113.7

Furou

Leandro Marçal

A bola passa por todo mundo, cruza a área, flerta com o centroavante. Ele enfrenta má fase, jejum de gols, sai vaiado jogo sim, jogo não. Em poucos segundos, planos de como bater na bola surgem em sua cabeça. Posiciona o pé da melhor forma, sabe onde ela vai morrer, como enganar o goleiro.

O ex-goleador já se vê como ex-ex-goleador. Prepara a comemoração sem dancinha, mas com um desabafo forte para a torcida. Será a volta aos tempos de glória, de dar entrevistas com sorriso no rosto e agradecendo a Deus em programas esportivos. O telefone não vai parar de tocar. O assessor de imprensa, que entende dessas coisas, vai direcionar para os veículos mais amigáveis suas falas com exclusividade.

Depois de tanto planejamento e preparação, a frustração aparece depois de sentir a perna flutuando, o vazio do vento, o riso das arquibancadas. Vira a cabeça para o lado, vê que a bola passou sem avisar, foi embora como uma criança chutando o castelo de areia construído com tanto cuidado pelo atacante.

Furou, disseram, com resignação. A vergonha diante de milhares de torcedores no estádio, milhões de espectadores em suas casas, à frente da TV. Todos aqueles planos caindo por terra, a vontade de se enterrar em um buraco maior que a de superar a má fase.

Foto: Expedição Futebol, Negritude e Fotografia/Divulgação.

Aqueles que até torciam pelo sucesso passam a ensaiar uma vaia, xingam, gritam. Os rivais dão risada, fazem chacota e memes, usam do fracasso naquele lance para lhe afundar mais.

O atacante sai de campo sem querer dar entrevista, tem cara amarrada, é incapaz de esboçar um sorriso, está com o semblante fechado, as sobrancelhas se aproximam dos olhos.

Ele pede para sair de campo, sugere ao treinador que no próximo jogo comece no banco de reservas para não passar outro vexame daqueles. O técnico diz que não, confia nele, aposta. A fase vai mudar. É só uma fase, ele diz.

E volta do intervalo, voltará no próximo jogo. Sem confiar na própria capacidade. Descrente da melhora. Com vontade de desistir de tudo, rescindir o contrato e buscar outra profissão para ganhar a vida, sem pensar na improbabilidade de ganhar tanto dinheiro em um trabalho convencional, como o dos outros familiares que ajuda a ter uma vida mais confortável.

Mas, se a bola chegar à área outra vez, o atacante precisa estar lá. Pronto para chutar com raiva, com força. E para furar novamente, se for o caso. Faz parte do jogo.