10.3

Futebol Dogon – País Dogon (Bandiagara), Mali

Tiago Carrasco, João Henriques, João Fontes

Quando Amadou Tapily foi fazer testes como guarda-redes a Bamako, capital do Mali, os outros jogadores não acreditavam que ele era Dogon. “Lá só há rochas e falésias. Tu não podes jogar futebol no País Dogon”, diziam-lhe. Não estavam muito longe da razão. Amadou, 25 anos, nasceu em Nandoli, uma aldeia enclavada na crista da falésia de Bandiagara, o coração da terra dos Dogon, um povo misterioso que vive há mais de 600 anos longe da civilização, escondido num mundo de pedra e terra infértil. Os antepassados de Amadou fugiram para esta região inóspita para escapar à revolução islâmica, camuflando as suas casas nas cavernas da falésia e esculpindo aldeias de pedra solta e argila na encosta crispada que se estende por mais de 200 km. Aqui se mantiveram longe das perseguições das tribos rivais e dos colonos franceses. A miscigenação é tão rara que os 1200 habitantes de Nandoli têm Tapily como apelido, ou seja, são todos da mesma família.

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Foto: João Henriques.

Amadou ainda nem tinha tocado numa bola nem visto um golo na televisão e já gostava de futebol. O pai trouxe um rádio para a aldeia e ele passava as noites a ouvir os relatos. Quando tinha sete anos, um grupo de turistas europeus passou pela aldeia e, ao vê-lo jogar com uma bola improvisada com sacos de plástico, deu-lhe uma bola a sério, vermelha e preta. “Nesse dia, fui a criança mais feliz do Mundo. As outras crianças começaram a espalhar a notícia que eu tinha uma coisa vermelha e seguiam-me para todo o lado”, diz. 18 anos mais tarde, Amadou volta a Nandoli. À excepção de um ou outro telemóvel, pouca coisa entrou na aldeia. As mulheres continuam a subir e a descer cinco vezes por dia o íngreme rochedo de 100 metros de altura que as separa do único poço de água, as casas de cor acizentada permanecem ocultas nos rochedos envolventes e os velhos ainda estendem as mãos aos visitantes, esperando receber oferendas de kola, um enérgico fruto sagrado para os Dogon. A diferença é que hoje, Amadou cumpriu o seu sonho e é guarda-redes do Centre AFFO Couliboly, equipa de Bandiagara, uma pequena cidade situada na orla da grande falésia, que alinha na 2ª divisão do campeonato maliano. Não recebe salário, nem prémio de jogo, mas conseguiu escapar do rochedo para o campo pelado.

Amadou percorre vagarosamente as ruas estreitas de Nandoli, saudando todos os familiares que encontra. Os cumprimentos Dogon respeitam um ritual de cantilenas em que se ingada a saúde de cada parente, numa lenga-lenga ritmada e bastante demorada: “aga po” (Como está?), “sèwa” (bem), “oumana sèwa” (Como está a família?), “sèwa” (Bem), yahana sèwa (Como está a sua mulher?), “Sèwa” (Bem). E por aí fora, passando pela preocupação com o burro e com o campo de cebolas. Quando se juntam várias pessoas no mesmo círculos, as saudações assemelham-se a um coro de igreja. Entretanto, reparo na arquitectura da aldeia. Do meio das casas, irrompem os celeiros, com telhados de palha em bico. Há celeiros de mulheres e de homens. Os das mulheres estão divididos em quatro compartimentos, cada um deles com alimentos diferentes: amendoíns, milho-miúdo, feijão e arroz. No centro, há um pequeno orifício onde guardam os seus maiores tesouros: pedras preciosas, ouro e prata. A mesquita é a construção de maior dimensão. É feita com tijolos de lama, revestidos por banco, uma mistura de barro, cascas de arroz e palha. Amadou leva-nos até à casa da grande família, onde vive o chefe da aldeia, o seu irmão, com mais uma centena de parentes. “Era aqui que eu vivia”, diz Amadou, apontando para um compartimento escuro onde está sentada a velha curandeira, com os seios descobertos. Somos recebidos com dois disparos de pólvora seca de uma arma velha e com o gatilho empenado antes de conhecermos Abdullaye Tapily, 85 anos, o homem mais velho de Nandoli, que recupera de uma operação à barriga estendido no chão, sobre um tapete. “Hoje vive-se melhor nesta aldeia”, começa por dizer. “Mas temos dois problemas graves: a estrada e a água. Como não há estrada, os turistas não vêm à nossa aldeia e não temos água para beber nem para regar as cebolas”, diz. Em Nandoli, obetr água é mesmo um verdaeiro calvário. O poço fica no sopé da falésia e é necessário escalá-la para chegar com os alguidares à povoação, sob um calor agoniante de mais de 45º. Amadou regressa a Bandiagara para treinar ao final da tarde. Bandiagara dista apenas 25 quilómetros mas as pedras pontiagudas que trilham a estrada fazem com que o trajecto tarde mais de uma hora.

