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Futebol brasileiro: começar de novo…

Bernardo Borges Buarque de Hollanda

O encerramento da edição comemorativa do centenário da Copa América (1916-2016), no último mês de junho, nos Estados Unidos, deixou algumas lições e diversas interrogações para a Seleção Brasileira de futebol. A eliminação precoce no torneio, para muitos configuradora de um novo vexame coletivo do país na seara esportiva internacional, corresponde ao fim de um mal iniciado ciclo, em que a equipe nacional buscava recuperar-se da traumática derrota para a Alemanha na Copa de 2014.

Esse interregno de dois anos foi marcado de início por vitórias em amistosos internacionais, diga-se de passagem, contra equipes medíocres, seguido por um fraco e preocupante desempenho nas partidas classificatórias para a Copa do Mundo da Rússia, em 2018. Nesse interim também, a equipe perdeu o torneio continental em que costumava ser franco favorita, a exemplo da Copa América do Chile, em 2015.

A retomada de tal ciclo se iniciara em julho de 2014, com a reconvocação de Dunga para o comando do time, logo após o término do Mundial no Brasil. A recondução do ex-técnico indicava o reatamento simbólico de um trabalho interrompido em 2010, quando da derrota para a Holanda nas quartas de final e da consequente despedida do treinador da Seleção, na esteira do fracasso na Copa da África do Sul.

Dunga fala durante a entrevista coletiva, 19 de Agosto de 2014. Mário Farache/Mowa Press

Dunga fala durante a entrevista coletiva ao reassumir a seleção brasileira. Foto: Mário Farache/Mowa Press.

Não se sabe ao certo qual foi então o cálculo da pouco reputada Confederação Brasileira de Futebol no gesto de convocar novamente o ex-treinador. A despeito da pressão da mídia pela convocação de um técnico estrangeiro – o espanhol Pep Guardiola foi o nome mais aventado –, visto como um modo de atualização técnico-tática do Brasil perante o futebol internacional, a direção da CBF declinou da alternativa e preferiu aferrar-se ao seu antigo colaborador.

É possível ainda conjecturar que a elasticidade do placar de 7 a 1, sofrida pelo time comandado por Luiz Felipe Scolari em 2014 – técnico que também voltara à testa da Seleção, mas em seu caso graças ao prestígio do pentacampeonato de 2002 – tenha sido mais uma razão para a escolha de Dunga. Afinal, em termos comparativos, era plausível supor que o trabalho deste não tivesse sido assim tão ruim e que ele seria, pois, merecedor de uma segunda chance.

Para reforçar essa hipótese, poder-se-ia lançar mão de seu retrospecto como treinador. O ex-futebolista dirigira o selecionado nacional desde o ano de 2006 e estivera à frente do time vencedor da Copa América da Argentina, em 2007. Em seguida, Dunga confirmou aquele bom resultado e conquistou mais um título de porte internacional, a Copa das Confederações de 2009, na África do Sul.

Não obstante, se foi esse o raciocínio dos cartolas da CBF, vale igualmente ponderar a previsível frente de problemas que a entidade abria ao convocar Dunga. A antipatia acumulada junto a segmentos do futebol profissional vinha de longe, desde os tempos em que fora capitão da Seleção. À época, mesmo com as conquistas, ele já era questionado com certa frequência. Comentaristas de TV fizeram dele alvo de críticas constantes, uma espécie de Geni do futebol, em decorrência do modo de atuação da equipe, encarnada pelo próprio Dunga, por meio de um futebol duro e pouco vistoso, e pelas características individuais do estilo e do temperamento do volante do time tetracampeão de 1994.

(E-D) Andrey Lopes, Marco Polo Del Nero, Dunga, José Marin e Gilmar Rinaldi durante a entrevista coletiva, 19 de Agosto de 2014. Mário Farache/Mowa Press

(E-D) Andrey Lopes, Marco Polo Del Nero, Dunga, José Marin e Gilmar Rinaldi durante a entrevista coletiva em 2014. Foto: Mário Farache/Mowa Press.

A “Era Dunga”, como foi cognominada a maneira de jogo brasileira na vitória do Mundial dos Estados Unidos, ficou associada a uma inversão dos valores cultuados pelo imaginário coletivo nacional. Ofensividade, individualidade e criatividade, entre outros atributos positivos do futebol nacional, eram traços do passado. Sua remissão mais próxima era a nostalgia com a admirável Seleção Brasileira dos anos 1980; já seu contraponto mais distante era a série de momentos fulgurantes protagonizados pelo “futebol-arte” e pelo “futebol mulato” em Copas do Mundo, desde fins dos anos 1930.

