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Futebol e Geopolítica

Wagner Xavier de Camargo
Photo credit: DocChewbacca via Visualhunt / CC BY-NC-SA

Foto: S./Flickr (CC BY-NC-SA)

Lembro-me bem dos anos escolares quando tomei conhecimento do conceito de geopolítica. Normalmente associado ao expansionismo territorial das potências europeias de fins do século XIX, a geopolítica teve papel decisivo nas múltiplas redimensões de fronteiras na Europa e no Mundo no decorrer do século passado. A própria expansão e dominação territorial da Alemanha Nazista levou ao pé da letra as bases fundacionais da geopolítica (em alemão, Lebensraum ou espaço vital). Aplicar a ideia de transformação do espaço por meio de ações políticas e se atentar para o esporte (e o futebol) nesse contexto parece um exercício bastante interessante. Eis que, perambulando por uma editora de renome, num fatídico sábado à tarde, encontro o livreto do jornalista esportivo José Eduardo Carvalho, chamado Geopolítica: 150 anos de futebol.

O livro é pequeno e tem a intenção de ser de divulgação científica. Foi publicado pela editora do SESI-SP, dentro do formato de livro de bolso. E o autor faz uma justaposição entre a história do futebol desde fins do século XIX e a história mundial no mesmo período. Pela proposta de atingir um amplo público, a obra contempla a maior parte dos principais (e importantes) acontecimentos do tumultuado século XX.

Prefaciando a obra, Fabio Piperno já nos adianta exemplos de como o futebol foi tratado (e maltratado) pela política de Estado no trajeto de sua história: traz o interessantíssimo caso da partida entre os países fronteiriços El Salvador e Honduras, nas eliminatórias para Copa do Mundo de Futebol Masculino em 1970, do México. Com a derrota de El Salvador no primeiro confronto, uma jovem salvadorenha de 18 anos (Amelia Bolaños) se suicida em protesto a esse fato, o que desencadeou uma onda de fanatismo e violências. Com a vitória de El Salvador no jogo de volta (em Honduras) e o subsequente desempate na Cidade do México, a luta pela vaga tinha se resolvido, mas não a disputa territorial entre as partes, que era histórica e hostil. Esse é o caso contado da “Guerra das Cem Horas”, de conflitos dos dois lados, onde até bombardeio aconteceu. E foi preciso a ONU intermediar a situação, mais de dez anos depois, para que houvesse um armistício.

Na esteira das ações de Estados nacionais em relação ao futebol, há situações bem mais contundentes de manipulação. Carvalho nos lembra de quando, nas primeiras décadas do século XX, o futebol foi tomado por ditadores como espelho de sucesso de seus regimes políticos. Primeiro foi a vez de Benito Mussolini, na Itália, que mesmo não tendo conhecimento técnico sobre futebol, usou-o como instrumento de propaganda do regime fascista na Copa do Mundo de Futebol Masculino de 1934, organizada pela em seu próprio país, e na qual a própria Itália se tornou campeã. O mesmo aconteceu em 1938 e ambas as vitórias foram vendidas ao povo como conquistas do fascismo.

Logo em seguida, impressionado com a mobilização das massas pelo esporte (e mais especificamente com o futebol), Adolf Hitler transformou os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, numa demonstração de poderio militar e político da então Alemanha Nazista. Apesar de ver inúmeros sucessos e pódios de atletas alemães, o Führer foi obrigado a amargar alguns resultados desfavoráveis como a vitória do negro norte-americano Jesse Owens nos 100 metros rasos e a eliminação da seleção alemã de futebol pela improvável Noruega. Como diz o autor, “o time norueguês eliminou a Alemanha em plena Olimpíada de Berlim, em 1936, sob o nariz empinado da cúpula nazista e o olhar intimidador de Adolf Hitler, o que levou o país à medalha de bronze” (p. 16).

Foto: Diego Sideburns/Flickr (CC BY-NC-ND).

Por fim, o sanguinário general Francisco Franco, responsável pela guerra civil espanhola de 1936-39, escolheu o time Real Madrid para representar seus anseios de um grande governo. Segundo Carvalho, a questão não era apenas geográfica, mas moral. A capital Madrid era o centro do poder e de onde deveriam emanar as diretrizes. A verdade é que Franco usou e abusou do futebol e do Real Madrid como símbolos de seu governo e de seu (suposto) poderio. “Montava espetáculos para se promover de forma grotesca nos momentos de crise. Tratava o time da capital como o mais bem-sucedido produto nacional, espelho da nova era, mobilizador das massas em apoio ao governo” (p. 51).

