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Campeonato Estadual de futebol feminino do RN sob ruínas

Mayara Maia

O interesse das brasileiras pelo futebol existe desde a chegada do esporte ao Brasil, como torcedoras e como jogadoras. Mas negações sobre a existência dessa demanda fazem parte da história de luta de muitas atletas e acabam servindo como impedimentos para um reconhecimento que contribua na formação e estabilidade de times de mulheres.

Atualmente, estão sendo aplicados alguns movimentos que vão de encontro com a busca por visibilidade das atletas e atuam para uma maior inserção das mulheres nesse campo. Movimentos impostos pelo Conmebol (entidade responsável pela organização das competições na América do Sul) e pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) surgiram como impulsionadores de popularidade do futebol de mulheres. A Conmebol trouxe a exigência da composição de equipes de mulheres nos clubes de futebol como requisito para a liberação da participação dos times de homens na Copa das Libertadores. E a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), realizou adaptações no Campeonato Brasileiro de futebol de mulheres ao criar duas divisões dentro do evento.

Assim, é necessário reconhecer que novos e diversos espaços a níveis nacionais e regionais começaram a ser palcos dessa modalidade. Mas ainda há muito terreno a ser alcançado por esse público. Muitos episódios nos quais as lutas mais difíceis das atletas são travadas são excluídos das páginas da história por serem eventos locais. E essa ausência de informações dos acontecimentos locais contribui para uma desvalorização e falta de conhecimento da representatividade das mulheres nos campos brasileiros.

O foco das minhas palavras de hoje que, buscam evidenciar a necessidade de dar visibilidade aos eventos locais, está pautado sobre o futebol de mulheres nos campos de Natal, no Rio Grande do Norte (RN). Meu objetivo central não é comparar a situação local dos times de homens entre os times de mulheres, muito menos equiparar os times de Natal com outras realidades de times de mulheres do Brasil. E sim, utilizar meu espaço de hoje para registrar e denunciar situações específicas da localidade brasileira em questão.

O Rio Grande do Norte que foi palco, através de seu Estádio Arena das Dunas, da sétima edição do torneio internacional de seleções de futebol feminino das Américas no final de 2015, em 2016, contou apenas com o time União como representante de uma competição nacional, a Copa do Brasil e foi eliminado ainda na primeira fase. Para 2017, não haverá nenhuma representatividade do RN nas competições nacionais. O Brasileirão do futebol de mulheres conta com duas divisões que serão disputadas em diferentes formatos. Cada uma das divisões conta com 16 clubes participantes que foram decididos pelos rankings nacionais dos clubes e pelas primeiras colocações das competições de futebol de mulheres a nível nacional. A Série A1 já iniciou e dos seus 16 times, quatro são do Nordeste. Os representantes são o São Francisco da Bahia; o Sport de Pernambuco; o Vitória da Bahia e o Vitória das Tabocas de Pernambuco. A Série A2 começou em maio e contará com seis times do Nordeste. O Viana do Maranhão; o União Desportiva de Alagoas; o Tiradentes do Piauí; o Náutico de Pernambuco; o JV Lideral do Maranhão; o Caucaia do Ceará e o Botafogo da Paraíba. Ao privilegiarem os times das “camisas mais pesadas”, o Rio Grande do Norte ficou de fora e por sua realidade, dificilmente conseguirá entrar.

Maceió – AL – 17/05/2017 – BRASILEIRÃO CAIXA 2017 – ESPORTES – Jogo 15, Grupo 02 da Série A2 do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino “Brasileirão Caixa 2017” entre União Desportiva Alagoana UDA X Botafogo F.C., realizado no estádio Rei Pelé em Maceió, AL; válido pelo grupo 02 do Brasileirão Feminino 2017 A2. Foto: AILTON CRUZ/ALLSPORTS

Jogo da Série A2 do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino “Brasileirão Caixa 2017” entre União Desportiva Alagoana UDA x Botafogo F.C., realizado no estádio Rei Pelé em Maceió. Foto: Ailton Cruz/ALLSPORTS.

