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Futebol exportação

Paulo Miranda Favero

Quem já ouviu falar no Grêmio Esportivo Anápolis S/A, antigo Grêmio Esportivo Inhumense, de Goiás? A equipe, sem tradição nenhuma no futebol brasileiro, foi fundada em 1999 e atualmente está na segunda divisão do Campeonato Goiano. Seu maior feito foi ter disputado a Série C do Campeonato Brasileiro em 2005, sendo eliminada na primeira fase com apenas uma vitória – sobre o Ceilândia-DF. Mas ela alcançou uma marca expressiva de fazer inveja a muito clube grande: foi o clube que mais exportou jogadores para o exterior em 2007.

O Grêmio Anápolis mandou 17 atletas para o exterior em 20071 , número superior ao Cruzeiro e Internacional (15 jogadores), Atlético-PR (14) e Palmeiras, Corinthians e Corinthians-AL (13). Curiosamente, todos os jogadores do Grêmio Anápolis foram para Portugal. A tabela abaixo mostra os principais clubes exportadores de atletas no ano passado.

tabela_paulo_jogadores

Principais clubes exportadores de jogadores de futebol.

Juntos, os times da primeira divisão (Série A) do Campeonato Brasileiro (em 2007) mandaram 184 jogadores para o exterior. Os times da Série B enviaram 117 atletas. Os outros 784 jogadores saíram do país através de clubes que não estão nas duas principais divisões do futebol brasileiro. E os destinos dos nossos atletas são os mais diversos possíveis: entre os 89 países que algum brasileiro foi jogar em 2007 estão desde os mais comuns, como Portugal (227), Japão (57), Espanha (38), Itália (47) e Alemanha (44), até outros de menor expressão no futebol, como Albânia (1), Angola (6), Azerbaijão (2), China (27), El Salvador (3), Ilhas Faroe (3), Índia (5) e Vietnã (20).

Um outro dado interessante é o que mostra a divisão dos clubes exportadores por estado. A mesma concentração que ocorre na primeira divisão de clubes do Sul e Sudeste se reflete no momento da exportação. Só para se ter uma idéia, os times das duas regiões representam 74,7% do total exportado, ou seja, 801 jogadores saíram de clubes do Sul e Sudeste diretamente para o exterior. Assim, talvez exista uma relação entre os times de cada estado, mostrando que o sucesso de um clube de São Paulo ajuda a outros clubes do mesmo estado na hora de negociar atletas.

Só os clubes paulistas mandaram 284 atletas para fora, contra apenas um de Acre e Amapá, e dois do Tocantins. A lógica da concentração prevalece. O mapa abaixo mostra como é a divisão de jogadores exportados pelos clubes por estado:

exportacao_jogadores_2007

Exportação de jogadores brasileiros por Estado (2007).

 

É cada vez mais comum ver times com nomenclaturas S/A ou Ltda. vendendo atletas para o exterior como commodities. Ganhar um título parece ser o que menos importa. O sucesso aparece na quantidade de atletas exportados e no dinheiro que entra nos cofres, que nem sempre vai para os clubes, pois os jogadores já quase não pertencem mais aos times. São propriedade de empresários, ex-jogadores e atravessadores. Quem tem mais, pode mais.

“Como em quase todas as suas relações econômicas, o Brasil, no disputado mercado do futebol, é um fornecedor de commodities. Produzimos craques ou bons jogadores aos borbotões. Eles brotam País afora como cana e soja. E até o caminho do estrelato – ou da desilusão – são tratados assim, feito commodities, como frangos desossados ou partes de um belo corte bovino prontos a serem exportados”2.

O ano de 2008 já registra um novo recorde de transferências para o exterior. Mais times entram na festa das transações internacionais e o futebol brasileiro se consagra como produto tipo exportação. Para a imagem do país, isso acaba sendo positivo, ainda mais se os jogadores fazem sucesso lá fora. E para o futebol disputado em território nacional, será que esse êxodo de atletas é benéfico? Que venha a próxima safra…

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[1] Informação extraída do site oficial da Confederação Brasileira de Futebol, baseada em tabulação do próprio autor.

[2] Reportagem intitulada Vida de Gado, de Gilberto Nascimento, na revista Carta Capital, em 11/11/2008.

Como citar

FAVERO, Paulo Miranda. Futebol exportação. Ludopédio, São Paulo, v. 10, n. 4, 2010.