Em lugar destes episódios memoráveis, apanágio de uma autoimagem do futebol interclassista e multirracial – fintas desconcertantes, alegria e improvisação, para ficar com os três clichês mais repetidos – passou a vigorar o pragmatismo, a busca pelo resultado em detrimento da exibição, a prevalência da defesa em lugar do ataque, ou do “feio” ante o “bonito”.

Assim, apesar das novas estratégias de jogo, estabelecidas nos últimos trinta anos, os recentes fracassos tiveram força de realidade e implicaram na queda do treinador. A pressão midiática após a eliminação na primeira fase para o Peru fez com que mesmo a CBF, com sua estrutura vetusta e com seus dirigentes ilegítimos, não conseguisse suportar a manutenção do técnico novamente derrotado.

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Árbitro valida gol irregular do Peru contra o Brasil na Copa América. Foto: Lucas Figueiredo/Mowa Press.

O momento atual configura, portanto, um ponto de inflexão, com o fim de outra “era Dunga”; não a do jogador, mas agora aquela que, nos últimos 10 anos, marcou a relação desse personagem com a seleção brasileira na condição de treinador.

Dada a cultura personalista que caracteriza a sociedade brasileira, a iminência de um novo começo é simbolizada hoje pela convocação de um novo treinador, a fazer as vezes de “salvador da pátria”. Este, ao que indica, possui diferentes características, um currículo diverso e uma trajetória bastante distinta no futebol em relação ao seu antecessor, o que parece ser, nas atuais circunstâncias, no mínimo alvissareiro.

O gaúcho Tite, o mais novo técnico escolhido pela CBF, é formado em Educação Física pela PUC de Campinas e, depois de uma carreira de futebolista interrompida antes dos 30 anos, exerce a profissão de treinador há pelo menos 25 anos. Passou por grandes times brasileiros e, no exterior, esteve à frente de clubes multimilionários dos Emirados Árabes.

São dois fundamentalmente os trunfos do novo treinador para os desafios que a Seleção enfrenta daqui por diante. O primeiro assenta no fato de que Tite acaba de vir de uma experiência contínua e de uma sequência vitoriosa em um dos mais populares clubes do Brasil – o Sport Club Corinthians Paulista.

Se uma das principais críticas que a imprensa especializada faz às equipes brasileiras é a ausência de ídolos atuantes no futebol nacional – lembre-se que, do plantel da Copa de 2014, apenas o atacante Fred atuava no Brasil –, o que implica no distanciamento entre time e torcida, teremos doravante, não um jogador, mas ao menos um treinador identificado a uma entidade clubística e a uma massa de torcedores no país.

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Técnico Tite se apresenta na CBF. Foto: Lucas Figueiredo/Mowa Press.

O segundo fator diz respeito ao retrospecto convincente e consistente da performance de Tite. Pelo time paulistano, conquistou todos os títulos possíveis. Alcançou os mais importantes torneios nacionais em âmbito clubístico, a exemplo do Campeonato Paulista e do Campeonato Brasileiro. Em escala internacional, foi o responsável pela inédita conquista da Copa Libertadores da América pelo Corinthians, em 2012. Naquele mesmo ano, repetiu e ampliou a façanha, com a obtenção do Mundial Interclubes organizado pela FIFA, contra o super-time inglês do Chelsea.

Sendo assim, independente do estilo de jogo que venha a ser adotado, a esperança e a responsabilidade que recaem na atualidade sobre o novo treinador da Seleção articulam-se a um desafio concreto e imediato: classificar o país para a Copa do Mundo de 2018. No momento, o país encontra-se na sexta posição, o que se afigura insuficiente para a classificação.

O histórico de única equipe a participar de todas as 20 edições do megaevento esportivo mais popular do mundo é uma das últimas marcas de prestígio diferencial da Seleção. Uma eventual eliminação constituiria outro feito inédito às avessas, digno das mais negativas adjetivações a que se acostumou a imprensa: humilhação, vergonha, decadência, incompetência, soberba, fracasso, etc.

A inusitada situação implicaria em uma intensificação das críticas. O aprofundamento da crise futebolística encontraria assim seu próprio espelho na conjuntura política do país, em meio ao descrédito vivenciado pela onda de denúncias e de escândalos de corrupção que devastam o ambiente administrativo e moral brasileiro.

Como citar

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. Futebol brasileiro: começar de novo…. Ludopédio, São Paulo, v. 85, n. 5, 2016.