123.15

Futebol e homofobia: a triste história de Justin Fashanu

Thiago Rosa

A homossexualidade é ainda um grande tabu no futebol. Falta o debate, mas sobram comentários, piadas e atos que desprezam a simples possibilidade de haver gays no esporte mais popular do mundo. Quantos atletas homossexuais jogaram e ainda atuam profissionalmente? Não se sabe. Há quase 30 anos, um jogador decidiu romper com a barreira do preconceito e se libertar. A história de Justin Fashanu talvez explique porque a sexualidade seja um marcador implacável nos gramados.

Filho de um nigeriano e uma guianense, Justinus Soni Fashanu nasceu em Hackney, um dos lugares mais pobres e afetados pelo crime de Londres. Renegado pelo pai antes mesmo do nascimento e abandonado pela mãe, Justin e o irmão mais novo, John, foram deixados no orfanato. O primogênito tinha cinco anos quando ele e John foram adotados por Alf e Betty Jackson, um casal de Attleborough, na região de Norfolk, distante 120 quilômetros da capital inglesa.

Recém-chegado para morar em uma isolada região da Inglaterra, um estigma começou a fazer parte da biografia de Justin Fashanu: o preconceito racial. Ele tinha apenas oito anos quando Enoch Powel, um político do Partido Conservador, abriu uma crise no Parlamento ao discursar contra a criminalização do racismo. “Neste país, dentro de 15 ou 20 anos, o negro terá sob seu controle o homem branco”,  disse, dando o tom da realidade a ser enfrentada pelos irmãos negros.

Antes de brilhar nos gramados, o garoto mostrava talento no boxe. Foi por duas vezes finalista júnior dos pesos pesados. Tinha tudo para se tornar um pugilista profissional, não fosse a persistência de um olheiro do Norwich City, um pequeno clube da homônima cidade do leste inglês.

Justin Fashanu posa para foto com a camisa do Norwich City. Foto: Reprodução/Twitter/@NorwichCityFC.

No futebol, Fashanu passou a chamar a atenção pelo talento. Era alto para cabecear, veloz para passar pelos zagueiros e forte o bastante para enfrentar as atitudes racistas de torcedores, que chegavam a imitar macaco e arremessar bananas no campo. Debutou como profissional pelo Norwich em janeiro de 1979, ainda aos 17 anos. Era o início de uma carreira promissora.

O jogador negro de £ 1 milhão

Em três temporadas pelo Norwich City, o atacante marcou 40 gols. Um deles, em especial, viria a torná-lo conhecido em todo o país. Era 9 de fevereiro de 1980, jogo contra o todo poderoso Liverpool e o time perdia de 3×2. Foi então que, aos 74 minutos, Fashanu marcou um lindo gol, empatando o placar.

“Oh, um gol magnífico”, foi a primeira reação do narrador Barry Davies, sobre o golaço transmitido em rede nacional pela BBC. A mesma emissora daria ao feito do atleta o selo de “Gol da Temporada”. Talentoso e jovem, Fashanu era também famoso.

Autor do gol do ano e com atuações de destaque pelo Norwich, chamou a atenção de Brian Clough, técnico do Nottingham Forest, na época bicampeão da Liga dos Campeões da UEFA. A transação para o time do lendário técnico inglês foi um marco na época: £ 1 milhão. Fashanu se tornava o jogador negro mais caro do futebol inglês.

O atleta acabou não rendendo às expectativas no novo clube. Em uma temporada pelo Forest, marcou 3 gols em 32 partidas. À medida que suas atuações dentro de campo ficavam cada vez mais apagadas, cresciam os rumores da vida extracampo. Passaram a ser frequentes os comentários e piadas sobre suas idas a boates gays da pequena Nottingham. Não demorou muito para as histórias chegarem nos ouvidos de Clough, um técnico linha-dura e um homem bastante conservador.

Por ordem do treinador, Fashanu foi proibido de atuar e sequer podia treinar com o resto do time. A aversão de Clough era tamanha que chegou a chamar a polícia para impedir que o atleta se aproximasse do campo. Era o fim da linha para ele no Forest.

Longe dos planos de Clough, o jogador foi emprestado ao Southampton, sem que isso lhe parecesse uma queda vertiginosa na carreira. Carismático e espirituoso, era bastante interessado por moda e demonstrava ter muito apreço por dinheiro. Na nova casa, chegou a pedir um aumento e, ao receber a recusa, tratou de encomendar o terno mais caro da cidade e enviar a conta para o clube.

Justin Fashanu em atuação pelo Notts County FC. Foto: Flickr/Alan Feebery.

Terminado o empréstimo, Fashanu teve seu passe comprado por £ 100 mil pelo Notts County, clube pequeno de uma cidade próxima a Nottingham. Logo na primeira temporada, porém, uma grave lesão no joelho o afastaria dos campos. Operado, foi se recuperar em Los Angeles, nos Estados Unidos, consumindo boa parte do dinheiro que havia ganhado na carreira.

