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Futebol e algumas aproximações com o campo da ética

Amarildo da Silva Araujo

Acreditando que o futebol dialoga com diferentes áreas do conhecimento, pretendo fazer algumas aproximações com campo filosófico, mais especificamente sobre futebol e ética. A intenção aqui neste breve ensaio não é buscar uma posição conclusiva para o fato que pretendo abordar, e sim levantar alguns pontos que a filosofia pode contribuir para o entendimento de ações, atitudes, comportamentos e até mesmo a reflexão para a revisão de alguma regra.

Reportarei a um fato ocorrido no clássico mineiro entre Cruzeiro e América, jogo realizado em Belo Horizonte no Mineirão pela quarta rodada do Campeonato Brasileiro em maio de 2016, que teve como placar final 1 a 1. O ocorrido reascendeu a discussão do “fair play” no meio futebolístico mineiro e foi pauta em diversos programas esportivos nacionais, que tem o futebol como carro chefe. Vale lembrar, que a expressão “fair play” significa jogar limpo, jogo justo ou ter espírito esportivo para que não prejudique o adversário de forma proposital, obtendo vantagens de natureza duvidosa.

Próximo ao fim da partida entre Cruzeiro e América, após um lance polêmico, o então técnico do Cruzeiro na época, o português Paulo Bento disse, que sua equipe não iria mais devolver bolas por “fair play” aos adversários. O time do América colocou uma bola para fora após um atleta da sua equipe ter “supostamente” contundido. Na reposição da bola em jogo, o português orientou seus jogadores a não devolverem a bola ao adversário.

BELO HORIZONTE / BRASIL - 28.05.2016 - Paulo Bento, no jogo entre, Cruzeiro e América-MG, no estádio Mineirão, em Belo Horizonte, pela 4ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2016. © Washington Alves/Light Press/Cruzeiro

Paulo Bento, no jogo entre, Cruzeiro e América-MG, no estádio Mineirão, em Belo Horizonte, pela 4ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2016. Foto: Washington Alves/Light Press/Cruzeiro.

De acordo com as palavras do técnico cruzeirense (1), após um conflito nos minutos finais:

a confusão não foi com ninguém em especial, não quero confusões com ninguém. Apenas acho que o futebol deve ser valorizado pelo positivo, ou seja, que meus jogadores joguem de uma forma positiva, joguem de uma forma leal, e que tentem aproveitar da melhor maneira possível todo o tempo que existe no jogo. Ou seja, fazer um jogo com maior tempo útil possível. Isso é o que tratamos, e não estou dizendo que o treinador do adversário o fez isso” (orientação de antijogo)”.

Continua o treinador:

não digo nunca, ao longo de uma carreira que é curta ainda, que um jogador meu para queimar tempo. Não digo. A única coisa que quero deixar bem claro é que, a partir de agora, por questão de filosofia, e isso iremos comunicar também aos nossos jogadores, e para que todos os nossos adversários o possam saber, a partir desse momento, o time do Cruzeiro não colocará a bola fora. Se colocar, não pretendemos que depois nos devolvam a bola. E também, quando o adversário a colocar, nós não colocaremos fora. Há o árbitro para isso. É o árbitro que tem que apitar, é o árbitro que tem que parar o jogo. Nós queremos jogar futebol, jogar de forma positiva e disso trataremos que os jogadores possam fazer da melhor maneira possível. Não foi o caso só do jogo de hoje. No jogo anterior isso também já havia acontecido“.

Esse fato levanta algumas questões de natureza ética. Lembrando que a ética aqui é apresentada na perspectiva de Clovis de Barros Filho (ver vídeo abaixo). Ele nos diz, que ela é a discussão necessária e permanente para que juntos possamos identificar o que é melhor para a convivência. Não se trata de alguma verdade que se impõe de algum lugar sobre nós. Para o Professor “a ética é a nossa inteligência para identificar a melhor forma de solução para os nossos problemas. É a nossa capacidade de pensar melhor para a nossa convivência”, o que é diferente da moral, que sou eu comigo mesmo. Eu não dou um chute ou uma cotovelada no adversário, porque não é esse o meu papel como jogador, eu escolhi agir assim, e não porque existem câmeras ou outros olhares para me coibir ou reprimir.