Os treinos do AFFO Couliboly são realizados na praça central de Bandiagara, num chão de terra batida. É preciso ter imaginação para visualizar as balizas e as linhas de fora assinaladas com pinos vermelhos. Quando a bola é rematada com força e Amadou as defende para canto, embate nos carros que passam na rua, nas vacas que pastam livremente e nas crianças que fazem girar um pneu com um pau fino. “Mesmo com estas condições, estamos em primeiro na nossa poule e vamos subir à primeira divisão”, diz o treinador de Amadou, na palestra do final do treino. “Para serem bons jogadores têm que fazer como o Roger Milla, que deixava a mulher no sofá para se deitar às 20h. Façam como ele, nada de noitadas”, finaliza. Do outro lado de um muro baixo, a outra equipa de Bandiagara, o Nangabanou FC, treina no único campo da cidade. É lá que conhecemos Abdullaye Kodio, avançado de 21 anos, outro Dogon que atravessou a falésia para poder marcar golos.

Abdullaye vive ainda mais longe do que Amadou, a 80 quilómetros da cidade, numa povoação situada na planície arenosa à sombra da falésia, chamada Madogou, tão isolada e debaixo de um calor tão tórrido que torna difícil perceber porque é que alguém se fixou ali. Com 14 anos, nunca tinha ido à escola nem saído de Madougou e jogava futebol com as cabaças com que se transporta a água e se serve a comida. “Apaixonei-me pelo futebol no dia em que a minha tia me mostrou na televisão Thierry Henry a fintar os adversários”, diz. Nesse dia, decidiu que queria ser como o avançado do Barcelona. Então, sentou-se numa carroça e deixou-se levar até à imponente escarpa. “Escalei-a durante um dia e apanhei uma boleia até Bandiagara”. Passou a assistir religiosamente aos treinos do Nangabanou até que convenceu o presidente a fazer um treino. Ficou na equipa. Actualmente, concilia a posição de ponta-de-lança do clube, onde não ganha salário nem prémio de jogo, com o trabalho de DJ. Os colegas tratam-no por “Thierry”.

Sentamo-nos à sombra de um telheiro de colmo na aldeia de Abdullaye. Somos totalmente rodeados por uma multidão de crianças curiosas, com barrigas infladas de fome e cordões umbilicais proeminentes, que nos rogam por garrafas de água vazias. Muitas nunca terão visto um branco em carne e osso. O País Dogon recebe cerca de 70 mil turistas por ano mas Madougou fica fora do circuito dos visitantes. Tal como na aldeia de Amadou, o islamismo acabou por penetrar pela insistência ao longo dos séculos, contrariando a vontade dos antepassados de Abdullaye que aqui se refugiaram para preservar as crenças animistas. Mas não se pense que o turismo e o islamismo aniquilaram a cultura original dogon. Pelo contrário, ela mantém-se bem viva. Os Dogon acreditam no carácter sagrado de animais como o caimão, fazem sacrifícios de vacas e cabras para que o ano seja de boas colheitas e mantêm cerimónias ancestrais de cultos às estrelas (ver caixa). Abdullaye tem jogo no dia seguinte, pelo que regressamos à cidade no final da tarde, enfrentando um furo no pneu, três horas de estrada desventrada e aos altos e baixos e uma temperatura infernal. Montado no tejadilho do nosso jipe, observo atentamente a falésia magistosa que se exibe à nossa frente. Casas mínimas, para pigmeus, desabrocham das rochas incandescentes ao por do sol. Algumas emergem precisamente no meio do rochedo, inacessíveis, inalcançáveis, como um apartamento bizarro no 100º andar de um arranha-céus sem escadas nem elevador. “Os nossos antepassados trepavam como aranhas porque tinham poder mágicos. Esta é a herança dos Dogon”, diz-me Abdullaye.

Sábado é dia de jogo. Deslocamo-nos para Koro, precisamente na outra ponta da falésia, para assistir ao Nagabanou – Koro. É um jogo importante para a subida à primeira divisão. Numa sala nua na Casa dos Jovens de Koro, a equipa do Nagabanou divide uma enorme tijela de arroz antes da partida. Dois adeptos com a cara e o tronco pintados com giz branco, misturam-se com a equipa, entoando cântico indecifráveis. O marabout observa atentamente se os seus feitiços estão em marcha. O treinador, Omar Dia, explica-me como vai vencer o jogo usando um 4-4-2 inovador e conta-me, com nostalgia, o dia em que o Nangabanou ia chegando à final da Taça do Mali. A equipa foi jogar a Gao, a 900 quilómetros, mas chegou atrasada ao ferry-boat que fazia a travessia de um rio. Tiveram de dormir na margem, onde passaram frio e foram devorados por mosquitos. Acabaram por perder por 3-1.

