139.9

Futebol Bolivariano (I): Bolívia

Fabio Perina

Essa trilogia busca tratar de possíveis vínculos entre o futebol e a ascensão daqueles regimes progressistas (ou ‘populistas’ segundo seus opositores neoliberais) que reivindicaram uma Revolução Bolivariana (ou Socialismo do Século XXI). Conduzida por três líderes de origens populares: Hugo Rafael Chavez Frias na Venezuela (1999), Evo Morales Ayma na Bolívia (2006) e Rafael Vicente Correa Delgado no Equador (2007).

Em termos práticos, uma conjuntura muito particular, diante da recusa à ALCA na primeira metade da década de 2000, em que se abriu uma decisão histórica entre avançar e buscar a superação do capitalismo e o imperialismo ou dar-lhe tempo de se reconstituir sobre novas bases.

Em termos teóricos, movimentos que se propuseram a uma retórica de reabilitar termos chaves da esquerda, como socialismo, nacionalismo popular e anti-imperialismo, e tirá-la de sua paralisia pós-moderna e neoliberal. Uma tentativa inédita de revolução dentro da democracia burguesa ao misturar conciliação de classes com mobilização das massas.

Contudo, os três casos têm em comum que a conquista do governo com várias vitórias eleitorais ocultou o desafio de conquistar as condições estruturais do poder diante de uma contrarrevolução permanente do imperialismo norte-americano e das elites locais. Levaram não somente esse ciclo bolivariano como todo o ciclo progressista continental a um ponto de inflexão decisivo entre a interrupção/retomada ou o encerramento. “Se a velocidade rumo à barbárie foi mais lenta sob administração progressista, o sentido do movimento permaneceu inalterado” (SANTOS, 2019, p. 614). Colocando a necessidade de refletir sobre seus alcances e suas lacunas, sobretudo diante da lição revolucionária que é preferível errar com o povo do que acertar sem ele.

Até hoje o maior feito de um clube boliviano foi quando o Bolívar disputou a final da Copa Sul-Americana perdendo para o Boca Juniors, no final de 2005. Um lampejo do futebol que parecia ser um prenúncio de finalmente uma redenção na política com a eleição de Evo Morales, em 18 de dezembro. (Assim como em novembro a ‘onda progressista’ sul-americana derrotou a ofensiva imperialista através da ALCA).

Durante seu governo, a Bolívia deixou de ser o segundo país mais pobre da América Latina e ocupou o primeiro lugar de crescimento econômico da região, com uma média anual de 4,9%. A particularidade da Bolívia em relação aos outros dois países para o nosso estudo é que o ciclo progressista na política não coincide com o auge do futebol, porém veio cerca de uma década depois de seu fim. Para compreender sua ascensão é preciso um olhar duplo sobre um horizonte distante e um horizonte recente.

Um horizonte distante, de 1985 a 2005, foi marcado por uma democracia pactada entre elites e indireta no Parlamento para excluir os setores populares e assim tentar “prevenir” novos golpes militares e blindar a instalação do neoliberalismo no país. Em um momento de mudança nas forças populares: declínio do tradicional movimento operário (o alvo direto de muitos golpes) e a surpreendente ascensão do movimento “cocalero”. A região rural do Chapare, nos arredores de Cochabamba (terra do Jorge Wilsterman, o clube com maior destaque recente na Libertadores), se tornou a mais dinâmica do país quanto às lutas sociais, pois seu perfil evoluiu de demandas estritamente econômicas para englobar uma posição anti-repressão, anti-imperialismo e até mesmo a favor dos indígenas. Aproximadamente nessas duas décadas a região contou com forte migração de trabalhadores e camponeses expulsos de outras regiões pelo profundo choque neoliberal.

Atlético perde para o Jorge Wilstermann em Cochabamba pela Libertadores de 2017. Foto: Bruno Cantini/Atlético.

Por isso a fase aqui chamada de horizonte recente, de 2000 a 2005, teve a importância da expansão populacional e também polarização territorial. No sentido que o agravamento das lutas sociais foi contagiando o campo progressista para oeste em La Paz e El Alto (terra do Bolívar e The Strongest) e de outro lado o campo reacionário e separatista para leste em Santa Cruz de la Sierra (terra do Blooming e Oriente Petrolero). (Sobre a polarização regional no futebol é significativo registrar que as arquibancadas do estádio Hernando Siles em La Paz são nas cores da bandeira nacional; enquanto o estádio Ramón Aguilera em Santa Cruz são nas cores da bandeira provincial).