Mas o futebol não é apenas coadjuvante de Estados nacionais. Ele também age por si próprio. Para mim foi impressionante ler sobre os conflitos nos Balcãs pela atuação da modalidade. Segundo Carvalho, na última década do século XX, o futebol esteve no epicentro da maior transformação geopolítica da contemporaneidade, qual seja, a da fragmentação da (ex)Iugoslávia e a formação de países de minorias étnicas independentes. No plano internacional, e no âmbito de Copa do Mundo de Futebol Masculino de 1990, a equipe da Iugoslávia jogou pela última vez, com excelente desempenho e recheada de craques. Um ano mais tarde, jogadores como o sérvio Dragan Stojkovic (que logo vai para o Olympique de Marseille) e o croata Zvonimir Boban (que iria para o Milan) já estavam, assim como outros, separados em distintos clubes europeus.

No plano interno, e com uma situação política tensa, torcidas extremamente violentas como os “Tigres” (a organizada do Estrela Vermelha, principal time de futebol da Sérvia) chegaram a matar, de acordo com historiadores, mais de 2 mil habitantes de Kosovo no auge da guerra de separação yugoslava. Alguns jogadores chegaram a participar da onda de violência, o que lhes custou afastamento e desligamento de seus clubes, mas rendeu-lhes reconhecimento de seus compatriotas. Foi o caso de Boban, conhecido como “Zico da Croácia”, que em maio de 1990 foi tomado como herói nacional por chutar policiais sérvios no confronto entre torcedores de sua equipe (o Dínamo de Zagreb) contra os “Tigres”.

Interessante o argumento de Carvalho de que o futebol traz um forte toque humanizador à geopolítica tradicional e que atravessa boa parte do século XX sob o impacto das transformações na sociedade contemporânea. Para ele, se as fronteiras territoriais como definidas pela geografia são implacáveis, o futebol como um fenômeno global assimila as diferenças culturais, ideológicas e religiosas e as coloca num outro nível, nem melhor, nem pior, e sim distinto.

Com jogadores (e jogadoras) de futebol em circulação no planisfério há a formação de um “hipermercado global” (termos dele), que só ressalta o pioneirismo da modalidade em promover uma globalização dela mesma sem precedentes. Segundo o autor, o estabelecimento desse hipermercado nos últimos 20-30 anos mexeu com as identidades regionais, abalou e redimensionou paixões clubísticas e desafiou símbolos de sustentação do próprio futebol. Todo esse processo forma uma “sociedade mundial supra-territorial” e segue galopante – uma das provas disso são as camisas de futebol como signos universais.

Porém, há que se dizer que a “geopolítica do futebol” não é só feita por homens. Infelizmente o livro de Carvalho não generifica a História, se esquece das mulheres nela e trata a geopolítica do futebol pela versão oficial dos fatos, isto é, hegemônica e masculina. Os fatos falam por si. Já em fins do século XIX há dados sobre a criação de clubes de futebol para mulheres na Grã-Bretanha, que excursionavam pelas grandes cidades britânicas, e pari passu às demandas pelo voto civil por parte delas, algumas feministas se engajavam para demonstrar que as mulheres podiam alcançar a emancipação e ter um lugar importante na sociedade também via prática de esporte. Mesmo no Brasil há um movimento cultural contestador do lugar da mulher no futebol, já nas décadas de 1920-30.

Photo credit: The Library of Congress via VisualHunt / No known copyright restrictions

Foto: The Library of Congress/Flickr.

Se os fluxos migratórios foram responsáveis desde fins do século XIX por ampliar os horizontes do futebol, proporcionando circulação de pessoas, traços culturais, estilos de jogo, pesquisas recentes estão mostrando cada vez mais adquire importância a circulação de mulheres jogadoras no hipermercado da bola. Se como o autor coloca, o futebol é “multiétnico, multirracial, multitudo”, não nos esqueçamos que as mulheres afetam e são afetadas por esse “multi-algo”, uma vez que estiveram (e estão) presentes nessa geopolítica.

E um último puxão de orelha: escrita de divulgação científica não significa legitimar o senso comum. O autor termina seu texto em “tom otimista”, dizendo que frente às transferências de jogadores que se multiplicam, à multirracialidade que impera em grandes clubes, aos contextos de multiculturalismo reinantes, os torcedores só querem “festa, gols e espetáculos”, prezando pelos símbolos e o amor ao clube do coração, e “sendo plenamente adaptável a mudanças” (p. 80). Não nos esqueçamos que o futebol também mata, haja vista as ações hediondas das torcidas (organizadas e facções delas), tanto no Brasil quanto no mundo. Aceitar é mais do que tolerar. É receber o diferente e o novo sem pré-condições!

A geopolítica do futebol do século XXI será, certamente, diferente daquela do passado. Resta-nos atentar para os detalhes do mosaico, pois são eles que nos darão uma nova noção, um novo conceito.

Apesar dos pesares, vale a leitura: José Eduardo Carvalho. Geopolítica: 150 anos de futebol. São Paulo: Ed. SESI, 2012.