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Futebol de mulheres na Espanha: um exemplo de luta e resistência!

Heloisa Helena Baldy dos Reis, Mariana Zuaneti Martins

Copa do mundo é aquele momento mágico em que assistimos a jogos de futebol todos os dias. Mais de uma partida por dia, respirando e conversando sobre o futebol em cada intervalo da vida. É também a oportunidade de conhecermos diversas equipes e jogadores que não nos deparamos no cotidiano da conversa futebolística. É sempre intrigante quando nos deparamos com surpreendentes equipes que, ao longo de quatro anos, se desenvolveram absurdamente. No caso da Copa do Mundo de Futebol de Mulheres de 2019, um exemplo foi a seleção espanhola.

Tanto a seleção brasileira quanto a espanhola foram eliminadas nas oitavas de finais da Copa de 2019. Todavia, enquanto a seleção brasileira tem importantes campanhas em mundiais, como o vice-campeonato de 2007 e as medalhas de prata olímpicas de 2004 e 2008, a espanhola empreendeu sua primeira classificação para a Copa do Mundo em 2015. Essa discrepância de histórico desautoriza uma comparação entre ambas. Por isso, o olhar a esta seleção é menos comparativo e mais compreensivo. Em vez de enfocar nos resultados em campo, nosso objeto aqui é tentar compreender os processos sociais e políticos que se desenvolveram na Espanha no período circunscrito entre a eliminação na primeira fase da Copa, em 2015, e o momento atual, no qual la roja alcançou as oitavas de finais da edição de 2019.

Marta Torrejón, jogadora espanhola do Barcelona, é quem tem o maior número de convocações pela seleção: 88 no total, entre 2007 e 2019. Foto: Wikipedia.

Na Espanha, o futebol de mulheres também passou por inflexões ao longo do século XX. As mulheres organizaram suas primeiras equipes de futebol no país, em 1914. Tal iniciativa foi ainda impulsionada pelo crescimento do futebol de mulheres na Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial, momento em que estas protagonizaram os espetáculos esportivos no país. No entanto, esse crescimento, na Espanha, foi freado durante a ditadura franquista (1939-1975), ocasião em que algumas modalidades, como o futebol, o rugby, o atletismo de competição e os esportes de combate, foram contraindicadas para elas. O motivo exposto era que tais modalidades foram consideradas, pelo discurso médico, como algo prejudicial à biologia feminina. Tal discurso declinou apenas no final da década de 1960, durante a distensão do período ditatorial e abertura da liberdade de imprensa. Acompanhando um movimento mundial de retomada do futebol de mulheres, em 1971, se realizou o primeiro campeonato da Espanha de futebol feminino, com quatro equipes, denominada de Copa Fuengirola Costa Del Sol. A partir de 1980, o futebol de mulheres foi incluído na Federação Espanhola de Futebol (MARTINS; REIS, 2018a).

Atualmente, o futebol de mulheres na Espanha se organiza em três divisões: Primeira Divisão; Primeira Divisão B; Segunda Divisão, todas elas semiprofissionais. Isso ocorre devido à combinação de duas legislações espanholas distintas: a primeira, o Real Decreto 1006/1985, que estabelece que são profissionais aqueles atletas que se dedicam voluntariamente ao esporte e que tem seus custos financiados por um clube ou uma entidade fomentadora da prática; e o Real Decreto 1835/1991, que fixa a existência de apenas uma liga profissional por modalidade esportiva. Razão pela qual as competições não fomentadas pela Liga Profissional de Futebol da Espanha, que organiza as primeiras divisões masculinas, não são consideradas completamente profissionais (REIS; MARTINS, 2018a).

Pelo 1. FFC Frankfurt, Verónica Boquete, jogadora espanhola com maior número de gols pela seleção (38), foi campeã da UEFA Women’s Champions League na temporada 2014-15. Foto: Wikipedia.

Essa questão coloca diversos empecilhos para o desenvolvimento do futebol de mulheres na Espanha, já que poucas futebolistas são reconhecidas como profissionais e, por conta disso, não têm garantias trabalhistas como contribuição previdenciária, direito à manutenção de contrato durante uma possível gravidez ou mesmo uma convenção coletiva que fixe as normas mínimas para contratos, como é bastante tradicional nos campeonatos de homens (MARTINS; REIS, 2018b). Essa não existência de mecanismos de negociação de contrato faz com que, mesmo aquelas jogadoras que lograram o status profissional, não tenham margem de manobra para negociar seus salários. Não obstante essa discriminação ainda presente na Espanha, uma questão que chama a atenção é a forma como as mulheres reagiram a esse cenário na última década.

