139.47

“Futebol: mais do que chutar…”: a final da Taça de Portugal de 1969 e os estudantes de Coimbra

Rodrigo Carrapatoso de Lima

Sob uma ditadura[i], com a censura encarregando-se de eliminar qualquer ideia de oposição que teimasse em desafiar o regime e enquanto a Guerra Colonial ia consumindo seus recursos econômicos e também humanos, Portugal sofria a nível de política internacional um isolamento crescente, dadas as consecutivas tomadas de posição do chamado bloco afro-asiático na Organização das Nações Unidas.

Foi neste contexto que, nas dependências da Universidade de Coimbra, ocorreu um momento-chave na história portuguesa.

A Direção-Geral da Associação Acadêmica de Coimbra[ii] (DG-ACC), sabendo da presença de autoridades da ditadura na ocasião da inauguração do Departamento de Matemática, organizou para o dia 17 de abril de 1969 um protesto.

Já na ocasião da chegada da comitiva, os estudantes já se encontravam no espaço externo ao prédio que iria ser inaugurado[iii]. Empunhando cartazes que diziam “Exigimos diálogo”, “Portugal 40% analfabeto”, “Democratização do Ensino”, “Reintegração dos professores e alunos expulsos” e “Estudantes no governo da Universidade[iv], estes universitários não só conseguiram chamar a atenção do cortejo de autoridades na área externa, como também conseguiram entrar na sala Infante Dom Henrique onde decorreu a cerimônia.

Foi neste local que o então presidente da DG-ACC, de forma razoavelmente ordeira[v] “ousou”, na presença do Chefe de Estado, o presidente Almirante Américo Thomaz e do seu ministro da Educação José Hermano Saraiva, pedir a palavra.

Tem assim o início de uma série de prisões, perseguições, suspensões de dirigentes da ACC, dentre outras decisões arbitrárias típicas de regimes autoritários. Como resposta, os estudantes vão se organizando e realizando Assembleias Magnas, com a participação de milhares de estudantes. Assim, a 22 de abril decide-se pela greve às aulas e decreta-se o “Luto Académico”[vi].

Na sequência dos acontecimentos, no dia 30 de abril, o Ministro da Educação Hermano Saraiva, em emissão televisiva na Rádio e Televisão de Portugal (RTP) condena a movimentação estudantil e afirma “que aquela onda de anarquia que tornou impossível o funcionamento das aulas” será interrompida e “a ordem vai ser reestabelecida na Universidade de Coimbra[vii]. Como resposta, no dia posterior, a Assembleia Magna dos estudantes decide pela continuidade do luto acadêmico. Já no dia 28 de maio, em outra assembleia, é decida a greve aos exames. Uma decisão muito dura e difícil, pois poderia significar o fim de uma bolsa de estudos, uma confrontação familiar e até mesmo uma incorporação forçada na forças militares e sua consequente partida para Guerra Colonial.

Em seguimento dos fatos, a 2 de junho, primeiro dia dos exames, a Alta de Coimbra, a parte mais central da Universidade, amanheceu com a presença maciça da Guarda Nacional Republicana (GNR) e da Polícia de Segurança Pública (PSP).

A Taça de Portugal

Pelo primeiro jogo das semifinais da Taça de Portugal[viii], no dia 09 de junho a Acadêmica entrou em campo contra o Sporting, no estádio José Alvalade, em Lisboa. Neste jogo “os rapazes de Coimbra” conseguiram importante vitória e não estou aqui me referindo ao placar de 2 a 1.

Os capas negras nesta partida usaram o padrão branco (equipamento número 2) e colocaram em seus braços faixas pretas. Para além do vestuário, a Acadêmica, ao entrar no gramado, retardou o passo, como se estivesse numa marcha fúnebre. Era evidente que havia ali uma movimentação tática que anunciava ao público em geral que aqueles estudantes/jogadores[ix] mostravam solidariedade e, mais além, pertencimento a movimentação estudantil que acontecia em Coimbra.

Vestida de branco com faixas pretas, Acadêmica saúda o público. Foto: Reprodução/Jornal A Bola 09 JUN 1969, capa

Comemoração do gol. Foto: Reprodução/Jornal A Capital 09 JUN 1969 Desporto Capa

Dias depois, os jornais A Capital e o Diário de Lisboa publicavam, a pedido da Federação Portuguesa de Futebol[x] um comunicado que solicitava que as associações recordem aos seus clubes filiados que é proibido o “luto nos equipamentos dos jogadores de futebol”, fazendo clara referência ao que se sucedeu no Estádio José Alvalade.

