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No futebol uma mentira repetida várias vezes… não qualifica nem se torna verdade

Juan Silvera

Algumas construções midiáticas, muito difundidas no Brasil, como “a maior indústria automobilística da América Latina” ou “o país autossuficiente em petróleo”, deveriam ser para o jornalismo sério motivo de análise e crítica e não de multiplicação ou amplificação. O mesmo serve para o tal epíteto de “país do futebol”.

Uma indústria não é uma montadora, uma indústria pressupõe outros requisitos vitais, como: desenvolvimento de produtos, investimento em tecnologia, pesquisas laboratoriais de novos materiais, estudo de processos métodos e tempos, desenvolvimento ferramental, etc. Fora disso só podemos dizer que o Brasil tem a maior “montadora” da indústria automobilística da América Latina.

Um país que explora e exporta petróleo cru, mas depende da importação de gasolina e derivados do petróleo para colocar sua frota de automóveis e caminhões em movimento, ou da importação de termoplásticos para tocar a indústria de transformação, nunca será autossuficiente.

O Brasil foi, é e será, se não mudarem as políticas públicas de educação e de desenvolvimento industrial, no que tange à formação de elementos da área técnica, em todos os níveis, e de tecnologia e pesquisa, um país dependente das oscilações das commodities, um exportador de matéria-prima e mão de obra barata.

No futebol não poderia ser diferente. Exportamos “pé de obra” (Arlei Damo), que carece de alto investimento material e econômico, e importamos o espetáculo pronto, junto com a repatriação de atores em final de carreira. Técnicos e staff executivo não entram nesse rol de exportações, só pé de obra, e às vezes em formação ainda.

O fato de saber jogar futebol não significa excelência no gerenciamento de grupos, nem qualidade na arte de obter o máximo de cada peça, assim como dominar um instrumento não converte nenhum músico num maestro.

O Brasil é o maior exportador de jogadores de futebol do mundo, mas relativamente é o que menos jogadores tem atuando nas seis maiores ligas da Europa. Quando falamos em técnicos ou treinadores, o índice é nulo: não existem técnicos brasileiros nas 10 maiores ligas do futebol mundial.

Luiz Felipe Scolari, em sua segunda passagem pela seleção brasileira, 2012-2014. Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil (27/06/2014).

Pesquisando sobre a nacionalidade dos técnicos das equipes da edição de 2015 da Copa América, verifiquei que das doze seleções, seis eram treinadas por argentinos, dos quais quatro levaram suas equipes às quartas de final: Argentina (Gerardo Tata Martino), Paraguai (Ramón Díaz), Chile (Jorge Sampaoli) e Peru (Ricardo Gareca). Somam-se os eliminados nas oitavas de final, Colômbia (José Pékerman), e na fase de grupos, Equador (Gustavo Quinteros).

Essa supremacia não é evidente somente no nosso continente, ela se repete entre os técnicos das seleções classificadas para Rússia 2018. Os técnicos argentinos foram a maioria: Argentina (Jorge Sampaoli); Colômbia (José Pékerman); Egito (Héctor Cúper) e Peru (Ricardo Gareca). Fora os argentinos, os países com 2 técnicos são: Portugal, Espanha, Bósnia, Colômbia e França.

Esse  panorama deixa claro que algo acontece com os técnicos e com as autoridades do “país do futebol”, em primeira instância, já que os cursos de treinador da CBF não têm o reconhecimento dos órgãos com maior prestígio do futebol mundial. Nem a UEFA nem a FIFA reconhecem que os cursos ministrados no Brasil tenham nível para que seus formandos tenham aceitação nas principais ligas do futebol mundial.

A contratação de Luxemburgo pelo Real de Madrid e a de Felipão pelo Chelsea passaram por um expediente diferenciado, de caráter excepcional. Foram liberados sem a Licença Pró e não deixaram títulos nem saudades.

Vanderlei Luxemburgo, então treinador do Flamengo, em um protesto contra a punição que o impedia de estar em um Fla-Flu, no Maracanã, em 2015. Foto: Gilvan de Souza/ Clube de Regatas do Flamengo.

Inicialmente, lancei o desafio nas redes sociais em busca de pistas, e foram várias as opiniões proferidas sobre o assunto. A barreira idiomática e o fato de a CBF não possuir um curso certificado pela FIFA ou UEFA seriam os maiores empecilhos para que os técnicos brasileiros atuassem nas maiores ligas da Europa.

A barreira idiomática existe para todos os técnicos, se fosse esse um motivo, a China e o Oriente Médio não seriam mercados tão explorados por técnicos brasileiros; e, em compensação, deveríamos ter vários técnicos brasileiros em Portugal ou nos países de língua portuguesa na África.

Não obtive opiniões que levantassem outros motivos. Portanto, algumas especulações pertinentes geradas nas minhas observações serão trazidas à tona neste artigo com o propósito de tentar entender esse contraste, entre elas:

–  a falta de rigidez tática por parte dos técnicos e jogadores brasileiros, basta o time ir perdendo para que cada um decida ser o herói da virada e se esqueça da tática, do conjunto, enfim, do time;

–  a classe dos técnicos brasileiros é composta na sua quase totalidade por ex-jogadores – medíocres, com raras exceções – todos oriundos de classes sociais com baixa escolaridade, que na sua maioria não tem curso superior ou se o tem é na área de Educação Física; a gestão de grupos humanos e a liderança exigidos de um comandante passam longe desse curriculum;

– o culto ao individualismo, em detrimento do conjunto, em que “a qualquer momento o craque faz um gol” e ganhamos o jogo, também conta negativamente.

Enfim, me parece que o fato de o Brasil ter ganho 5 campeonatos mundiais, num esporte onde ganhar nunca significou ser o melhor – vide a Hungria de 1954, a Holanda de 1974, o Brasil de 1982 ou a Argentina de 1994  –, não o torna o “país do futebol”. Hoje comprovadamente, sabemos que existem corrupção e manipulação política na FIFA – comandada num período de 24 anos por um brasileiro – somadas a uma promíscua relação com os grandes conglomerados da mídia. Caberia à CBF, como entidade maior, buscar recursos e conhecimento na área acadêmica para promover um curso cujo curriculum esteja adequado às exigências da Licença Pró. Por outro lado, se os técnicos formassem uma classe unida, poderiam somar forças e obter os resultados esperados. À mídia hegemônica, caberia – se a seus interesses atendesse – dar força ou não a esta iniciativa.


Este texto foi originalmente publicado no Blog Comunicação, Esporte e Cultura.