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Futebol de mulheres e o boom de “apoiadores” nas redes

Luciane de Castro

De tempos em tempos, dou um tempo do futebol feminino por razões bastante legítimas: ora uma exposição, ora me sinto enfastiada dos rumos, ora preciso silenciar para que a percepção e a análise sejam mais assertivas. Ficar em silêncio não significa ausência do que falar, mas sim organizar os eventos e criar os links necessários para oferecer reflexão a todos os agentes envolvidos com a modalidade.

Eis, pois, que retomo as atividades no amado Ludopédio sem um mote específico – liberdade pela qual tenho muito apreço, mas tendo os fatos como pontuador dos meus textos. O fato a ser abordado neste texto de retorno diz respeito ao futebol de mulheres e <parâmetrosurfísticonoparágrafo> à onda de popularidade e crescimento que muito haole entrou pra surfar, mas, como bom haole, desrespeita os locais e vive de tomar as vacas mais bizarras. </fimdoparamêtrosurfísticonoparágrafo>

No Instagram, vejo uma postagem nos stories da Cristiane. É um desabafo, é uma cobrança sobre o que determinado perfil no Instagram escreveu sobre sua crítica à estrutura oferecida pelo SPFC ao elenco feminino. A opinião certamente é de quem torce pelo SPFC e pouco conhece a história e a realidade das mulheres que ocupam os campos no Brasil. Caso conhecesse, saberia, inclusive, fazer a crítica.

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Quem acompanhou o futebol feminino em 2019 sabe o quanto este ano foi especial para a modalidade. Ele também trouxe mudanças muito significativas para a minha carreira, as quais grande parte estão relacionadas ao São Paulo FC. Gostaria, então, de começar agradecendo o São Paulo por confiar no meu trabalho e proporcionar meu retorno ao Brasil. Foi incrível voltar a sentir a energia da torcida brasileira de perto. Ver estádios cheios, transmissões em TV aberta e a torcida comparecendo nos jogos é um grande incentivo para nós atletas e para a modalidade como um todo. Além disso, contribuir com a equipe no acesso a série A1 do Brasileiro e jogar a final do Campeonato Paulista no Morumbi são coisas que ficarão pra sempre em minha memória. Foi um prazer indescritível jogar essa final dentro da casa do Tricolor! A palavra, portanto, que define minha trajetória dentro do SPFC é gratidão. À toda diretoria do clube, às atletas/ parceiras, a quem desejo todo o sucesso, aos funcionários e assessoria de imprensa, sempre muito carinhosos e respeitosos comigo. A todas as marcas que contribuíram de alguma forma. A essa imensa e incrível torcida e a todos que convivi ao longo dessa temporada. Agradeço também por fazer parte do retorno do São Paulo FC ao futebol feminino, modalidade que agora tem como data oficial dentro do clube o dia 14/1, data em que me apresentei ano passado. Este ano, porém, como vocês já devem saber, os caminhos serão outros, sempre com intuito de contribuir o máximo possível pela evolução do futebol feminino no Brasil. A modalidade dentro do país está evoluindo, mas ainda há muito a ser feito. Por fim, obrigado à toda torcida Tricolor, foi uma honra vestir essa camisa. Em frente!

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Decididamente, não darei palco ao perfil, porquanto viralizar uma postagem carregada de desconhecimento e clubismo, não é o que pretendemos para a modalidade que ainda carece de muitos ajustes para ser considerada de sucesso.

Desde a Copa de 2015, no Canadá, é crescente o número de pessoas interessadas em dar suporte ao futebol feminino, mas há vozes e há sussurros neste emaranhado de conexões e perfis espalhados por este mundão da web. Há quem entrou pra lutar à vera e há os aproveitadores. O oportunismo é a marca registrada de alguns. Suas ações e intenções ficaram claras com o passar destes quatro anos quando defenderam o indefensável e atacaram quem peitou e sistema e foi limado sumariamente. O viés é pessoal e intransferível, nestes casos.

Há, porém, os que se uniram para as devidas cobranças, não se abraçaram aos ratos ocupantes do navio e se consolidaram como suporte real das mulheres no futebol. Estes, sim, merecem ter seus nomes amplificados pela rede ou fora dela.

Noves fora não nos interessa lançar luz sobre os restos, então volto no ponto da resposta de Cris e o foco nas atletas que se posicionam. Reclamamos tanto do silêncio das atletas quanto aos – sérios – problemas que enfrentam para seguirem em atividade, mas nos posicionamos de modo irresponsável e leviano quando a atleta solta a voz? Que raios de apoio é esse? Que tipo de “apoiador” não consegue compreender as décadas de luta das mulheres do futebol e se dedica ao ~ diminuto ~ papel de questionador da história da maior goleadora de toda história olímpica? Tem compreensão, o “nobre apoiador”, das entranhas do futebol feminino brasileiro como Cris e tantas outras atletas conhecem profundamente?

#obvioululante que NÃO.

A gente sabe quem chega pra somar e quem chega pra sumir rapidamente, mas, ainda assim, esses que desaparecerão do contexto, serão lembrados por sua parca ou nula contribuição ou por sua insignificante atuação junto das minas e pelo elo com quem detém o momentâneo poder.

Eu fico com as minas e as manas ainda que minhas redes sociais não sejam as mais populares, porque não estou atrás de likes e acessos. Meu comprometimento é com o proceder e o corre certo, e, neste corre, são as atletas que puxam o bonde.

Rede cheia de conteúdo vazio é oficina de desinformado.

Como citar

CASTRO, Luciane de. Futebol de mulheres e o boom de “apoiadores” nas redes. Ludopédio, São Paulo, v. 127, n. 16, 2020.