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Futebol Argentino (II): grandes maestros

Fabio Perina

Rua com o nome de Bielsa em Leeds. Fonte: Wikipédia

Chamou a atenção nos últimos dias o histórico acesso do tradicional Leeds United, voltando para a Premier League após uma década e meia pelas mãos de Marcelo ‘Loco’ Bielsa, que já foi homenageado com uma rua ganhando seu nome e outras mais podem vir. Clube e treinador viviam cada um seu incômodo desde 2004. É a redenção de um dos treinadores mais marcados por muito trabalho para formar grandes equipes, porém colhendo poucos resultados. Natural de Rosário, Bielsa despontou, há cerca de 3 décadas,  no auge do Newell’s Old Boys no início dos anos 90 com dois títulos argentinos e um vice da Libertadores. Cerca de uma década depois surgiu seu carma. Eliminado na primeira fase da Copa 2002 com uma seleção argentina que deu show nas Eliminatórias. Ainda disputou outra Copa, 2010 com a seleção chilena, porém fracassos na jornada européia com Bilbao e Marselha desafiaram suas convicções.

Marcelo Bielsa em 2009. Fonte: Wikipédia

Após apresentar na crônica anterior o Loco mais conhecido entre os jogadores, Houseman, a partir de agora essa conquista do acesso pelo Loco mais conhecido entre os treinadores servirá de mote para uma breve retrospectiva de alguns dos principais maestros do país vizinho.

Carlos ‘Virrey’ Bianchi e Marcelo ‘Muñeco’ Gallardo, por conta de passagens tão vitoriosas nas décadas de 2000 e de 2010 por Boca Juniors e River Plate, respectivamente, são certamente os dois treinadores mais conhecidos do torcedor brasileiro nesse século. Inclusive cada um reinou em Superclássicos de Libertadores quando se cruzaram (2003 e 2004 para o lado xeneize e 2015, 2018 e 2019 para o lado millonario). Mas nos anos 80 uma disputa entre treinadores muito mais polarizada não se baseou na maior rivalidade entre clubes, mas entre estilos de jogo. Até mesmo concepções sobre a vida e um projeto nacional de um país recém redemocratizado se misturaram nessa polarização. Talvez em nenhum outro país do mundo a disputa entre ‘futebol-arte’ e ‘futebol-força’ tenha sido tão personificada em duas figuras. De um lado, Cesar Luis ‘Flaco’ Menotti; de outro, Carlos Salvador ‘Narigón’ Bilardo.

Bilardo (primeiro da direita para a esquerda) e Menotti (segundo da direita para a esquerda). Fonte: Wikimedia

Menotti, em seus últimos anos como jogador, no final dos anos 60, chegou a vir ‘beber da fonte’ de um futebol bem jogado atuando na Vila Belmiro e na Rua Javari. O ótimo trabalho no Huracán de 73, considerado o melhor representante desse estilo, deu-lhe as credenciais para chegar à seleção argentina campeã do mundo em 78. Por outro lado, Bilardo teve como feito mais grandioso como jogador ter feito parte do Estudiantes tri-campeão da Libertadores no final dos anos 60. Com a seleção argentina foi campeão do mundo em 86. Em sua longa trajetória de pragmatismo, o episódio da água batizada dada a Branco em 90 acaba sendo o mais tranqüilo de quem planejava todos os recursos táticos e comportamentais para vencer. Conta o folclore que chegava até a treinar absolutamente tudo, inclusive as comemorações para a hora dos gols nas partidas para que não “se dormissem” no recomeço na saída de bola do adversário. Por ter concluído a medicina se justificava, diante de seus comendados em campo, que não reclamem de manter a concentração durante apenas 90 minutos se um médico precisa se concentrar uma dezena de horas e se relaxa um minuto pode custar uma vida. Evidente que tanta rivalidade incitada levou a provocações, como Menotti afirmando que o futebol foi tão generoso que livrou a medicina de ter que suportar o ‘doutor’ Bilardo!

Os dois referentes finalmente se enfrentaram em 96, com o Independiente de Menotti vencendo o Boca de Bilardo em plena Bombonera. Sobre esse ‘legado’, recentemente o goleiro de 86, Pumpido, afirmou que se perdeu tanta energia discutindo que não se soube aproveitar tanta sabedoria para ser transmitida às próximas gerações. Hoje, ambos, na casa dos 80 anos, passam por condições opostas: Bilardo sofre de doença degenerativa e Menotti assumiu, no início de 2019, o cargo de diretor de seleções. Felizmente, em uma recente declaração, foi coerente com sua trajetória e disse que o futebol sem torcedores é outro esporte!

