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Futebol e outras drogas

Luciane de Castro

Foi quando bateu o final de outubro que senti a necessidade de me exilar. O ápice do uso contínuo e em doses cavalares se deu quando, entre o final de setembro e outubro inteiro, me vi novamente sofrendo com o corpo e mente esgotados. Não dava mais para continuar naquela sandice.

Avisei família e amigos que passaria uma quinzena afastada. Pouca ou quase nenhuma internet, o que implicaria em afastamento dos contatos; contato com a natureza e afastamento dos bares que são geralmente utilizados como local de desopilação, tevê alguma, sinal de celular zero.

Mato, inseto, calango, cachorro, praias, uma bicicleta caiçara e dois livros foram utilizados como tratamento contra a abstinência que em determinados momentos bateu forte, sobretudo em dia de rodada com meu Tricolor beirando uma caída histórica.

O caminho para a praia feito de bike, tinha a Rio-Santos como rota, logo, nenhuma banca de jornal em que se pudesse esticar o pescoço para ler as manchetes esportivas dos impressos. Rádio? Não, não tinha. E eu não estava achando assim tão ruim, afinal, o exílio era para isso.

Como um dependente que precisa imputar o exílio em sua rotina e readaptar sua vida, peguei o caminho para a capital. Meu Tricolor, valentemente e com amplo e irrestrito apoio de sua torcida, livrou-se do perigo real de rebaixamento, o que de certo modo trouxe um alento para a alma como se fosse aquela dose que não se consegue dispensar.

Se a confirmação do Tricolor na série A teve um efeito similar ao controle da tremedeira, outras notícias porém bateram como a depressão pós recaída.

E aí bate a bad trip.

Começa com os dois jogos amistosos da seleção feminina contra o Chile. Aquelas viagens organizadas pelo coordenador de seleções que mais se preocupa em bater perna do que fazer o real desenvolvimento da modalidade.

Não vi e nem pretendo ver os jogos da seleção sob o “comando” do Vadão, sobretudo depois de tudo o que ouvi dos bastidores, portanto, desta droga está fácil me livrar. Ela já não me faz tão bem quanto antes. Agora só me causa dores estomacais que pouco a pouco minam minha resistência, e, às vésperas da Copa do Mundo, é preciso administrar bem o consumo dessas coisas todas.

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Vadão observa atletas em amistoso no Chile. Foto: Fernanda Coimbra/CBF.

Entre um seleção sabotada por interesses pessoais e a festa da Copa, fico com a segunda por motivos óbvios.

Se temos um comportamento questionável do segundo escalão da entidade gestora do futebol nacional, o primeiro escalão imprime de maneira definitiva este comportamento questionável. Não, não estou contando nenhuma novidade, mas à medida que o tempo avança e temos jornalistas verdadeiramente comprometidos com a lisura da informação, mais indícios de gestão corrupta surgem.

É o que aponta matéria do Blog Olhar Esportivo, do Portal UOL, sobre convênios assinados pela Federação Paulista de Futebol durante a gestão de Marco Polo Del Nero, com a Secretaria Estadual de Esporte, Lazer e Juventude.

Em avaliação feita pela reportagem com o auxílio de especialistas, houve fraude em todos os convênios analisados. A matéria completa pode ser lida neste link.

Mas ano que vem tem Copa na Rússia e, mesmo que o presidente da CBF não dê as caras no evento – o que não afeta o andamento da festa, Oxalá! –  ele acontecerá e nos trará uma infinidade de assuntos, uma enxurrada de atividades, possibilidades várias de produção de cultura futebolística e, o mais importante de tudo: o álbum da Copa do Mundo!

Neste momento, caro leitor, é possível observar, até como estudo mais aprofundado da relação das pessoas com o futebol, o grau do vício do sujeito. Ele, que já vive em função do jogo, sobe um degrau no patamar do vício. Nada é mais importante que a figurinha que falta. Nada é mais importante que a tabela devidamente preenchida jogo a jogo. Nada, nem a morte, essa desagradável, tem o direito de atrapalhar aquele jogo decisivo de quartas-de-final.

É hora do noticiário? Uma hecatombe pode estar a caminho, o sujeito nem se abala. Televisão, rádio e internet estão ligados porque nada pode se perder. É Copa do Mundo! Tem recorte de jornal pra fazer, álbum e camisas pra colecionar, livros pra comprar, uma infinidade de souvenires para adquirir. Nada sacia o vício.

Sorteio dos Grupos para a Copa do Mundo de 2018 na Rússia. Konstantin Rybin © Organização pública russa "Russian Football Union", 2017

Sorteio dos Grupos para a Copa do Mundo de 2018 na Rússia.
Konstantin Rybin © Organização pública russa “Russian Football Union”, 2017

Entre a euforia e a depressão, segue o viciado na “droga” futebol. Não há “clínica de reabilitação” que aniquile o problema. Há, apenas, soluções pontuais como as que eu experimentei.

Entre o fornecedor de produto ruim e aquele ponta firme, tem a busca por momentos de alegria e superação que reverberarão pelo tempo. Histórias que serão contadas com toques dos cronistas legítimos ou através das notas rápidas e impessoais.

Ainda que um 7 a 1 esteja impregnado na memória coletiva. Ainda que após um mês de atividade intensa a rotina das competições nos jogue novamente no limbo do futebol meia boca. Ainda que entre celebrar toda a grandiosidade do jogo e a lamentação diária sobre os canalhas, haja um apego quase doentio a esse vício, seguiremos felizes.

Na melhor filosofia Sandoval, o vício no futebol é nossa paixão. E não se pode mudar de paixão.

Eu poderia passar uma década exilada. Poderia me impor, quase que como um açoite por dia, o desligamento total deste universo, mas certamente não ficaria limpa. Ficaria sim, triste e incompleta. Se o futebol é uma droga, morrerei “usando”. E por isso estou de volta.