Foto: Reprodução/Jornal A Capital 15 JUN 1969 p. 10

Foto: Reprodução/Diário de Lisboa 15 JUN 1969 p.15

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na véspera da grande final, no dia 21 de junho, o Jornal A Bola publicou uma breve explicação do dr. João Moreno, chefe da secção de futebol sobre o que motivou a Acadêmica ter jogado de branco em Alvalade. Segundo ele, tendo em vista o horário que o jogo foi realizado, a atitude teve a intenção de diminuir os efeitos do calor.[xi]

No domingo 22, a afluência de torcedores era enorme, muitos vindos “da cidade dos doutores, não só estudantes universitários e liceais, como gente de outras condições. Durante a manhã de hoje a torrente humana sobre a capital continuou com aspecto caudaloso – e sem dúvida pitoresco.”[xii]

Embora controlada que estava pela censura do Estado-Novo, a comunicação social nos revela que possa ter havido alguma movimentação estudantil que, ou passou despercebida pelas autoridades, ou não pode ser evitada.

Os estudantes, que são tradicionalmente «pelintras», como se sabe, apelaram para a generosidade de colegas e amigos… Por isso, desde há dias que nas várias Associações Académicas das Faculdades de Lisboa se afixaram letreiros pedindo a colaboração de voluntários para receber e alojar em Lisboa, colegas de Coimbra. E não se sabe mesmo se, irmanados na devoção ao futebol, também vieram a Lisboa estudantes do Porto, encantados por ver o Benfica a bater-se com a Académica. (A Capital, 22 JUN, p.10)

Na passagem acima fica claro que existiu apoio de estudantes de outras cidades portuguesas ao ambiente de contestação que a Associação Acadêmica de Coimbra tinha assumido pois, naquela altura, era de conhecimento da população portuguesa os “atos de indisciplina” que aconteciam na Universidade de Coimbra. Portanto, não me parece leviano entender que esta fraternidade estudantil e este clima de simpatia extrapolava o interesse desportivo.

Na hora do jogo, milhares eram os entusiastas de futebol no Estádio Nacional. Com todos os 54.000 ingressos vendidos, calcula-se que estiveram presentes cerca de 70.000 pessoas naquela final[xiii].

Todos queriam participar da grande tarde de desporto, ou melhor, quase todos, pois as autoridades do regime, o Primeiro Ministro Marcello Caetano e o Presidente Almirante Américo Tomás não marcaram presença no Jamor. Este último, tradicionalmente, antes do jogo, descia ao gramado para entregar medalhas e, ao final, na tribuna de honra, era o responsável por passar a taça ao capitão do time vencedor.

A Ditadura “parecia pressentir” que os jogadores escolares preparavam algo.

Triste final”, assim foi definida a partida pelo colunista Fernando Soromenho;

“Acontecimento…

O futebol, na sua apoteose, não merecia final da «Taça» de tão impressiva tristeza. […] A quem se instalou nos degraus de granito não rareou tempo para se aperceber de várias panorâmicas que a vista abarcava. E pressentir (coisa estranha…) dentro de si algo que não batia certo. […] A nervosa alegria dos adeptos coimbrãos – que sensação de mal-estar aquelas batinas de gola alevantada e rostos de vincada amargura – e o tardio contentamento dos prosélitos lisboetas, menos exuberantes do que lhes é habitual, talvez por influência da situação em causa. Só os carrascos não são sensíveis. […] Tal como aconteceu em Coimbra, a Académica, de negro vestida, entrou a passo no relvado. A seu lado, imitando-a, o Benfica.” (A Capital, 23 JUN 1969, p.05)

Ao descrever o clima para a partida e a entrada das equipes, o autor do texto expôs que mais uma vez a equipe de futebol da Acadêmica, com a capa aos ombros, a gola levantada e o passo lento, continuava de luto. Chama-nos atenção que desta vez, houve uma cooperação da equipe adversária, que se juntou ao “cortejo fúnebre” e fez parte daquele posicionamento político.