O “fair play” numa partida aparece ser como um pacto entre os jogadores e comissão técnica, onde não é a vitória a qualquer preço que tem de prevalecer e nem o uso de determinados meios, porém, o futebol está inserido dentro de um mundo competitivo e utilitário, que tem como uma forma de sobrevivência ou de reconhecimento, a vitória; seja para o jogador, a comissão técnica, os dirigentes e os torcedores, há uma cumplicidade nesse envolvimento. Além disso, há um árbitro que pode tomar decisões que são falíveis tanto do ponto de vista da interpretação para alguns, quanto do erro.

Colocar a bola para fora quando um jogador cai no gramado, revela uma cordialidade que se tornou um costume no meio do futebol, quando os jogadores colocam a bola para lateral, nos mostra uma norma não escrita, mas internalizada, e que revela uma conduta apropriada para uma melhor convivência conforme requer a ética.

BELO HORIZONTE / BRASIL - 28.05.2016 - Robinho, no jogo entre, Cruzeiro e América-MG, no estádio Mineirão, em Belo Horizonte, pela 4ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2016. © Washington Alves/Light Press/Cruzeiro

Robinho, no jogo entre, Cruzeiro e América-MG, no estádio Mineirão, em Belo Horizonte, pela 4ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2016. Foto: Washington Alves/Light Press/Cruzeiro.

A crítica corajosa feita pelo técnico cruzeirense, certamente nos diz que nem toda vez que um jogador está caído justifica a obrigatoriedade de jogar a bola para a lateral, isso porque o mau uso dessa norma fez com que em muitos casos fosse utilizada de maneira contraria a uma postura que beneficiasse a convivência. O problema levantado por esse treinador incomodou o meio do futebol, por expor um problema que atinge todos os times e torcida adversária, basta estar na situação desfavorável, sendo atingido pelos danos da simulação, mas tal questão não é tratada pelo “infrator” no momento do fato como algo negativo, podendo ser revertido em breve para ele mesmo.

Quanto a situação da arbitragem não é simples. O treinador tem razão ao dizer: “É o árbitro que tem que apitar, é o árbitro que tem que parar o jogo”. O árbitro é a autoridade legal para interromper o andamento da partida, para solicitar o atendimento médico ou a retirada do jogador, a própria regra resguarda essa autonomia, porém ele não pode afirmar se o jogador está apto ou não para dar segmento a partida e ignorar o fato dele estar caído no gramado, ou seja, ele não é a autoridade que tem o conhecimento ou está habilitação para fazer a escolha com segurança para definir se há uma simulação do jogador ou não, e isso dificulta o “fair play”.

De modo geral, levar vantagem indevida parece estar inserida na cultura do futebol, basta observar que na maioria das bolas que saem para a lateral tem a posse reivindicada pelos jogadores das duas equipes, levantando o braço para indicar imediatamente a direção e sentido do ataque. Não podemos esquecer que a “malandragem” está no futebol, um grande número de jogadores se comportam notoriamente simulando contusão para utilizar o tempo a favor de sua equipe. A tradição dos times de sempre procurarem fazer o uso do tempo a favor de quem está sendo beneficiado (exemplo disso é a cera), distancia de uma conduta “ética” de duas equipes que possam fazer o uso do tempo de forma útil e positiva como disse o treinador.

Com a aplicação de novas tecnologias no futebol, podemos esperar forçosamente o uso da razão para contrariar o interesse das paixões. E sobre isso, a ética é um instrumento poderoso para novas reflexões e apontar caminhos em busca de uma melhor convivência no futebol.

(1)http://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/brasileiro/serie-a/ultimas-noticias/2016/05/28/cruzeiro-apoia-bento-por-posicao-sobre-fair-play-nao-pode-ser-otario.htm

Como citar

ARAUJO, Amarildo da Silva. Futebol e algumas aproximações com o campo da ética. Ludopédio, São Paulo, v. 95, n. 28, 2017.