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Futebol amador, só no Brasil

Guilherme Trucco

Deu zebra. Expressão tão comum, em tantas situações. Animal excêntrico. É cavalo, mas não. É branco com listras pretas, ou o inverso? A gíria surgiu em função do Jogo do Bicho. O quadrúpede não existe no quadro de apostas, logo, resultado impossível. Seu sentido era profundo na década de 1920. Anos do futebol ainda amador, em que muitos jogadores, dissimuladamente, eram pagos por meio deste jogo. Daí também a expressão, hoje comum, do “bicho” pago aos jogadores em caso de vitória. Se dá zebra, ninguém recebe.

Quadro de apostas do jogo do bicho

Jogo do Bicho. Foto: Reprodução.

As décadas de 1920 e 30 foram agitadas para o futebol brasileiro. A questão era a disputa entre amadorismo e profissionalismo. Tema de espessa importância para entender o que é o futebol para o Brasil.

Dirão que estou sendo exagerado. Amigo, não se trata de exagero. É a mais honesta verdade. Senão vejamos. Um exemplo: temos o Fidalgo Footbal Club. Time fundando em 1923. O caso é o seguinte, e bem comum. Um grupo de rapazes do bairro Haddock Lobo tinha em seu quadro muitos negros, mestiços e trabalhadores braçais das mais diversas camadas. O negociante e estimado sportmen Sr. Ataulfo Bulhões cede ao clube um prédio para ser sua sede, e consegue um campo de treinamento. Itens indispensáveis para serem reconhecidos como clube de futebol pela Liga Metropolitana de Desportos Terrestres. Em contrapartida, o Sr. Ataulfo recebe reconhecimento, e uma posição de destaque dentro do bairro, da sociedade fluminense. Troca de interesses. A trama é, entretanto, mais densa. O clube dava distinção e passava os panos e aparências necessárias para uma atividade mais lucrativa de Ataulfo: o jogo do bicho.

Apenas uma entre tantas histórias da década. Times com atletas pagos para jogar começam a ganhar destaque, como o declamado onze do Vasco da Gama de 1923, primeiro campeão oficial com negros e mulatos na equipe. Os Camisas Negras. Todos pagos. Os clubes da aristocracia tradicional (puxados por Fluminense e Flamengo) criam então a AMEA, para substituir a então Liga Metropolitana. Pelas regras da AMEA, que conclamam a continuidade do amadorismo, não podem jogar “trabalhadores braçais” nas equipes. As fichas de afiliação dos jogadores aos clubes devem conter dados específicos sobre seus empregos. Uma forma velada de proibir negros e mulatos no futebol. Evidente.

Mas a questão que está nas entrelinhas é ainda mais profunda que o racismo. Perceba a nuance. A fina pincelada. Segundo DaMatta, os negros à época já eram libertos, mas precisavam ser educados. “Educar o liberto significava transmitir-lhe a noção de que o trabalho é o valor supremo da vida em sociedade; o trabalho é o elemento característico da vida civilizada.” O trabalho combate a ociosidade, a vadiagem e a promiscuidade sexual. Ainda de acordo com DaMatta, diferente do trabalho “que tem relação direta com o dever, com a obrigação, o castigo, o pecado e com a dureza da vida”, o futebol pode ser entendido naquela época como uma “atividade paradoxal porque não é produtiva” estando voltada ao lazer e divertimento.

Trocando em miúdos, os negros e mulatos, que deveriam ser os trabalhadores braçais, estavam agora ganhando dinheiro para não trabalhar. Muito pelo contrário. Ganhavam dinheiro para se divertir. Este é o ponto nevrálgico. O futebol subvertia completamente as regras da aristocracia. O futebol era digerido, deglutido e transformado em outra coisa. Disto se tratava a briga entre Amadorismo e Profissionalismo.

Entre 1908 e 1928, período crítico desta disputa, com a criação da AMEA ocorrendo em 1924, e a manutenção dos clubes dissidentes (pró profissionalismo) na LMDT, a lista de clubes filiados participantes em campeonatos destas duas entidades vai de 7 para 91 clubes. Percebam. O Rio de Janeiro à época tinha cerca de 1,6milhão de habitantes. Isso significa, aproximadamente, um clube de futebol para cada 12mil habitantes. Hoje a proporção carioca é, grosso modo, 1 para 65mil habitantes.

Esta explosão de clubes se explica, claro, pela população enxergando nos clubes uma busca por representatividade e prazer. Em 1926 surgem clubes como: Mundo Novo, Terra Nova, Empregados Municipais, Delícia, Rupturita, Ordem Geral, Dramático, Jornal do Commércio, e Fundição Nacional. Times de trabalhadores braçais, em suma. Em contrapartida, alguns aristocratas antigos, que há alguns anos não mantinham mais seus quadros de futebol, voltaram à prática, buscando apoiar o amadorismo. Casos do Rio Cricket, Petropolitano, Germânia e Rio Branco.

A ligação de toda essa polêmica com o Jogo do Bicho é ainda mais simbólica. Criado em 1892 pelo barão João Batista Viana Drummond, fundador do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, com o intuito de melhorar as finanças do parque, virou febre rapidamente. Popularizou. Existiam muitas loterias à época. Porque exatamente o Jogo do Bicho se emaranhou tanto à população? Apostava-se em bichos, não em números. Mas não era só isso. O entrelaçamento entre bichos e números, entre superstição e ciência, tradição e modernidade, era o reflexo perfeito desta mistura hedonística brasileira. O jogo do bicho desafiou simbolicamente a impossibilidade do mundo da ciência e da superstição coexistirem.

Vasco, campeão carioca de 1923: os Camisas Negras. Foto: Reprodução/Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

Esta relação mista de prazer e profissionalismo, ciência e superstição, esse sincretismo de filosofias, seria o que J. M. Wisnik chama de “tecnologia de ponta do ócio”, e o que Gilberto Freyre cunhou de “jeitinho brasileiro”. O bom jeitinho, aquele que surgiu como forma da senzala burlar as leis da casa grande. Esse “jeitinho”, opositor ao formalismo, portanto, está diametralmente oposto ao “você sabe com quem está falando” das aristocracias.

Cinicamente, no Brasil, a luta pelo Amadorismo foi profissional (formalista e política), enquanto os defensores do Profissionalismo eram os que nutriam o amador, ou melhor, eram os amantes do futebol.

Textos de apoio

DAMATTA, Roberto. Antropologia do óbvio. Notas em torno do significado social do futebol brasileiro. Revista USP, São Paulo, n. 22, jun./ago. 1994.

MAGALHÃES, Felipe. Ganhou Leva!: o jogo do bicho no Rio de Janeiro (1890-1960). Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2012.

Como citar

TRUCCO, Guilherme. Futebol amador, só no Brasil. Ludopédio, São Paulo, v. 122, n. 26, 2019.