Embora o regime ditatorial tenha empregado os máximos esforços para a coação e intimidação dos estudantes, estes conseguiram driblar os dispositivos de censura e repressão e conseguiram mostrar o seu desagrado também nas arquibancadas do Estádio Nacional.

“Ao principiar o jogo, a claque dos estudantes, dividida pelas duas cabeceiras, começou a cantar o hino nacional e, juntamente com grandes bandeiras da Académica, todos eles com o sinal de luto, exibiram vários cartazes com legendas deste estilo: «A Académica está de luto», «Universidade livre», «Viva a liberdade», etc… […] Durante o intervalo voltaram a aparecer cartazes do mesmo género e gritos no teor dos cartazes. […] Nas duas cabeceiras começaram, entretanto, a aparecer a1guns indivíduos isolados a discursar, falando de liberdade e de mais ensino e menos polícia …. Alguns assistentes batiam palmas, mas a Polícia continuava a não intervir. A certa altura, porém, foram detidos, discretamente, dois dos improvisados oradores, que não puseram objeção.” (Diário Popular, 22 jun 1969, p.16)

Na grande final, torcida exibiu cartazes de protestos. Em uma delas se lê: “Melhor Ensino, menos polícias”. Foto: Reprodução/Arquivo Nacional Torre do Tombo

Símbolo da força estudantil, fora e dentro do campo, estes jogos da Taça de Portugal foram importantes componentes de luta contra a ditadura do Estado Novo. Particularmente o jogo da final se tornou uma grande manifestação em Lisboa e entrou para a história como o “maior comício de sempre contra o regime[xiv].

 

Notas

[i] Salazar manteve-se ditador até setembro de 1968 quando, por motivo de doença, foi substituído por Marcello Caetano, que seguiu até a Revolução dos Cravos em 1974.

[ii] Ligada à comunidade estudantil universitária fora criada, no dia 03 de novembro de 1887, a Associação Acadêmica de Coimbra (AAC).

[iii] Estava presente também uma parte dos estudantes comprometida com o regime.

[iv] Este link possui um vasto acervo de fotografias.

[v] Rui Bebiano, «A cidade e a memória na intervenção estudantil em Coimbra», Revista Crítica de Ciências Sociais [Online], 66 | 2003, posto online no dia 01 outubro 2012, consultado o 06 janeiro 2021. DOI: https://doi.org/10.4000/rccs.1152

[vi] O Luto Académico é um mecanismo da praxe académica de Coimbra que, como o próprio nome indica se refere a situações de luto e/ou momentos particularmente negativos para a Academia, tendo sido utilizado como forma singular de protesto já antes de 1969. «Coimbra 1969 -1970/80: Luto Académico, Tradição Coimbrã e Mudança Política» (MARTINS, 2013, p.54).

[vii] Íntegra do discurso de José Hermano Saraiva, Ministro da Educação Nacional.

[viii] A Taça de Portugal, considerada a Prova Rainha, é uma tradicional competição disputada no sistema de eliminatórias.

[ix] Os jogadores da ACC eram na maioria estudantes.

[x] A FPF era subordinada ao Estado Novo, através do Ministério da Educação Nacional.

[xi] A Bola, 21 de junho de 1969, página 04.

[xii] A Capital, 22 JUN 1969, capa.

[xiii] A Bola, 23 JUN 1969, p.07.

[xiv] Futebol de Causas (2009): Documentário que, sob o ponto de vista dos jogadores da Acadêmica, mostra como a equipe de futebol fez parte dos protestos da chamada Crise Acadêmica de 1969.

Referências

Associação Académica de Coimbra. Pelouro de Relações Externas da Direcção Geral. 120 anos [da] Associação Académica de Coimbra: para além da utopia.

Martins, Carlos Miguel Jorge. Coimbra 1969-1979/80: Luto académico, Tradição Coimbrã e Mudanças Políticas. Dissertação – Universidade de Coimbra, 2013

Arquivos pesquisados

Arquivo Nacional Torre do Tombo (ANTT)

Hemeroteca Municipal de Lisboa (HML)


Como citar

LIMA, Rodrigo Carrapatoso de. “Futebol: mais do que chutar…”: a final da Taça de Portugal de 1969 e os estudantes de Coimbra. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 47, 2021.