Em 2012, futebolistas em atividades e aposentadas formaram a Associação Espanhola de Jogadoras de Futebol (Asociación Española de Jugadoras de Fútbol, AEJF). Em 2016, a AEJF se tornou um Comitê de Futebol Feminino da AFE, sindicato futebolistas da Espanha. A então presidente da AEJF se tornou parte da Junta Directiva da AFE, de modo que as jogadoras e ex-jogadoras passaram a se associar à essa entidade.

Em 2013, quando realizamos uma pesquisa sobre essa associação das jogadoras espanholas, a realidade lá era de que as mulheres, quando recebiam salário, ganhavam em média, de 400 a 600 euros por mês. As melhores jogadoras chegavam a receber um salário de 2 ou 3 mil euros, mas não chegavam a dez jogadoras dentro do país, das mais de 300 que existiam registradas.

Em 2015, quando a seleção espanhola foi eliminada da Copa do Mundo do Canadá, uma mudança se avizinhou no país. Naquela ocasião, as atletas se organizaram coletivamente e pediram a saída do então treinador Ignacio Quereda, que comandava tal seleção por 27 anos. As atletas escreveram uma carta, denunciando as péssimas condições de preparação da equipe para o mundial e pedindo uma mudança. Além disso, algumas atletas reclamavam do trato que o antigo treinador tinha com elas, acusando-o de machista. Em seu lugar, assumiu Jorge Vilda, então treinador das categorias de base, e que vinha tendo resultados expressivos nos campeonatos europeus.

No último ano também, a Espanha tem assistido a recordes de públicos nos jogos femininos, embalados pela equipe do Athletic Club e do Barcelona. No entanto, as jogadoras não se acomodam diante desse quadro. A liga ainda não é profissional e há uma discrepância grande entre esses dois clubes e os demais da primeira divisão, de modo que a maioria das equipes se resume a sobreviver. Entre as principais vedetes da seleção, Irene Paredes (PSG) e Virginia Torrecilla (Montpellier) jogam na França. Para resistir, as jogadoras hoje se organizam em um comitê feminino da AFE e lá negociam com a federação a existência de um convênio coletivo de trabalho e o reconhecimento profissional das atletas. Este ano conquistaram a formação de uma comissão mista que tem por finalidade cobrir os salários das atletas, caso os clubes fiquem em dívida com elas – situação bem comum no futebol espanhol.

Jogadoras espanholas comemoram gol na vitória por 3 a 1 sobre a África do Sul na Copa do Mundo de 2019. Foto: Reprodução/Instagram/@sefutbolfem.

A Espanha não tem a melhor jogadora/equipe do mundo, ainda não tem resultados expressivos, mas, mesmo assim, tem muito a nos ensinar: enquanto organização do futebol feminino, como a valorização das categorias de base, porque daí se colhe no futuro frutos para a seleção. Enquanto atletas cidadãs, a organizar a resistência e negociações às desigualdades, fruto da inexistência de direitos no futebol de mulheres. Quando nos deparamos com essa iniciativa em 2013, já nos chamou a atenção as ex-atletas se organizarem em prol daquelas que estavam em atividade. Hoje em dia, ao ver essa organização mais consolidada, e em conjunto com o sindicato, notamos que elas deram passos adiante em prol do reconhecimento de que, a despeito da pluralidade que envolve os diferentes futebóis, o futebol deve ser acessível, como prática e como profissão, para todxs.

Referências bibliográficas

MARTINS, Mariana Zuaneti; DOS REIS, Heloisa Helena Baldy. “Nós não somos homens menos capacitados”: estratégias e demandas das jogadoras de futebol da Espanha. Athenea digital: revista de pensamiento e investigación social, v. 18, n. 3, p. 0022, 2018a.

______. “À morte com o sindicato”: conflito e emergência de uma greve de jogadores de futebol na Espanha (2011). Movimento (ESEFID/UFRGS), v. 24, n. 2, p. 471-482, 2018b.