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Futebol feminino: machismo, homofobia ou rejeição de associação?

Juan Silvera

Várias são as hipóteses cogitadas para justificar o pífio apoio que o futebol feminino do Brasil recebe das autoridades do esporte, da imprensa em geral, dos patrocinadores em particular e consequentemente dos clubes.

Machismo e homofobia seriam as principais causas da falta de apoio, já que o desempenho em campo da seleção brasileira feminina não é desabonador. Contudo, esportes como o vôlei feminino, contam com apoio da federação, da imprensa e tem sólidos patrocínios mesmo não sendo tão popular como o futebol. Isso confunde um pouco a minha análise e derruba em certo grau a tese do machismo.

É inegável que o preconceito impera em todos os âmbitos da sociedade brasileira e, portanto, não poderia ser diferente dentro do segmento esportivo. No futebol praticado pelo gênero masculino principalmente, um esporte considerado e “recomendado” para “homens viris”, a homofobia e o machismo são componentes com uma forte presença e utilizados sempre com uma conotação negativa pelos diversos atores envolvidos na atividade, atletas, dirigentes, torcedores e a imprensa. Apelidos como Bambi (atribuído à jogadores e torcedores do São Paulo F.C.), por exemplo, tentam ligar estes à homossexualidade, o mesmo acontece com o Fluminense no Rio de Janeiro.

São raros os casos de atletas profissionais que assumiram a condição de homossexuais. A título de exemplo posso citar os mais recentes: no futebol europeu o ex-meia e alemão Thomas Hitzlsperger, na NBA (liga profissional de basquete norte-americana) o pivô Jason Collins, na Super Liga de Vôlei brasileiro o meio de rede Michael e no boxe (talvez o mais viril de todos os esportes acima citados) o peso-pena porto-riquenho Orlando Cruz, todos os atletas de altíssimo nível com comprovada competência. Em comum além da condição sexual, nenhum dos atletas citados apresentam trejeitos ou comportamento social que denunciasse a sua homossexualidade, nem podem ser estereotipados. Portanto a condição sexual de um indivíduo em nada interfere no talento e no desempenho do mesmo em qualquer esporte.

Arquibancadas vazias durante a semifinal da Copa do Brasil Feminina de 2015. Foto: Christian Rizzi – Frontpress.

No futebol brasileiro os casos são mais raros ainda, e o profissional que tomasse essa iniciativa pagaria um preço incalculável dentro e fora do campo. Para efeitos comparativos, posso citar a polêmica levantada em torno do “selinho” que o atleta Emerson Sheik, à época jogador do Corinthians, deu em um amigo e posteriormente postou a foto nas redes sociais.

Considerando que o machismo e a homofobia não são exclusividades do futebol e sim características intrínsecas da sociedade, que se revela em todos os esportes. Ademais, a homossexualidade não é um fator determinante nem preponderante para a prática esportiva de qualidade, tendo a descartar estas características como a principal causa da falta de apoio ao futebol feminino brasileiro.

Outra causa seria a falta de público ou desinteresse social pela modalidade, o que não se confirma. Na final dos jogos pan-americanos de 2007 a seleção brasileira de futebol feminino venceu a seleção dos Estados Unidos por 5 x 0. O jogo, realizado no estádio Mario Filho – Maracanã – foi assistido por um público superior a 65000 pessoas. Só me resta pensar que a falta de patrocínio paralisa a ação de clubes e da imprensa, que certamente inviabiliza o processo.

O patrocinador sempre busca o retorno associando sua marca e imagem a uma modalidade de sucesso e de ampla aceitação pelo mercado consumidor, no caso especifico, o consumidor feminino. O esporte não somente proporciona entretenimento e interação, também atua sobre outras sensações e sentimentos, levando o consumidor a se identificar com a marca patrocinadora e com o atleta que a representa. No caso do futebol, que ao contrário do vôlei, carrega em grande parte das atletas uma imagem estereotipada voltada ao masculino, dificulta a associação e a identificação do publico feminino com uma marca que patrocine este esporte.