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Futebol em tempos mórbidos

Gabriel Said

A Alemanha foi o primeiro país no ocidente a retornar com o futebol. O retorno às pressas por pressões financeiras pode e deve provocar alguns questionamentos sobre o sistema econômico do futebol. Aliás, não só do futebol. Porém, a volta antes da pandemia ser terminada exigiu algumas adaptações.

Haaland comemora gol sobre o Shalke 04 respeitando o protocolo de distanciamento na volta do Campeonato Alemão, 16 de maio de 2020. Foto: Reprodução/Twitter/Borussia Dortmund.

De pronto, pode-se questionar os milhares de testes feitos no meio do futebol sem uma necessidade de saúde que justifique o não direcionamento destes testes para pessoas que precisam com urgência. Não desmerecendo em nada as urgências de manutenção financeira dos clubes, mas não existe outro jeito?

Em seguida, vem as mudanças de protocolo para as partidas. O distanciamento seguirá no estádio para quem está lá trabalhando ou jogando. Nas comemorações, nada dos jogadores se encostarem, nem se cumprimentarem antes ou depois dos jogos. As arquibancadas estarão vazias, sem público. Os jogadores e comissão técnica serão jogados à própria sorte.

Em outros países, os treinamentos voltaram mesmo sem previsão de volta do futebol. É o treino pelo treino, sem jogo, sem competição, sem sentido. Os Países Baixos encerraram a temporada, o que talvez seja o mais sensato, mas por outro lado o tempo não é uma construção social? O tempo de uma temporada foi feito por nós humanos, então não poderíamos também estender esta temporada especificamente assim como os neerlandeses a encurtaram? Ironicamente, talvez os argentinos com seus calendários futebolísticos caóticos que parecem mudar todo ano tenham muito a ensinar nesse sentido.

Voltando aos jogos sem público, ainda é futebol mesmo sem torcida? Em seu texto Futebol, engajamento e emoção, Arlei Sander Damo cita o antropólogo Christian Bromberger para entender o engajamento: “É a paixão partidária que dá sentido, sabor e interesse ao jogo. […] O engajamento é a condição necessária para assegurar um máximo de intensidade emotiva ao jogo”. Damo nos provoca a pensar que ao invés do jogo criar um público, o público que criaria o jogo. O encantamento gerado pelo público que faz as performances ganharem significados épicos, se distinguindo de um treino ou uma pelada qualquer.

Jogadores do Grêmio realizam treino físico no dia 13 de maio de 2020 na preparação para o retorno do futebol. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA.

O futebol contemporâneo, porém, não tem muito espaço para dádivas. As relações de troca tendem a ser esmagadoramente mais voltadas a aspectos financeiros e os primeiros sinais parecem indicar que o “mundo” vai cobrar esses meses de recessão. Como Jérôme Baschet e Slavoj Žižek escreveram, a tendência é que as coisas não voltem a ser como eram antes, o sistema deve se extremar. O momento é mesmo de mudança, seja para a continuação extremada do que já existe ou para algo novo, mas os primeiros sinais não transmitem otimismo.

Vários clubes já aceitaram que as ligas devem voltar sem torcida, mas para compensar vão fazer sons artificiais e torcedores artificiais – e claro que poderemos pagar para ter nossos avatares no estádio. Se pensarmos as origens das diferentes palavras que significam o que é “torcedor”, perceberemos que torcer é uma condição encantada, ou seja, não é racionalizada dentro da normatividade.

Sobre os torcedores italianos Bromberger escreveu:

“Os torcedores italianos se chamam tifosi, uma palavra derivada de tifo, que significa apoio, mas etimologicamente significa tifus, uma enfermidade contagiosa, cujas variantes se traduzem em febre e agitação nervosa. O tifosi é aquele que tomou a decisão de sentir plenamente a intensidade do drama convertendo-se em ator (e não simples espectador) de uma história incerta que se constrói perante seus olhos e em cujo desenrolar crê poder influenciar através de uma intensa participação corporal e vocal.”

Na América do Sul espanhola, os torcedores são chamados de hincha, que se popularizou com “Don” Miguel Prudencio Reyes, um roupeiro do Nacional de Montevidéu. Don Miguel também era responsável por encher as bolas. No início do século XX, o costume era de assistir sentado aos jogos e se levantar para aplaudir os gols, não importando o time que marcasse. Don Miguel, porém, assistia aos jogos em pé, incentivando o Nacional e apenas o Nacional, chamando muita atenção do público como diz no poema El Hincha, de Ricardo Forastiero Fernández:

Por ahí algunos preguntaban

Esse aliento de quién brota

Del Gordo Reyes contestaban

El que hincha la pelota…

Para entender melhor esse período que estamos vivendo, Antonio Gramsci nos dá algo para pensar: “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece.” No futebol contemporâneo, existem superclubes que monopolizam troféus e concentram craques. Com as normas “padrão FIFA” nos estádios, Don Miguel não conseguiria se expressar com a autenticidade e a liberdade que o tornaram o primeiro hincha. E, para piorar, agora os torcedores são totalmente substituídos por papelões e caixas de som, enquanto os jogadores jogam um jogo estranho sem contato. Chamem isso de video game realista, totó humano ou o que for, menos de futebol. Futebol é outra coisa.