Inquieta com a fraca representação desse Estado, busquei investigar sobre a existência de seus times e competições direcionados às mulheres. Como já imaginava, minhas respostas pouco foram encontradas em registros escritos. Nenhuma obra acadêmica. Um blog chamado “Futebol amador do RN”, escrito pelo Blogueiro Manoel Cirílo já divulgou algumas notícias sobre o futebol de mulheres do RN. Também encontrei quatro sites com algumas postagens. O “Sou mais RN”, o Globo Esporte do RN e o Novo anunciam de maneira esporádica algumas das competições existentes no Estado, seus resultados e servem como espaço de denúncia para a precariedade da modalidade. O site da Secretaria de Educação e Cultura também divulgou algumas notas sobre uma competição. E alguns times como o Cruzeiro possuem páginas nas redes sociais que possibilitam um acesso às informações das competições locais e tem surgido como saída para os estudiosos e apaixonados pelo futebol de mulheres conseguirem acompanhar. As competições locais existentes e constantes são o Campeonato Estadual, a Copa da Mulher e A Copa Natal. Selecionei algumas informações que encontrei nessas fontes como maneira de atingir meu objetivo central. Em uma reportagem do site Novo, encontra-se a fala de uma atleta potiguar, Ana Beatriz Melo, que nos traz informações sobre o futebol do RN:

“Em 2012, joguei pelo América. Foi uma experiência e tanto para mim. Tinha apenas 18 anos e pagava para jogar. Não reclamo. Alimentava o sonho de me tornar uma jogadora profissional. Só que tudo foi por água abaixo quando o time acabou e eu não tinha mais onde jogar. Hoje jogo futebol como hobbie, é impossível viver do futebol feminino no RN”.

Em 2012 o Clube potiguar do América, clube referência em todo o Estado, dedicou-se a formação de um time de mulheres e investiu sozinho inicialmente nesse trabalho por cerca de seis meses, trazendo atletas e outros profissionais de São Paulo e realizando peneiras pelo Estado. Ao alcançar vitória na competição estadual com placares goleadores, esperava-se que um apoio financeiro apareceria de outras entidades. Mas sem resultados positivos, o time participou ainda da Copa do Brasil de 2013, mas não conseguiu se manter financeiramente e foi desfeito.

A fala da atleta potiguar representa muitas das experiências efêmeras de outras atletas locais, que também sabemos que compõe muitos outros espaços brasileiros. O futebol brasileiro como um todo não garante ainda uma carreira estável para as mulheres. Sem carteiras assinadas, contratos a longo prazo ou garantias mais concretas, com pagamentos em grande parte menores que um salário mínimo ou com apenas ajudas de custo, ou mesmo, sem apoio algum e, como acontece nos times potiguares, ainda tendo que tirar dinheiro do bolso para pagar as passagens dos transportes até os treinos… as jogadoras não alcançam assim o reconhecimento como profissionais e necessitam muitas vezes ter outro trabalho que assegure seus gastos até mesmo com o futebol. A dificuldade de iniciar e manter times também surge em nossa pesquisa. O site Globo Esporte do RN, traz alternativas que os poucos times de mulheres do RN encontram para tentarem se manter em ritmo de competições (2016), “Sem muitas equipes em atividade, a solução encontrada pelo Monte Líbano, uma das quatro equipes que luta pelo troféu do estadual, foi treinar contra garotos da cidade de Nísia Floresta, a 30 quilômetros de Natal. A realidade do futebol feminino no Rio Grande do Norte é amadora, mas as atletas não desanimam”. O site Sou Mais RN, traz em sua descrição o motivo de sua construção de seu site:

“O esporte do Rio Grande do Norte vem há anos sofrendo com a falta de apoio da mídia esportiva. Atualmente, os meios de comunicação locais destinam 90% de seus espaços ao futebol de times de fora do estado, esquecendo a importância do esporte potiguar para a sociedade. Já é com muito sacrifício que nossas federações e o desporto escolar veem lutando para sobreviver e sem divulgação, a tarefa de promover o esporte e formar atletas fica ainda mais difícil”.