Os Dogon até podiam ter capacidades mágicas mas elas não se transferiram para o futebol. Não há meios. Emprestamos um par de chuteiras e uma bola para que o jogo principie. O jogo é pobre, recheado de pontapés para o ar e caneladas. Há mais pessoas sentadas em cima das motos do que na bancada. A meio da primeira parte, o médio do Koro marca um livre à figura do guarda-redes, que deixa a bola escapar-lhe entre as mãos. A equipa Dogon perde por 1-0. Mas a arma secreta está pronta para entrar. Os adeptos visitantes chamam por “Thierry”. Abdullaye Kodio, relegado para suplente por ter adormecido antes da convocatória desta manhã, está sentado no banco a fumar um cigarro. Ao intervalo, rouba os calções verdes a um colega e veste a camisola 14 por cima do equipamento azul da França, com o nome Henry nas costas. Acreditamos que os poderes dos seus antepassados, do caimão e das estrelas vão fazer Abdullaye chegar ao golo. Mas nada acontece, a não ser mais uns remates para o ar e um par de caneladas. O jogo acaba com os protestos do Nagabanou. “O árbitro é um Dogon de Bandiagara e apitou contra nós. Não pode ser”, diz o treinador. Abdullaye abandona o campo triste mas depressa se recompõe. Afinal, já obteve a maior  vitória – trepou a falésia coma destreza de uma aranha.

O futebol no Mali
Somente três equipas venceram o campeonato de futebol do Mali, disputado desde 1966: o Djoliba Athlétic Club (21 títulos), o Stade Malien (15 títulos) e o AS Real (6). O campeonato tem 14 equipas, das quais 9 são da capital Bamako e duas dos seus arredores, o que diz muita da centralização existente no Mali. O Stade Malien é o actual vencedor da Taça das Confederações Africanas, equivalente à Taça UEFA. O campeonato da segunda divisão é disputado em poules regionais. As equipas mencionadas no texto fazem parte do campeonato de Mopti, no sudeste do país, onde se disputam quatro poules com quatro equipas cada uma. A selecção nacional conta com jogadores dos melhores campeonatos europeus como Frèdèric Kanouté, do Sevilha, e M. Diarra, do Real Madrid, mas nunca ganhou a CAN. Actualmente, o basket assume-se como um desporto de referência no país, após a obtenção de vários títulos internacionais.

A história dos Dogon
Os primeiros homens a refugiarem-se na falésia de Bandiagara, há mais de 1000 anos, eram muito pequenos e pretenciam ao povo Telem. Ocultaram as suas casas nas falésias para se esconderem dos caçadores Dogon, mas estes acabaram por expulsar os pigmeus no século XIV para se esconderem dos árabes, dos mandingas e dos fulas que os pretendiam converter ao islamismo. Calcula-se que os Dogon tenham origem nas margens do Nilo, no Egipto, e que dái tenham migrado para o Mali. Os Dogon, animistas, mantiveram-se escondidos nas profundezas da escarpa durante séculos. Devido ao isolamento, mantiveram intactas a maioria das suas crenças e características culturais. Apesar do turismo crescente, a maioria das aldeias ainda mantém as pedras basilares da sua cultura ancestral. As aldeias Dogon estão hoje no topo e no sopé da falésia, sendo as cavernas Telem usadas como cemitérios. Muitas vezes, içam com cordas os cadávares para o topo da rocha.

A estranha cultura Dogon
Os Dogon acreditam que a terra, o sol, a lua e o ser humano foram criados por uma entidade divina chamada Ama. O filho de Ama com a terra são duas serpentes gémeas chamadas Nommo, que indicaram o caminho aos Dogon para a sua terra. A mutilação genital feminina é generalizada. O mito diz que Ama, ao tentar fecundar a terra, foi bloqueado por um monte de térmitas, representado, profanamente, pelo clitóris. Todas as mulheres Dogon devem, então, ser circuncisadas para dar azo à vida. Têm também um enorme conhecimento astronómico. Os Dogon são capazes de prever o aparecimento da estrela Sirius e a ela dedicam o festival Sigui, levado a cabo de 60 em 60 anos. As crenças dos Dogon anteciparam-se a algumas descobertas científicas, principalmente em relação à estrela Sirius.

*Tiago Carrasco, João Henriques e João Fontes estão rumo à Àfrica do Sul no projeto Road to World Cup. Foi mantida a grafia original, de português de Portugal.