Nessa meia década o respaldo yankee na “guerra às drogas” contra os cocaleros simboliza uma conjuntura maior de ofensiva contra os movimentos populares, porém que não desistiram. Ocorreram nesses anos seguidas renúncias de presidentes e um colapso do sistema político por conta de um acúmulo de forças entre indígenas com camponeses, trabalhadores e estudantes em importantes jornadas (conhecidas como guerra da água e guerra do gás) pela defesa de recursos naturais contra a privatização.

Os “cocaleros” bolivianos rapidamente aprenderam dos “piqueteros” e desempregados argentinos, na mesma época com grandes insurreições também, a tática de trocar a greve que paralisa a produção pelo corte de ruas e estradas que impede a circulação. Indo inclusive mais fundo na concepção revolucionária espiritual da cosmofilosofia indígena “Pachamama”, ou seja, restaurar o vínculo do homem com a natureza como um ser só. Bastante influenciado pelo recém criado Fórum Social Mundial de Porto Alegre com o lema: “outro mundo é possível”. Uma reparação histórica fundamental no sentido que várias exclusões se somaram contra os indígenas durante décadas: a proibição de eleitores analfabetos em espanhol (como forma de excluir as línguas indígenas), a proibição de frequentar praças públicas e até mesmo a ausência de um teleférico conectando a tão montanhosa zona metropolitana entre a capital La Paz e sua “cidade dormitório” El Alto.

Uma luta social organizada politicamente pela eleição de Evo Morales e seu vice Alvaro Garcia Linera pelo Movimiento al Socialismo (MAS) foi dessa forma a consolidação dessas lutas plurais ao trazê-las para dentro do Estado. Sobretudo do sindicalismo cocalero e dos indígenas aimarás com os quais Evo mais se identifica e onde iniciou sua trajetória política. Mas com o desafio de deixá-las permanentemente mobilizadas. E sobretudo o desafio de pensar qual o papel desse Estado e a partir disso agir para transformá-lo o suficiente para bloquear a contrarrevolução. Pois a antiga classe dirigente permanece como classe dominante e, ao contrário de revoluções mais radicais, não deixou o país, podendo tramar a qualquer momento seu retorno. Um ano decisivo desse processo foi 2009 com a nova constituição plurinacional. Na medida em que ela ainda preservou elementos da democracia representativa burguesa, porém a oxigenou com uma ampliação pela democracia direta, sobretudo com o reconhecimento dos direitos dos povos originários e da cultura comunitária. E até mesmo desafiando a “casta jurídica” ao permitir eleições populares para os cargos do Judiciário.

Ora, se dentro de campo o futebol boliviano voltou aos tempos de vacas magras, ainda assim é possível levantar algumas considerações interessantes sobre seu entorno social. Durante as últimas duas décadas os estádios permanecem ainda os mesmos que sediaram a Copa América de 1997, sendo incrivelmente o país do continente que mais passa intacto pela arenização, pois felizmente o acerto de contas com a justiça social e o uso social ao invés do mercantil do esporte também consome muito mais do orçamento e das prioridades do governo.

Naquele mesmo ano, em que a Bolívia quase conseguiu a proeza de ser campeã em cima do Brasil tetracampeão, o tema da altitude esteve mais quente do que nunca com a declaração do treinador argentino Daniel Passarella às vésperas de um confronto por Eliminatórias que jogar lá é desumano. Na partida conhecida como “escândalo de La Paz”, por conta da agressão de um massagista boliviano ao rosto do atacante argentino Julio Cruz que o deixou ensanguentado e iniciou um conflito generalizado.

El Gráfico. Reprodução.

O último lampejo de destaque para “La Verde” foi em 2009 na humilhante goleada sobre a Argentina por 6 a 1, o que por pouco eliminou a “Albiceleste” das Eliminatórias e por pouco causou a demissão do treinador Maradona. Por ironia, meses antes Diego e Evo selaram a cooperação entre os dois países por defender partidas na altitude contra possíveis proibições da FIFA. Como é bem a cara de líderes carismáticos, esses senhores de meia idade fizeram uma partida de exibição na altitude para “mostrar à FIFA” que não há riscos à saúde e assim representar os povos tradicionais com seu direito ao divertimento.