O Campeonato Estadual do RN começou em maio. A divulgação se encontra apenas nas redes sociais através de perfis pessoais ou representativos de times participantes e no site Globo Esporte RN. Cinco times estão inscrito: Alecrim; Cruzeiro-RN; Parnamirim; Globo FC e União. Quem são esses times? De onde vieram? Poderíamos pensar que a realização de uma competição estadual serve como um momento significativo para a visibilidade do futebol de mulheres no RN. Mas a competição parece existir apenas para os times em si. Não conta ainda com canais de exibição dos jogos e está vetada a entrada de qualquer que seja a torcida para apreciar o jogo, devido ao único estádio cedido para a competição está em ruínas: o Juvenal Lamartine. Esse estádio, com quase 90 anos de criação e suas estruturas estão em declínio desde 2012, foi usado para os times de homens pela última vez em 1997. Hoje, as disputas dos homens acontecem ou no Estadio feito para a Copa do Mundo, o Arena das Dunas, ou nos Estádios Frasqueirão e Nazarenão, possuidores de cuidados constantes em suas estruturas. Mas já para as competições das mulheres, o único estádio permitido uso é justamente o mais precário.

Treino do time do Cruzeiro do RN. (Fonte: página do Cruzeiro RN).

Treino do time do Cruzeiro do RN. Foto: Cruzeiro RN (reprodução).

Desde 2012, o Lamartine aparecia com solicitações de reforma. Em 2015 iniciou um impasse judicial entre a Federação Norte-rio-grandense de Futebol (FNF) que é a responsável pelo local e o Governo do Estado que até hoje impossibilita uma realização de reformas na estrutura. O único cuidado permitido é com o gramado. O Campeonato Potiguar de Futebol Feminino não poderá, portanto, ter público. Segundo o site do Globo Esporte RN, o estádio está com as arquibancadas interditadas pelo Corpo de Bombeiros. Detalhe, os bancos de reserva ficam abaixo da arquibancada. As grades da entrada estão enferrujadas, vazamento de água inundam os corredores que dão acesso à arquibancada e ao banheiro. “Os banheiros são um dos pontos mais críticos: não há água, revestimento com cimento e, nem mesmo em casos de urgência, podem ser utilizados. No chão há muitos entulhos e, em alguns pontos, fios aparecem soltos”.

O site do Globo Esporte RN tentou alcançar relatos das atletas, mas muitas ficaram com receio de falar e serem punidas de alguma forma. Jogadoras dos clubes participantes do estadual e adeptas da modalidade estão se articulando para tentar um diálogo com a FNF em busca de alternativas. A atleta Iwlly Sabrina, do time Parnamirim aceitou falar:

“É um pouco incômodo. A gente não vai poder levar nem familiar, nem amigo. O futebol feminino já é uma coisa tão difícil que é complicado querer e não poder. […] A gente vai para um lugar que não vai poder mostrar o que a gente realmente gosta de fazer. […] Isso frustra o sonho de quem joga futebol”.

Não podemos negar as novas conquistas que estão acontecendo. Por exemplo, a atuação da técnica da seleção, Emily Lima, tem demonstrado abrir portas para atletas de todas as regiões do país através de convocações regionalizadas. Mas como esperar qualidade física, psicológica e técnica de alto nível em atletas que vivem ainda essas realidades locais? É preciso existir além do direito da participação em eventos nacionais, o respeito e a dedicação ao lidar com eventos locais para podermos esperar um Brasil como potência nessa modalidade. Acredito que, ao olharmos para o processo histórico do Futebol de mulheres desde as representações nacionais as locais, possibilitamos visibilidade e contribuímos para a descoberta de ações e conquistas desse público na prática do futebol.

Fontes:

GLOBOESPORTE. Jogadoras de time de futebol feminino do RN sonham com seleção brasileira. Futebol Feminino. Globo Esporte. 2015. Disponível em: >>http://globoesporte.globo.com/rn/noticia/2015/12/jogadoras-de-time-de-futebol-feminino-do-rn-sonham-com-selecao-brasileira.html>>

NOVO. As meninas superpoderosas do futebol amador. Novo Notícias. 2017. Disponível em: >>http://www.novonoticias.com/esportes/as-meninas-superpoderosas-do-futebol-amador>>

PACHECO, F. Inscrições para a V Copa da Mulher já começaram. Sou mais RN. 2017. Disponível em: >>http://soumaisrn.com.br/esporte/futebol-feminino/>>

SEEC. V Copa da Mulher. Futebol Feminino RN. Secretaria da Educação e da Cultura – SEEC. 2017. Disponível em: <<http://www.educacao.rn.gov.br/Conteudo.asp?TRAN=PROCED&TARG=null&ACT=xp00_BUSCA&PAGE=0&PARM=%22futebol+feminino%22+,%22ANY%22,+%22PESQUISA+EM+TODO+O+PORTAL%22&LBL=null>>