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Futebol de pandemia, um exemplo real de uma distopia do torcer neoliberal

Chico Brinati

A pandemia nos colocou diante de nós mesmos. Isolados, sem abraços, passamos a recordar e a dar valor a coisas simples que perdemos em algum momento dessa nossa vida. Pelo meu olhar, o “futebol de pandemia” também vem nesta direção. O momento atual é a realização ao extremo do maquiavélico plano de alguns dirigentes em diminuir os gigantes estádios a pequenos espaços restritos e restritivos. Afastou o povo. Monetizou o torcer a preços pouco acessíveis. Criou regras para “extravasar” dentro de padrões determinados. Voltaram lá ao início do esporte no país, onde apenas a elite em seus trajes de grã-finos e suas “atitudes educadas” era bem-vinda.

Um processo que vem desde os anos 2000. Eu, torcedor de arquibancada anos 1990, lembro-me de quando me deparei com essa mudança: quartas de final da Copa 2014, Brasil e Colômbia, em Fortaleza. Eu tinha me preparado a vida inteira para torcer pela seleção numa Copa em casa. Estava com sangue nos olhos. Ao final do hino nacional, continuei cantando, em pé, vibrando. Um rapaz de blusa de linho nos ombros me cutucou no braço e pediu para que eu sentasse e me “acalmasse”. Não aceitei, óbvio. Aí, veio a figura que personifica todo o desejo de controle da elite no estádio: o Steward. Quase fui expulso por vibrar “além da conta” na avaliação deles… Fui obrigado a me enquadrar.

Voltemos aos dias de hoje. Ao assistir ao jogo pela TV, comprado devidamente no “pague pra ver”, me vem sempre um incômodo quando olho para as arquibancadas vazias. “No futebol, o pior cego é o que só vê a bola”, me pego a imaginar o que seria de Nelson Rodrigues nos dias de “cancelamento virtual instantâneo”. As medidas de segurança me fazem pensar sobre este torcer, que não será aqui chamado de “novo” (assim como não concordo com os que insistem em cravar o que virá pós vírus de “novo normal”), e que me permite algumas reflexões.

Se para alguns era mais importante tirar “selfie” em meio ao desenrolar do jogo, nada mais justo do que o momento atual substituir o torcedor de carne e osso na arquibancada por sua foto. Uma torcida de papelão, com as expressões gravadas, estáticas sem a variação de emoções que o esporte exige. Cada uma em sua cadeira, bem recortada e postada. Algo bem longe daquela mistura linda, confusa e viva da falecida “Geral”.

Torcida atleticana de papelão. Foto: Divulgação/Mineirão.

Nos espaços vazios, a melancolia de uma bandeira caída nas cadeiras nos faz valorizar o anônimo que a erguia com tamanha dedicação, que a enrolava e a desenrolava com a força da emoção nos braços. E que nem imagina que confederações vivem às voltas de proibi-las nos estádios.

Que me desculpem os DJs, que estão ali apenas cumprindo o trabalho a eles designado, mas nenhum canto editado pode mexer com a atmosfera de uma partida como aquele grito presencial alto, libertador, de estufar a veia e extrapolar sentimentos. As caixas de som iludem. Não só nós que vemos de casa, mas os próprios atletas. Jogo apagado, “deixa que eu deixo”, poucos lances de perigo e, pelo estádio, ecoam os cânticos de momentos áureos do time. É factível que se acomodem. Um som que, quando cantado ao vivo, não se cansa de ouvir, torna-se maçante. Um grito chapa branca, de apoio incondicional em todo o lance. Um incentivo mentiroso. Vejamos o caso do Flamengo. Nenhum torcedor rubro-negro cantaria com tanta vibração ao ver esse time apático em campo. “Dome” Torrent não seria poupado daquele tradicional “burro” ao dar uma de Professor Pardal em suas mexidas na equipe. Os resultados ruins vêm, mas não se escutam as vaias. O time não é cobrado, nem contagiado pela magnética.

O craque, então, sem a claque é como o maestro sem a orquestra. Não se sente o arrepio daquele “uhh” após o drible inesperado e sensacional. Não se sente questionado por não “entregar” em campo o que se espera dele…

Faixas e bandeiras sobre as cadeiras do Allianz Parque. Foto: Divulgação/Cesar Greco.

Pela Europa, ainda temos a variação dos gritos pelos alto-falantes. Com urros e vaias de acordo com o lance, uma situação mais próxima da realidade. De qualquer forma, é estranho. Como na principal decisão do ano. Imagino o “se”. Se tivéssemos torcida, o choro dos parisienses no Estádio da Luz teria comovido mais do que o de Neymar. Ou talvez, o coro dos fãs do PSG teria feito a diferença empurrando o time em busca do título inédito.

Sabemos que o futebol voltou para atender ao seu mercado e, também, amenizar os impactos de quem cumpre com o isolamento social ao levar entretenimento. Mas perdoem-me os defensores e os mais apaixonados: não existe futebol sem o “camisa 12”. Sem o calor que carrega as jornadas.

Que a cura venha antes que a gente se acostume com “tudo isso que tá aí”. Antes que a gente esqueça que a graça do futebol não são só as belezas e mistérios de dentro do gramado, mas, muito também, os milhares que se abraçam e se xingam à beira do campo. Que vivem de amor pelas suas cores.

Que o futebol de pandemia passe. Que o acesso aos estádios volte a ser democratizado, que todas as classes sociais possam se abraçar aglomeradas na identificação pelo seu time… Que tenham empatia uns pelos outros. E que a gente se permita, pelo menos em textos como esse, sonhar novamente.


Como citar

BRINATI, Chico. Futebol de pandemia, um exemplo real de uma distopia do torcer neoliberal. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 6, 2020.