De certa maneira o futebol também tem dado sua contribuição para a maior aproximação do homem com a natureza. Em suma, o futebol ocupa um papel também plural dentro do Evismo, pois vai além de marketing e gosto pessoal do presidente como, sobretudo, é a expressão de uma ascensão e difusão do futebol comunitário com sua importância histórica de auto-organização dos indígenas. (Nesse sentido, oposto ao Brasil no mesmo período com seus megaeventos através de políticas públicas descendentes para o esporte, ou seja, submeter o futebol local á lógica do futebol profissional com sua concentração de recursos).

O estudo de Gisbert (2013) permite levantar ótimas ponderações críticas contra arbitrariedade cíclica da FIFA nas décadas 1990 e 2000 prejudicando países andinos. Tão arbitrário que privaria do esporte diversas cidades grandes na própria Bolívia e em outros países como Peru, Equador, Colômbia e até México. Quanto às condições ambientais, La Paz usa em sua defesa que não está entre as capitais sul-americanas mais poluídas e sobretudo nunca se precisou interromper uma partida ali por questões ambientais extremas que ameaçassem jogadores ou árbitros—diferente de outras cidades por motivos de calor. Assim como no torneio boliviano jogar no altiplano não é garantia de maiores vitórias e títulos diante do sucesso dos clubes de Santa Cruz.

Voltando à política, há uma hipótese bastante original do historiador Fabio Luis Barbosa dos Santos, pela qual os únicos anos realmente vibrantes do Evismo foram entre a sua eleição em 2005 e finalmente a conquista de sua Constituição em 2009—no sentido que conseguiu enquadrar seu sentimento de mudança dentro da forma democrática burguesa, porém esvaziando seu conteúdo. Antes, o movimento ao invés de radicalizar a conjuntura revolucionária já comentada que se abria na primeira metade da década, tratou de institucionalizá-la apostando que o desgaste dos partidos tradicionais lhe daria a vitória nas eleições.

Depois, o Evismo seguiu apostando tanto no desgaste e na desunião dos partidos tradicionais que deslocou a si próprio para a direita ao abrir concessões ao agronegócio e ao extrativismo e deixando a defesa do meio ambiente cada vez mais no discurso. Abrindo conflitos que até mesmo desafiaram sua alcunha positiva de “governo dos movimentos sociais” pois manteve sua base de apoio nos cocaleros, porém reprimiu outras lutas populares. Demorou cerca de uma década mas a conta de se afastar do povo foi cobrada…

O presidente da Bolívia, Evo Morales, o camisa 10 (azul), é visto durante uma partida amistosa de futebol realizada na inauguração de um campo no Lago Titicaca, a noroeste de La Paz, em 2014.

A encruzilhada que a revolução se encontrava entre avançar para o socialismo ou se conformar com transformações dentro da ordem teve o seu desfecho uma década e meia depois. Uma coalizão reacionária pôde ter tempo de reorganizar uma contrarrevolução com policiais, militares, empresários e lideranças evangélicas dando um violento golpe em novembro de 2019. A acusação de fraude eleitoral que favoreceria mais uma eleição de Evo Morales foi negada por observadores internacionais da ONU e União Europeia. Uma ruptura significativa em termos continentais, pois foi o único golpe violento que fechou uma década exitosa para o imperialismo ao testar formas mais brandas de golpes como em Honduras, Paraguai e Brasil. Como era de se esperar, a grande imprensa internacional entendeu o golpe como um “mal menor” para tirar um “populista” do poder. É o fetiche liberal com a indignação seletiva do acúmulo de mandatos: “tigrão” diante de países pobres, mas “tchuchuca” diante de países ricos (como Japão ou Alemanha com atuais chefes de estado acumulando vários mandatos).

Uma discussão muito atual no pensamento social que, através do golpe, foi representada é o papel das identidades: para nosso caso foi possível ver que o MAS mesclou marxismo clássico com identidade indígena-popular; enquanto do lado oposto estava um fato que passou despercebido para muitos: o golpe colocando Jeanine Añez como a primeira ditadora da América Latina! Uma prova das ciladas de se exaltar um identitarismo vazio de vínculos de classe. Vide nunca esquecer que somente com mobilizações indígenas fechando estradas que ao longo de 2020 finalmente se impediu que as eleições fossem novamente adiadas para favorecer que o regime golpista ganhasse tempo.

