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Futebol Feminino e Jogos Olímpicos: em busca do sonho

Suellen dos Santos Ramos

As expectativas para os Jogos Olímpicos do Rio 2016 aumentam conforme diminui o tempo para a sua abertura. Faltam poucos dias para que a bola role nos sete estádios das cidades sedes e se inicie a disputa pelo ouro olímpico. As Olimpíadas do Rio 2016 marcam 20 anos de participação das mulheres, ou seja, são apenas cinco ciclos olímpicos com a presença do futebol feminino no evento. As mulheres do futebol estrearam nas Olimpíadas de Atlanta em 1996, com a participação de oito seleções, incluindo o Brasil que ficou em quarto lugar, perdendo a disputa da medalha de bronze para a Noruega. Não há como falar em Jogos Olímpicos e não falar nos Estados Unidos, que de cinco edições ganhou quatro. Isso mesmo, quatro medalhas de ouro! E na edição que não conquistou o ouro levou uma medalha de prata para casa. Este monopólio americano pelo ouro olímpico e o desenvolvimento do futebol de mulheres ao redor do mundo me faz pensar: estamos preparadas para o ouro olímpico?

Algumas medidas foram tomadas em prol do futebol feminino brasileiro e do tão sonhado ouro olímpico, afinal, para qualquer atleta, independente do desporto, chegar ao topo do pódio é o ponto máximo a ser alcançado. As duas medalhas de prata conquistadas pelas brasileiras, nas Olimpíadas de Atenas 2004 e Pequim 2008, são consideradas um feito heroico, mas nenhum pouco planejado. Em torno de três anos atrás, pouco se falava ou até mesmo se pensava em planejamento no futebol feminino do Brasil, até que se vislumbrou a possibilidade de que sim, as meninas poderiam conquistar o ouro em solo brasileiro. Antes tarde do que nunca! Enquanto países como Estados Unidos, Alemanha e Japão se desenvolviam e faziam crescer a modalidade, o Brasil permanecia estagnado, dependendo unicamente da força de vontade das suas jogadoras. Finalmente podemos dizer que este quadro mudou.

No ano de 2013, a CBF (re)ativou o Campeonato Brasileiro, que não acontecia desde 2001 e contou com a participação de 20 equipes de variadas localidades do país. Em janeiro de 2015, um salto que entrou para a história, a criação de uma Seleção Permanente que visava a preparação para a Copa do Mundo do Canadá, ocorrida no mesmo ano, e para os Jogos do Rio 2016. A criação desta equipe com jogadoras que atuariam exclusivamente para a seleção brasileira, de certa forma, lesou os clubes competitivos que perderam suas principais atletas para a CBF. Mas a permanência ou não dessas jogadoras na seleção e a migração das mesmas para outros países é assunto para um próximo encontro.

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A seleção brasileira venceu a Austrália por 3 a 1 na última partida antes da estreia nos Jogos Olímpicos. Foto: Ricardo Stuckert/CBF.

Diferente das demais modalidades, o futebol não é disputado unicamente na cidade do Rio de Janeiro. Além da cidade carioca, Belo Horizonte, Brasília, Manaus e Salvador sediarão o torneio olímpico. As brasileiras já têm data, hora e local dos seus desafios, assim como sabem quem serão suas adversárias. São 12 seleções participantes, divididas em três grupos. Além do Brasil, o Grupo E conta com Suécia, China e África do Sul. Os conhecedores de futebol pensarão: “que barbada esse grupo”. Não para o futebol feminino meus amigos e amigas. Nossa jornada inicia dia 3 de agosto no Estádio Nilton Santos (RJ) contra a China, que passou pelo Pré-Olímpico eliminando a temida equipe do Japão (campeãs mundiais em 2011 e medalha de prata em Londres 2012). No dia 6, também no Rio de Janeiro, as brasileiras enfrentam a Suécia da técnica Pia Sundhage, que tem em seu currículo duas medalhas de ouro (Pequim 2008 e Londres 2012) e um vice campeonato mundial com a seleção dos Estados Unidos, além de ter sido eleita pela FIFA como a melhor treinadora no ano de 2012. E para finalizar a fase de grupos joga contra a equipe da África do Sul, dia 9, na Arena Amazônia, em Manaus.

A segunda fase inicia no dia 12 de agosto, e se tudo der certo, as brasileiras estarão lá disputando mais uma partida. As meninas vêm apresentando bom futebol e bons resultados durante este um ano e meio de preparação. Na Copa do Mundo do Canadá foram até as oitavas-de-final, conquistaram a medalha de ouro no Pan-Americano de Toronto em 2015 e ficaram em segundo lugar na Copa Algarve deste ano. Há quem diga que as meninas do Brasil “pipocam” nas finais de campeonato. Vejo simplesmente como falta de preparação e incentivo, visto que até então não havia estrutura suficiente para se projetar qualquer objetivo.

Atualmente, além de objetivo temos um sonho, que foi plantado lá nas Olimpíadas de Atenas em 2004, se perpetuou pelos Jogos de Pequim em 2008, passou em branco em Londres 2012, mas segue vivo até os dias hoje. Das duas vezes que batemos na trave, foram contra elas, as americanas. Ah! As americanas… Que tratam o ouro como patrimônio, atuais campeãs do mundo e olímpicas. Chega a dar um calafrio na espinha só de pensar nesse confronto, e que seja somente na final. Mas calma, ainda temos Marta, eleita cinco vezes a melhor jogadora do mundo, temos Cristiane, a maior artilheira dos Jogos Olímpicos e temos Formiga, que vai para sua sexta Olimpíada, única jogadora que disputou todas as edições do torneio. Ainda contamos com Andressinha, Mônica e Debinha, jogadoras de talento que compõem a nova geração. Nunca tivemos uma seleção tão bem preparada e, principalmente, planejada. Não estou desdenhando as outras gerações que tiraram água de pedra, mas esse grupo me faz imaginar que sim, é um sonho possível.