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Futebol, Kung Fu e lendas brasileiras

Marcelino Rodrigues da Silva

Quem me deu a ideia foi o Chico, meu filho de três anos, enquanto batíamos uma bola na sala, colocando em risco a TV e os cristais. Passei a bola pra ele, por entre o sofá e a cadeira, com um toque de classe, de calcanhar, e ele perguntou: “você chutou igual ao Curupira, papai?” Depois da risada, percebi o alcance da descoberta, ou da invenção, não sei bem. Afinal, já sabemos que tem um pouco de mito a ideia de que o lendário estilo futebolístico brasileiro vem de nossas mais profundas raízes culturais, atualizadas no início do século XX pelo samba e pela capoeira, fonte e inspiração dos dribles, da ginga e da malandragem dos jogadores que marcaram a Idade de Ouro do nosso futebol. Mito por mito, achei poderosa a ideia de que os movimentos e atitudes dos jogadores brasileiros em campo pudessem descender dos bichos, entidades e seres sobrenaturais que habitam nossas florestas, campinas e cerrados.

Imaginem só: Sócrates, o rei do calcanhar, seria a reencarnação do Curupira. Aquele meia-esquerda, genial quando tem a bola na canhota, mas praticamente um aleijado quando a direita tem que funcionar, seria o Saci Pererê. O centroavante daquele time, que não faz gol há mais de um mês, apesar dos inúmeros cruzamentos que recebe dos laterais, Mula Sem Cabeça. E o técnico que o meu time queria contratar novamente, apesar das travessuras que aprontou na última passagem pelo clube… bem, acho que esse poderia ser o Cuca.

É necessário assinalar que a ideia não é de todo nova. Ela aparece, por exemplo, naqueles momentos de desespero da defesa, quando dizemos que os zagueiros estão jogando na base do Bumba Meu Boi. E, pensando bem, muitos dos grandes heróis da história do futebol brasileiro, como Leônidas da Silva e Garrincha, têm algo de Macunaíma (o “herói sem nenhum caráter”, que Mário de Andrade criou a partir de mitos indígenas e outros materiais) ou de Pedro Malasartes (que veio da Europa, mas se aclimatou bem por aqui, como o próprio “esporte bretão”). Sem falar num certo sabor rural, vindo do chamado “Brasil profundo”, que ecoa em expressões como “catando agrião na vala”, “drible da vaca” ou “rabo de vaca”, “levar um frango” etc.

Kung Fu Futebol ClubeA brincadeira me lembrou do filme Kung Fu Futebol Clube, dirigido por Stephen Chow (Shaolin Soccer, 2001, Singapura). O filme mistura aventura e comédia, contando a história de um time de futebol formado por lutadores de kung fu, cujo herói é Sing, mestre e dono de um chute poderosíssimo. O mais interessante é a incrível mistura entre o esporte e as artes marciais, que rende cenas espetaculares de jogo, capazes de mexer com o espectador de um jeito que nenhum outro filme de futebol que eu tenha visto foi capaz. As cenas de jogo são engraçadíssimas, fazendo uma interpretação muito particular da linguagem gestual do futebol, recriada pela mistura com os movimentos de luta. Aquela defesa do Victor, com o pé, na Libertadores de 2013, inclusive, parece ter sido inspirada no goleiro do time, que faz o mesmíssimo gesto, em uma de suas incríveis jogadas.

Como lembrança puxa lembrança, a associação entre futebol e kung fu me trouxe à mente a expressão “futebol ninja”, que já foi muito usada para designar tanto algumas jogadas violentas, que mais se parecem com golpes de Caratê, quanto o estilo de jogadores rápidos e agudos, como o atacante Müller, que jogou no São Paulo nos anos 1980 e 1990. Outra expressão que usávamos pra falar desse tipo de jogador era “futebol índio”, talvez por associação com a arte do arco e flecha, tão aguda quanto os golpes das artes marciais. E isso nos traz de volta ao mundo das lendas e dos mitos que sobrevivem pelos grotões do Brasil afora.

Fica, então, uma ideia para uma possível pesquisa, cuja originalidade poderia revolucionar os estudos futebolísticos brasileiros: vasculhar os dicionários de folclore e as compilações de mitos indígenas, em busca dessas fontes obscuras, das quais poderia ter vindo o nosso jeito particular de jogar e viver o elegante esporte inglês. Outra possibilidade seria encontrar, nos anais do futebol mundial, novos cruzamentos interessantes entre a linguagem gestual do jogo e as tradições corporais de povos, tempos e culturas diversas, como as danças, as lutas e os rituais. Quem sabe, talvez, um “futebol Hula”, no Havaí; um estilo cossaco, dos jogadores da Ucrânia e da Rússia; ou mesmo uma recriação do jogo a partir da dança do ventre, desenvolvida pelas mulheres do Oriente Médio e da Ásia Meridional.