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Futebol das Minas: cenário atual do futebol de mulheres em Belo Horizonte

Indiamara Bárbara da Silva, Isabella Guimarães Lima e Silva

A prática do futebol tem se tornado uma possibilidade para as mulheres no mundo contemporâneo, no entanto, o preconceito e as dificuldades que perpassam as questões de gênero ainda são recorrentes nessa relação. Em um país onde a modalidade já foi proibida por décadas, devido a sua não adequação à natureza feminina[1], é esperado que essa transição aconteça detidamente. Ainda assim, nos últimos anos, o futebol de mulheres tem chamado atenção e ganhou destaque em alguns meios midiáticos e mesas de discussão.

Na cidade de Belo Horizonte (BH), a participação das mulheres no fenômeno social futebol esteve tradicionalmente associada ao papel de assistência, relação que pode ser facilmente observada nos estudos de Couto:

“Se, para os homens seu significado (do futebol) relacionava-se com competição, virilidade e rivalidade, o que lhes possibilitava experimentar as emoções de um novo estilo de vida, para as mulheres, pode-se também atribuir ao futebol uma grande relevância. Além da ampliação do convívio social, da aproximação entre os sexos opostos nos espaços públicos, o futebol permitiu uma maior imersão da mulher nos círculos sociais. ” (Couto, 2003, p.121)

No entanto, não é intenção desse texto tecer uma narrativa acerca do ingresso das belo-horizontinas na prática do esporte, mas apontar, superficialmente, um quadro atual de como o futebol de mulheres dos clubes amadores e profissional tem se manifestado na cidade.

O ano de 2016 contou com a fundação do primeiro e único time profissional de futebol praticado por mulheres em Minas Gerais, o América-MG, evidenciando os novos papéis contracenados pelas mulheres da capital no futebol. Todavia, vários times amadores já integravam e ainda compõe o cenário na região. Em uma análise rápida da tabela de classificação dos últimos campeonatos estaduais, podemos citar o ProInter FC, Manchester FC e o próprio América, antes de sua profissionalização, como as equipes de mais expressão.

Sete Lagoas – MG – 28/06/2017 – BRASILEIRÃO CAIXA 2017 – ESPORTES – Jogo 54, Grupo 02 da Série A2 do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino “Brasileirão Caixa 2017” entre América Mineiro F.C. X União Desportiva Alagoana UDA, realizado na Arena do Jacaré em Sete Lagoas, MG; válido pelo grupo 02 do Brasileirão Feminino 2017 A2. Foto: WASHINGTON ALVES/ALLSPORTS

Jogadora do América-MG durante partida do Brasileirão Feminino 2017 A2. Foto: Washington Alves/ALLSPORTS.

Nos últimos anos, alguns campeonatos têm se apresentado como alternativa para as equipes, e entre os de maior destaque estão o Campeonato Mineiro, a Copa BH e a Copa Centenário[2]. Os custos do Campeonato Mineiro são subsidiados pela Federação Mineira de Futebol (FMF) e os clubes são responsáveis pela manutenção, locomoção e gestão das equipes, além de garantir um campo para funcionar como sede. Contudo, em 2017 apenas nove times estarão na competição, sendo que o Ipatinga Futebol Clube é o único a representar o interior. É provável que tal evento seja consequência de dois fatores recorrentes: a falta de investimentos na modalidade aliada a grande extensão territorial do estado.

Tendo como centralidade Belo Horizonte, um dos times amadores que vem se destacando nos campeonatos regionais é o ProInter. O time da barragem Santa Lúcia localizada na região centro-sul da capital mineira, coleciona títulos[3] importantes e goza de destaque no cenário belo-horizontino tendo em vista suas participações e disputas diretas nas competições. Em uma roda de conversa realizada pelo GEFuT (Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas) da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) duas jogadoras da equipe trouxeram questões em relação às dificuldades do futebol amador e as perspectivas em relação ao desenvolvimento do futebol praticado por mulheres. Dentre as dificuldades, as jogadoras relataram sobre a falta de patrocínio, de materiais e profissionais capacitados disponíveis nos treinos e até mesmo em relação ao aluguel de campo para os jogos; como perspectivas apontaram para a possibilidade de profissionalização advindas do América Mineiro ou da criação dos times femininos pelo Cruzeiro Esporte Clube e pelo Clube Atlético Mineiro.

É notório o destaque do América Mineiro em Belo Horizonte e em Minas Gerais, tendo em vista que é o único time de futebol de mulheres profissional do Estado. A profissionalização do time engloba tanto a equipe de jogadoras quanto a comissão técnica e o reflexo disso pode ser observado no número de títulos da equipe desde seu surgimento e a convocação da jogadora Mayara para treinos com a Seleção Brasileira Sub–20 no final de junho deste ano.

Goiânia – GO – 21/06/2017 – BRASILEIRÃO CAIXA 2017 – ESPORTES – Jogo 48, Grupo 02 da Série A2 do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino “Brasileirão Caixa 2017” entre Aliança F.C. X América Mineiro F.C. , realizado no estádio Olímpico Pedro Ludovico em Goiânia, GO; válido pelo grupo 02 do Brasileirão Feminino 2017 A2. Foto: WEIMER CARVALHO/ALLSPORTS

Equipe do América-MG antes de partida do Brasileirão Feminino 2017 A2. Foto: Weimer Carvalho/ALLSPORTS.