Ainda no final do século 20 outros treinadores também tiveram grande destaque e hoje estão próximos dos 70 anos: Hector ‘Bambino’ Veira em 86 foi campeão continental e mundial com o River Plate e em 95 tirou o San Lorenzo de uma fila de 20 anos (inclusive com uma caravana histórica de 30 mil lorencistas para a cancha do Rosário Central). Reinaldo ‘Mostaza’ Merlo em 2001 tirou o Racing de uma fila ainda maior de 35 anos logo após a quebra financeira do clube. Ramón Díaz trilhou um caminho parecido ao recente de Gallardo no River Plate nos anos 90: recém aposentado como ídolo em campo e mesmo como treinador pouco experiente venceu a Libertadores de 96 e mais três torneios locais seguidos! E também vale uma menção a Alfio ‘Coco’ Basile pelas últimas conquistas da seleção argentina principal: Copa América de 1991 e 1993.

Diego Simeone. Fonte: Wikimedia

Acredita-se que na virada do século o pensamento futebolístico argentino superou a dicotomia entre menottismo e bilardismo com um estilo próprio de Bielsa quando chegou a seu auge pela seleção argentina em 1998 ao aproveitar de um o virtuosismo e de outro a obsessão. É possível até que seja o fundador histórico do estilo de marcação sobre pressão no campo de ataque, pois a Argentina é o único país que desde então se faz assim com mais regularidade nos diversos escalões. De todas as suas frases, talvez a mais bielsista seja: “Devemos deixar claro à maioria que o sucesso é uma exceção…”. Diego ‘Cholo’ Simeone desponta como seu caso oposto, pois logo após se aposentar como jogador pelo Racing acumulou títulos muito rápido: Estudiantes (2006), River Plate (2008) e finalmente tantos anos no Atlético de Madri, onde incrivelmente como jogador deu fim a um jejum de quase duas décadas em 96 e depois como treinador deu fim a outro jejum de quase duas décadas em 2014. Além de como jogador também foi um referente no fim de jejum ainda maior da Lazio.

Evidências sobram em mais de uma geração de técnicos argentinos com passagens tecnicamente bem elogiadas por clubes europeus e ajudando a desenvolver clubes e seleções sul-americanos. Vide casos de La Volpe na seleção mexicana, Pékerman na seleção colombiana, Sampaoli na seleção chilena (inclusive vencendo a Copa América de 2015 como primeiro título do país) e Gareca na seleção peruana. Pékerman, inclusive, fez um trabalho discreto, mas muito efetivo nas divisões inferiores com conquistas no Mundial Sub-20 em 2001, que deu a base a dois ouros olímpicos em 2004 e 2008. Surpreendentemente, parte dessa ótima geração se deveu a um trabalho mais discreto ainda do brasileiro Delem nas categorias de base do River Plate, responsável por uma safra com Saviola, Aimar, D’Alessandro entre outros.

José Pékerman em 2013. Fonte: Wikipédia

Após citar tantos nomes célebres, vale uma pequena menção a outros treinadores ‘fora do eixo’. Ricardo Caruso Lombardi pode ser considerado ‘o rei dos acessos’ pelas inúmeras vezes que salvou ano a ano alguma equipe do rebaixamento, inclusive evitando a segunda queda para Racing e San Lorenzo. Acostumado a andar nesse fio da navalha, se forjou um personagem polêmico que enfrenta os vestiários mais hostis e diante das câmeras dirigindo muitas vezes pone más huevo que seus próprios comandados jogando! E se for possível escolher um ‘rei do interior’ ele certamente é ‘Ruso’ Zielinski diante de ótimos trabalhos tanto no Belgrano de Córdoba, rebaixando o River Plate, quanto no Atlético Tucumán, levando-o a estrear na Libertadores e até avançar a uma quartas-de-final. Também em âmbito doméstico se destaca Angel Cappa, pois em 2009 encarnou a mística de jogo bonito do Huracán e esteve a poucos minutos de encerrar o jejum que durava desde 73. Cappa parece ser o menottismo mais atual, tão incansável na defesa de suas convicções, que até escreveu livros com títulos como:

“? Y el futbol donde está?” e “También nos roban el futbol”.