Assim como também é danoso se entregar à hipótese de uma polarização, pois de fato a violência contrarrevolucionária foi muito desproporcional à resistência dos oprimidos. O episódio mais atual dessa encruzilhada foi com o retorno do MAS ao governo deu certo com a eleição no primeiro turno para presidente de Luis Arce, antigo ministro da Economia de Evo Morales, no último dia 18 de outubro. Por coincidência derrotando novamente o neoliberal Carlos Meza, o mesmo que renunciou no início de 2005 antes da primeira eleição do MAS em dezembro. Em 10 de novembro assumiram o novo mandato, exatamente um ano depois do golpe, com o heróico retorno de Evo Morales cruzando a pé a fronteira vindo da Argentina e recebido por multidões. Como disse o lendário líder indígena Tupac Katari quando supliciado pelos espanhóis durante a época colonial: “Voltarei e serei milhões”.

Mitologias à parte, para uma análise marxista objetiva da questão faço minhas as palavras do historiador Valter Pomar (em uma transmissão ao vivo um dia após a eleição). Durante esse novo mandato do MAS que se inicia fica o desafio da industrialização do lítio como questão de soberania nacional diante da rapinagem do imperialismo. E, sobretudo, o desafio político de tirar duras lições ao enfrentar os golpistas com suas milícias racistas, evangélicas e separatistas com seus vínculos promíscuos com o judiciário. Basta lembrar que os golpistas ao perderem o governo não quer dizer que foram afastados do poder.

É preciso aproveitar a atenção dos observadores internacionais de direitos humanos e jogar os golpistas no banco dos réus—“ni perdon ni olvido”. A corrida eleitoral que chegou a ter quatro candidatos vindos do golpe é a prova que no momento eles não ofereciam uma alternativa nacional em conjunto.

Por sempre serem responsáveis pela falta de democracia (em que faltavam projetos e sobravam disputas intra-elites), agora não aceitam sua ampliação promovida pelo Evismo e a tratam como excesso! Ironicamente os golpistas acusaram tanto o suposto populismo de Evo por cravarem que ele somente elegeria a si próprio, porém não contavam que pudesse eleger seu ministro como agora. Mais importante do que exaltarmos que foi uma vitória da democracia (em sua forma eleitoral abstrata), foi sim uma vitória do povo boliviano de carne e osso. O historiador critica que, apesar das muitas qualidades pessoais de Evo, no momento do golpe preservou apenas sua própria vida com o refúgio, porém não preservou o regime com a renúncia. Não ter lutado contra o golpe forneceu o pretexto que ele pudesse ser reconhecido internacionalmente.

Afinal olhando para atrás se vê que a renúncia sequer barrou a violência contrarrevolucionária após o golpe. Evidente que seguidos erros estratégicos em um espaço tão curto geraram fissuras em um MAS desde então bem menos coeso em sua posição diante do Evismo em relação a uma década atrás. Como disse Che: “la única lucha que se pierde es la que se la abandona”

Leituras de Apoio:

A Bolívia a um passo de derrotar os golpistas

Álvaro Linera: Bolívia voltará à trilha do pós-capitalismo

Boaventura: a História absolverá Evo Morales

DOS SANTOS, Fabio Luis Barbosa. Uma história da onda progressista sul-americana (1998-2016). Editora Elefante, 2019.

FIENGO, Sergio Villena. ¿DES-gol-ONIZACIÓN? Fútbol y política en los movimientos indígenas de Bolivia. Revista Crítica de Ciências Sociais. Coimbra, n. 111, p. 3-32, 2016.

GISBERT, Carlos D. Mesa. Fútbol y altura: La dramática historia de La Paz y el fútbol boliviano. Nueva sociedad, n. 248, p. 64, 2013.

MASCARENHAS, Gilmar. La Paz e Oruro. A Bolívia longe da arenização. Ludopédio, São Paulo, v. 118, n. 1, 2019.

MOLDIZ, Hugo. ¿ Reforma o revolución en América Latina? El proceso boliviano. América Latina hoy¿ reforma o revolución, p. 181-215, 2009.

O futebol nas alturas

OLIVEIRA ANDRADE, Everaldo. A revolução boliviana. Unesp, 2007.


 

 

Como citar

PERINA, Fabio. Futebol Bolivariano (I): Bolívia. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 9, 2021.