O dia nove de julho de 2017 foi um marco na história do ProInter e do América. As equipes fizeram a final da Copa BH de Futebol Feminino no estádio Independência, superando a média de público do time masculino do América que era de 2.276 torcedores, levando ao estádio 2.617 torcedores. O jogo, com entrada franca e aliada a doação de agasalhos contou com a presença dos torcedores do América e moradores da barragem Santa Lúcia, mobilizados em apoiar o ProInter. Para além do placar (5 a 1 para o time do América) a partida trouxe visibilidade às equipes por parte da mídia e jogadoras do ProInter foram convidadas a autografar suas camisas para serem expostas no Museu do Mineirão.

O Clube Atlético Mineiro (CAM) fundou um time de futebol de mulheres amador em 2010, contudo, o mesmo encerrou suas atividades, de forma abrupta, no ano de 2013. Com a extinção da equipe, o elenco feminino atleticano migrou para o América. No entanto, com a nova resolução da Conmebol, que apresenta como pré-requisito para disputa da Taça Libertadores a criação de uma equipe profissional feminina ou associação a um clube que já possua[4], é possível que esse ponto seja rediscutido pela diretoria do clube em breve.

De antemão, de acordo com uma reportagem publicada no Globo Esporte[5] em agosto de 2017, Bruno Vicintin, atual vice-presidente do Cruzeiro Esporte Clube, afirmou que a criação de um time feminino já está em pauta. A expectativa é de que seja feito um investimento em alguma das equipes amadoras que já compõe o cenário de BH, no entanto, essa possibilidade não passa de especulação.

Contudo, o movimento que se nota é de uma mobilização pouco efetiva dos clubes tradicionais masculinos para o investimento em times de futebol feminino, revelando-se assim a dependência do futebol de mulheres em relação ao futebol masculino.

O futebol de mulheres em Belo Horizonte tem ganhado visibilidade e tal fato fica evidente em algumas ocorrências, como é o caso do público recorde na arena Independência, no embate entre ProInter e América, ou da especulação da criação de novas equipes profissionais na cidade. Mas ainda assim, algumas questões permanecem às sombras do futebol masculino. Em 2017, foi determinado que a equipe de mulheres do América disputasse a série A2 do Campeonato Brasileiro 2017, uma vez que a equipe masculina foi rebaixada a série B. Entretanto, como elucidado no início do texto, as mudanças ocorrem lentamente. Algumas discussões têm sido feitas pelo GEFuT na UFMG e essas tem acarretado em produções de textos científicos e mesas de discussão em eventos promovidos pelo grupo. Também as redes sociais, como o Facebook e o Twitter, tem auxiliado na divulgação e mobilização em prol do futebol de mulheres, seja amador ou profissional. De coadjuvantes a protagonistas, essa é a perspectiva para o futebol praticado por mulheres.

 

Referências:

AMARAL, Thaynara. Cruzeiro busca parceria e avança na criação de uma equipe de futebol feminino: A partir de 2019, clubes de futebol do Brasil que não tiverem um time feminino disputando competições nacionais estarão proibidos de disputar a Taça Libertadores. 2017. Disponível em: <https://globoesporte.globo.com/futebol/times/cruzeiro/noticia/cruzeiro-busca-parceria-e-avanca-na-criacao-de-uma-equipe-de-futebol-feminino.ghtml>. Acesso em: 23 set. 2017.

COUTO, Euclides de Freitas. Belo Horizonte e o futebol: integração social e identidades coletivas (1897-1927). 2003. 142 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Ciências Sociais, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2003.

FEDERAÇÃO MINEIRA DE FUTEBOL (Minas Gerais) (Org.). Vai começar o Estadual Feminino. 2017. Disponível em: <http://fmf.com.br/VerNoticia.aspx?e=0F3D8CB103E8FA9F8B2F42815DB67100>. Acesso em: 22 set. 2017.

MARTINS, Leonardo Tavares; MORAES, Laura. O futebol feminino e sua inserção na mídia: a diferença que faz uma medalha de prata. Pensar a Prática. Goiânia, v.10, n.1, p.69-81, 2007.

[1] O Estado Novo criou o decreto 3.199 que proibia às mulheres a prática de esportes considerados incompatíveis com as condições femininas, sendo o futebol incluso entre outras modalidades esportivas como halterofilismo, beisebol e lutas de qualquer natureza. O Período Militar também inviabilizou a prática reconhecida do futebol pelas mulheres, sendo permitido apenas na década de 1980, pelo Conselho Nacional de Desporto. (Martins, 2007)

[2] Maior e mais tradicional evento esportivo da Prefeitura de Belo Horizonte, integrante do Calendário Oficial de festas e Eventos do Município (Lei 8762 de 16 de janeiro de 2004) e inserido na ação 2866 do PPAG – 2014/2017, sendo um dos principais torneios amadores do Brasil. Disponível em <https://prefeitura.pbh.gov.br/estrutura-de-governo/esporte-e-lazer/copa-centenario>

[3] Torneio Rola Bola em 2002, Taça BH em 2007, Copa Coca Cola em 2012, Copa Centenário em 2012, Copa Coca Cola em 2012, Copa Grambel em 2013.

[4] Para mais informações <http://www.conmebol.com/pt-br/reglamentos-generales/reglamento-licencias-de-clubes:>

[5] Disponível em https://globoesporte.globo.com/futebol/times/cruzeiro/noticia/cruzeiro-busca-parceria-e-avanca-na-criacao-de-uma-equipe-de-futebol-feminino.ghtml, acesso no dia 23 de setembro, de 2017.

[6] Para mais informações <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/L13155.htm>