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Futebol e preconceito: por que o número 24 incomoda o mundo masculino?

Wagner Xavier de Camargo

No começo de janeiro, e dentre tantos absurdos que têm nos atingido, assistiu-se a um diretor de clube de futebol, Duílio Alves do Corinthians, fazer piada com a camisa número 24. Víctor Cantillo, colombiano trazido para o Timão, usava tal número lá, mas, segundo Duílio, “Camisa 24 aqui, não”. Bem, eu que ouvia os engraçadinhos amigos de meu pai fazerem tal brincadeira nos idos de 1980, fico surpreso de vê-la ainda figurar em posicionamentos de pessoas ligadas ao mais importante esporte nacional. Será por que o referido diretor é “das antigas”? Será que tal piadinha teria (ou tem) eco nas gerações atuais?

Jorge Kalil, Cantillo e Duílio Monteiro Alves na apresentação do jogador colombiano no Corinthians. Foto: Daniel Augusto Jr/Ag Corinthians.

O fato é que esse “mal-estar” dos machos boleiros com o 24 remonta há, pelo menos, dois séculos. Consta que, em 1892, o Barão João Batista Vianna Drummond inventou um jogo de sorteio baseado em bichos que possuía em seu zoológico, de modo a atrair a população para aumentar sua arrecadação.[1] O jogo fez tanto sucesso que extrapolou os muros do zoo e virou caso de polícia, pois tanto naquela época quanto atualmente, os chamados “jogos de azar” são proibidos por lei.

Dentre os animais estava o veado, associado então ao 24, que, no conhecimento popular, é sinônimo de (animal) frágil, delicado, vulnerável. Como os brasileiros são produtos de hordas de homens de uma colonização da pior laia (uma vez que vieram para cá ladrões, estupradores, ignorantes) e encarnaram um ideal de masculino derivado disso, não foi difícil associar tal delicadeza aos homens que não cumpriam a missão de “reprodutores da espécie”. Homossexuais não se encaixavam naqueles ideais e, portanto, o número 24 também os representava.

Claro que as coisas talvez não sejam assim tão sintomáticas. Falta pesquisa, de minha parte, para descobrir em que momento histórico o número 24 começou a causar preconceitos sociais, particularmente no futebol. O fato é que não é de hoje que vestir uma camisa de clube com o 24 nas costas é um tabu. Primeiro porque é de conhecimento tácito que tal número funciona como um dispositivo de efeminação (ou afeminação, como se diz por aí). Isto é, o homem é menos homem com tal camisa numerada. E, segundo, porque número figurará nas costas, uma região “perigosa” para os machos-alfa do futebol.

Um antropólogo brasileiro, Roberto DaMatta, escrevera certa vez sobre a brincadeira “tem pente aí?”, que vigorava na sua infância (e também em parte da minha, nos início dos anos 1980). Como o visual na escola tinha que ser alinhado, particularmente os meninos deveriam ter o cabelo penteado. Portanto, uma vez esquecido o pente, recorrer ao amigo era a saída para arrumar a juba. O pente ficava no bolso de trás da calça e ao procurá-lo junto ao amigo, resvalava-se nas suas nádegas. Era claramente uma ação de inferiorização do outro, tocando em seu traseiro, uma área considerada “sagrada”, segundo o antropólogo.

Portanto, a piada com o número 24 no futebol mexe com a seara de uma masculinidade prescrita, obrigatória da ostentação de um macho defensor do que é ser “homem de verdade”. O 24 macula tal macho ou, dito de outro modo, o emascula (tira sua masculinidade).

Cantillo vestia a camisa 24 no Junior Barranquilla. Embora quisesse usar o mesmo número no Corinthians, ele foi demovido da ideia pela diretoria. Vestirá a 8, a mesma usada com sucesso pelo compatriota Rincón no fim dos anos 1990. Foto: Divulgação.

Ora, Brenno Fraga, terceiro goleiro do Grêmio usa a camisa 24 e isso não afeta o “ser homem”, nem goleiro. Em torneios de futebol da América do Sul, como Libertadores e Copa Sul-Americana, a organização CONMEBOL prescreve a necessidade de numeração sequencial entre 1 a 30 para os jogadores. E, por sua vez, os clubes devem ter a 24 em seu elenco. Na Libertadores, o número 24 foi vestido por Daniel Brito, do Internacional, por Pablo Marí, zagueiro espanhol do Flamengo, e por Carlos Eduardo, atacante do Palmeiras. Nenhum deles usa o 24 em partidas brasileiras ou em seus clubes.

Não é só no Brasil, no entanto, que jogador de futebol se cobra para ser a referência de masculinidade requerida pela sociedade. O mesmo se passa em outros lugares do mundo e do futebol espetáculo, principalmente nas altas divisões. Foi o que ouvi em uma palestra de Thomas Hitzlsperger, ex-meia alemão que, tendo participado da seleção nacional na Copa de Futebol masculina de 2006, alguns anos mais tarde saiu do “armário da heterossexualidade” por não aguentar tamanha pressão. “Os jogadores andam com lindas mulheres e carros caros com vistas a criar uma nuvem de fumaça sobre si”, mencionou.

O jogador de futebol não só se afasta da “suposta homossexualidade” (evitando números como o 24, não se expondo no vestiário, ou adotando estratégias como as referidas por Hitzlsperger) por causa dos torcedores, dos clubes ou mesmo de seus mandatórios contratos. Mas o fazem, particularmente, para não colocarem sua honra em risco. Trata-se, sobretudo, da imaginada “honra do macho” em questão. É óbvio que há cobrança (direta ou indireta) de torcedores; porém, é devido à constante exposição e à vida pública a que se submete, que o jogador se cobra a performance de um “homem ideal”, o qual não existe de fato.

Isso tem a ver com a sexualidade, por suposto. Mas, tem a ver, sobretudo, com entendimento de gênero. Ou seja, nossa sociedade funciona dentro de uma lógica binária, imaginando que para todo azul há um par correspondente rosa. Gênero não é a reciprocidade circunscrita de uma relação causal!

Cantillo jogou com a camisa 24 na derrota do Corinthians para o Guarani do Paraguai em jogo válido pela pré-Libertadores da América. Foto Guarani/Twitter.

Explicação folclórica sobre o número 24 é reiterativa de um modo de enxergar o mundo, de uma cosmologia (no sentido bem raso do termo) de simplificar possíveis perspectivas de gênero, que não têm nem a ver com tal número, muito menos com orientação sexual.

Infelizes dos que ainda continuam a acreditar que homossexuais não são homens e que não podem ostentar formas outras de masculinidades, tão legítimas quanto a edificada pelo senso comum. Triste perceber que equipes que fazem campanhas anti-homofobia (será?) possuem em seus corpos diretivos pessoas com mentalidades retrógradas, que deveriam observar mais criticamente o mundo que habitam. Que o número 24 continue incomodando, tanto o mundo masculino, quanto o futebolístico!

Agradeço ao amigo Sérgio Giglio pela sugestão de escrita desta coluna!   


Nota de rodapé

[1]História do jogo do bicho”. Acesso em: 23 jan. 2020.