Sem espaço nos clubes de primeiro escalão e com a carreira em declínio, recorreu a tudo. Abandonou o discurso materialista e entrou para congregação da Assembleia de Deus em busca da fé. Foi à Nigéria, sem êxito, tentar se aproximar do pai que o rejeitara. Longe da fama nos gramados, rodou por times de pouca expressão na própria Inglaterra, Estados Unidos e Canadá. Em 1989, retorna ao Reino Unido com uma proposta do Manchester City, mas acaba indo parar no West Ham. Fashanu se transformava em um andarilho da bola.

O primeiro gay assumido no futebol

Foto: Reprodução.

Passados vários anos desde o entrevero com Brian Clough e a conturbada saída do Nottingham Forest, Fashanu era menos conhecido no campo e mais falado pelas suspeitas fora dele. O jogador aparentava não ligar, mas se recusava a admitir.

Tudo mudou quando seu agente, Eric Hall, convenceu-o e acertou com um jornal uma entrevista exclusiva. Em 22 de agosto de 1990, o tabloide britânico The Sun estampa: “Estrela do futebol de 1 milhão de libras: eu sou gay”.

“Na minha carreira, quando acontecia algo, eu ia para o The Sun. Quando virei um jogador de £ 1 milhão, saiu no The Sun. Virar cristão renascido, saiu lá. Então pensei que, se for para fazer direito e ser franco, vou usar o mesmo meio que usei nas vezes anteriores”, disse Fashanu em entrevista a uma TV britânica, para justificar o porquê de ter escolhido um tabloide sensacionalista para falar sobre sua vida sexual.

Estampada nos jornais britânicos e repercutida em todo o mundo, a revelação mexeu com um tema quase censurado no futebol. A vida sexual do jogador passaria a ser discutida entre técnicos e jogadores, em boa parte regadas a discursos conservadores e repulsa à presença de um homossexual no vestiário ou gramado. Com a exposição, Fashanu ganhou £ 70 mil do The Sun, mas perdeu muito mais.

Justin e John: da união à reprovação  

Separados por apenas um ano de diferença, os irmãos Fashanu eram inseparáveis na infância. Os dois, inclusive, começaram a jogar  futebol juntos no Norwich. Porém, enquanto o mais velho se destacava, John parecia viver às sombras de Justin.

Com vigor e força, mas sem o talento do irmão, John teve uma carreira longeva, dentro e fora das quatro linhas. Atuando oito anos como atacante do Wimbledon, entre 1986 e 1994, foi protagonista na campanha de retorno do time à elite inglesa na temporada 86/87 e campeão da FA Cup no ano seguinte, justamente quando Justin ainda tentava dar a volta por cima no futebol. Atuou ainda em duas ocasiões pela seleção da Inglaterra e, mais tarde, viria a se tornar um apresentador de TV de sucesso.

Um “cara difícil”, como ele mesmo se define, John se recusou a aceitar a homossexualidade de Justin. Na véspera da revelação à imprensa, chegou a oferecer £ 100 mil para que o irmão declinasse de expor sua sexualidade no The Sun. “Ele era minha luz brilhante e se tornou meu arqui-inimigo”, disse ao The Guardian. 

Justin ao lado de John e a sobrinha. Foto: Reprodução/The Forbidden Games: The Justin Fashanu Story.

Declínio e fim    

Sem a aceitação dos colegas de profissão e do próprio irmão, Justin jamais recuperou o bom futebol. Passou por 11 times diferentes desde que se assumiu publicamente. Na imprensa e entre os torcedores, não se falavam mais dos gols e jogadas do veloz e ágil atacante, mas sim da vida extracampo do único gay assumido do futebol inglês.

Justin viria a ter sua vida exposta outras vezes no The Sun. Em uma delas, foi alvo de boatos sobre uma suposta relação com um parlamentar casado. A história nunca se confirmou.

Longe da Inglaterra desde 1993, encerrou a carreira em 1997, tornando-se treinador em Maryland, nos Estados Unidos. Ficou longe das chuteiras, mas não dos escândalos. Em fevereiro de 1998, foi acusado de estupro por um jovem de 17 anos, após uma festa. Mesmo que a história não se confirmasse, o episódio colocaria Justin em apuros, já que atos homossexuais eram ilegais na época no estado americano. Com receio de ser preso em outro país, ele retornou à Inglaterra.

Em 2 de maio de 1998, dois meses depois da denúncia, Justin Fashanu foi achado morto numa garagem no leste de Londres. A causa era suicídio. Em uma carta, escreve:

“Percebi que já havia sido considerado culpado. Não quero mais ser uma vergonha para minha família e meus amigos. Ser gay e uma personalidade é muito difícil, mas não posso reclamar disso. Queria dizer que não agredi sexualmente o jovem. Ele teve sexo consensual comigo e, no dia seguinte, me pediu dinheiro. Quando eu recusei, ele falou ‘espere e você vai ver só’. Se esse é o caso, eu ouço vocês dizerem, por que eu fugi? Bom, a Justiça nem sempre é justa. Senti que não teria um julgamento justo por conta da minha homossexualidade”.

Passadas duas décadas de sua morte, a história de Fashanu não foi esquecida. Torcedores do Norwich relembram com carinho do jogador.  Um time e uma campanha contra a homofobia no futebol europeu também foram criados em sua homenagem. Mesmo assim, pouca coisa mudou. A homossexualidade ainda continua cerceada no esporte. Um segredo que pode custar carreiras e vidas.

Veja também: