também eram filhos de imigrantes. Lillian Thuram, que marcou os dois gols contra a mesma Croácia na semifinal, é filho de mãe solteira nascida em Guadalupe, uma ilha caribenha pertencente à França. O próprio Zinedine Zidane, maior craque do futebol nacional, tem origens na Argélia, antiga possessão francesa. É um protagonismo que tem relação direta não só com o futebol, mas também com o clima social.

Fundador da Frente Nacional – o partido de extrema-direita – Jean-Marie Le Pen nunca escondeu seu descontentamento com a miscigenação vista na seleção francesa. Em uma entrevista, o político já afirmou considerar “artificial” ter tantos “estrangeiros” e que a população não se identificaria com o time por haver muitos “jogadores de cor”. Presente no imaginário popular, a pseudo integração étnica e cultural da sociedade esbarra no preconceito de vozes e mentes da realidade.

Para piorar ainda mais esse cenário, após a conquista da Eurocopa de 2000 os franceses passaram a conviver com fracassos e decepções: eliminação na 1ª fase da Copa de 2002, perda na final de 2006 – com direito à cabeçada de Zidane em Materazzi – e vexame no Mundial de 2010. Em um contexto de crescente desemprego, crises migratórias no continente e ameaças terroristas, a seleção passou de vitrine a vidraça social. Nas glórias, torna-se o símbolo da integração. Nas derrotas, o alvo fácil da xenofobia e do preconceito.

“Dizem que todos admiram a seleção francesa porque ela é negra-branca-árabe. Na verdade, hoje é negra-negra-negra, o que a torna a piada da Europa”, disse em meados da década passada o filósofo Alain Finkielkraut, ao jornal israelense Haaretz. Espanto para muitos e um discurso corriqueiro para tantos outros que sentem na pele as dores da discriminação, inclusive atletas.

Um ano após a França ser eliminada ainda na primeira fase na Copa da África de 2010, o diretor-técnico da seleção, François Blaquart, sugeriu a criação de cotas para jogadores negros e de descendência árabe nas categorias de base da seleção. A polêmica veio a público quando a imprensa vazou uma conversa sobre o assunto entre ele e o então treinador, Laurent Blanc. Blaquart perdeu o cargo e o técnico foi inocentado.

Mais recentemente, em 2017, a seleção foi novamente pano de fundo para polêmicas raciais e étnicas, desta vez nas eleições presidenciais. Tudo por conta de uma declaração dada quase dez anos antes pelo atacante Karin Benzema, quando ele foi questionado se consideraria atuar pela seleção do país onde nasceram seus pais. “Argélia é o país dos meus pais e eu a amo muito, mas vou jogar pela França. Aqui a questão é esportiva e Argélia é meu país natal”, disse à época o jovem jogador do Lyon, segundo mostra o documentário Les Bleus – Uma outra história da França, exibido no Netflix. 

A frase do principal nome da França na Copa de 2014, reverberada nas redes sociais, foi um prato cheio para a Frente Nacional, da ultranacionalista Marie Le Pen, filha de Jean-Marie e candidata à Presidência. “Que ele jogue pelo ‘seu país’, se não está contente”, disse Marion Le Pen, sobrinha da líder conservadora derrotada no 2º turno pelo centrista Emmanuel Macron.

Pivô da polêmica eleitoral, Benzema deixou de ser convocado para a seleção no final de 2015, quando teve seu nome envolvido em um escândalo de chantagem com o colega de seleção, Mathieu Valbuena. O jogador até obteve um recurso na Justiça o livrando da acusação de pedir dinheiro para não divulgar um vídeo de teor sexual do compatriota, mas mesmo assim ficou de fora da lista de Deschamps. Para o atacante do Real Madrid, porém, foi justamente sua origem argelina e o fato de ser muçulmano que pesaram na sua não convocação.

Comemoração dos jogadores franceses ao levantar a taça de campeão do mundo em 2018. Foto: Wikipedia.

Duas décadas depois de sua primeira Copa do Mundo e em um contexto de extremismos político e de grandes tensões nas ruas, uma nova leva de imigrantes levou a França ao apogeu do futebol mundial. Só a história dirá, mais uma vez, se a integração de negros, brancos e árabes é capaz de ultrapassar os limites dos gramados.