15.4

Futebol e torcer na cultura: o que a Escola tem com isso?

Marcos de Abreu Melo

Não há como negar que o futebol é um elemento importante da cultura brasileira, influenciando e sendo influenciado por nossa sociedade em diversos planos. Em Belo Horizonte não podia ser diferente. O esporte bretão está enraizado em nossas vidas, mesmo nas daqueles que alegam não gostar e não acompanhá-lo. Impossível fugir do futebol em dias de grandes jogos, quando a cidade muda de cor, muda de ares, muda de clima. Impossível escapar das conversas de bar, das piadas no trabalho, do bate-bola no recreio nas escolas, das peladas nas ruas ou campos de várzea. Impossível passar incólume às transmissões televisivas e à cobertura esportiva tão focada no futebol. Impossível.

Por isso, desde que o Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas (GEFuT) nasceu em 2006, sempre sentimos a necessidade de dialogar constantemente com essa realidade, com essa cultura em que estamos inseridos e da qual fazemos parte. Desde então, o grupo realizou inúmeras pesquisas e focou seus estudos em diversos temas relacionados ao futebol e ao torcer. Mas faltava alguma coisa. Em 2008, descobrimos o que era.

Foi nesse ano que o GEFuT deu início a seu primeiro projeto de extensão, sob o misterioso título “Ciclo de Debates: A paixão clubística e o torcer em Belo Horizonte”. Apesar da alcunha, a idéia era simples, mas inovadora: se, em nossos estudos e pesquisas, percebíamos o futebol como elemento cultural central na vida dos brasileiros e o torcer como uma das formas de manifestação do lazer e da paixão mais difundidas em nosso país, por que não tratar esses temas na Escola, refletindo e construindo conhecimentos com os alunos?

Percebíamos que o futebol na Escola vinha sendo tratado majoritariamente através de sua prática efetiva, sem grandes preocupações com seu significado cultural. Portanto, trouxemos nossos estudos e experiências para dentro da Escola, buscando tratar o futebol e o torcer sob novos prismas. O Centro Pedagógico e o Colégio Técnico (ambos da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, o primeiro com alunos de Ensino Fundamental e o segundo com alunos de Ensino Médio) foram nossos primeiros laboratórios. Sim, laboratórios, pois não tínhamos conhecimento de ações anteriores em escolas que tratassem o futebol e o torcer sob a ótica da cultura e tínhamos que experimentar e sistematizar nossas próprias metodologias, num processo contínuo de construção de conhecimentos compartilhados.

Esse caminho foi, desde o início, tortuoso e difícil, mas muito prazeroso. Ver tudo aquilo que estudamos e pesquisamos se concretizar em conhecimentos de alunos em escolas é um desafio empolgante. Começamos trabalhando poucos temas, basicamente aqueles que nos permitiam maior segurança, a saber: manifestações do torcer; mulher no futebol; futebol e violência; e espetáculo esportivo. Discutimos, criamos, testamos, avaliamos, adaptamos continuamente métodos para abordar tais temas com alunos, buscando sempre estar atentos também para o que eles nos transmitiam.

Os meses, semestres foram passando e tivemos várias turmas diferentes, cada qual apresentando novas necessidades e, claro, novos desafios que nos levavam a modificar, reestruturar e avançar com nossas metodologias e temas. Aos poucos fomos acumulando uma bagagem significativa, a ponto de sonharmos mais alto: se podemos atuar com os alunos diretamente, por que não atuar também com os professores, auxiliando-os em sua formação para também trabalharem, eles mesmos, temas relacionados ao futebol e ao torcer.

Com essa ideia em mente, estruturamos oficinas e as oferecemos em congressos da área da Educação Física. O retorno foi muito bom e começamos a perceber maior sensibilização das pessoas em torno do futebol, talvez pela proximidade com a Copa do Mundo de 2010 e com o futuro Mundial no Brasil. Talvez por motivos maiores do que esses. Fato é que o futebol e o torcer notoriamente têm ganhado espaço ainda maior na mídia, na Universidade e também na Escola.

Paralelamente, o projeto de extensão do GEFuT também cresceu. Publicamos nossos trabalhos em diversos eventos acadêmicos, regionais e nacionais. No ano de 2010, tivemos o prazer de realizar uma oficina com os professores das áreas de linguagens e das ciências humanas de uma importante escola particular de Belo Horizonte. Além disso, topamos também o desafio de atuar junto a jovens de um projeto social, além de estabelecermos diálogos com um grupo de 3ª Idade. As aulas no Centro Pedagógico e no Colégio Técnico da UFMG continuam sendo nossos grandes laboratórios. Continuamos quebrando a cabeça e buscando metodologias originais e eficientes para se tratar o torcer, mas atualmente temos tentado registrar mais sistematicamente nossas intervenções.

Aqueles quatro temas iniciais em torno dos quais gravitávamos, hoje se multiplicaram. A partir das pesquisas do grupo e de estudos paralelos, já abordamos com os alunos assuntos relacionados ao futebol virtual, às torcidas organizadas, ao Estatuto de Defesa do Torcedor, à política, à economia, às artes, à história, à superstição… Enfim, temos dialogado (ou tentado dialogar) com toda a riqueza cultural que envolve o futebol e o torcer.

Num país em que todos parecem entender sobre futebol, nosso trabalho aparentemente soa incoerente ou supérfluo. Mas não é exatamente isso que temos visto. Mesmo os alunos mais “sabidos” sobre o esporte bretão têm conseguido abrir os olhos para novas possibilidades e construído novos conhecimentos acerca do futebol e do torcer. Mesmo os jovens mais agressivos têm refletido sobre sua paixão pelo clube do coração. Mesmo os professores mais adversos ao tema têm se sensibilizado de sua importância.

Infelizmente, nosso raio de ação é relativamente pequeno. Não atingimos ainda um universo muito grande de alunos e professores. Mas os poucos com quem dialogamos já carregam sementes ricas com eles e nos ajudaram também a crescer. E a sonhar. Quem sabe em breve não consigamos dar cursos regulares de formação para professores? Quem sabe não lancemos um livro didático sobre o futebol e o torcer? Quem sabe…?