135.24

O futebol na Bósnia: Nacionalismo, guerra e divisão

Copa Além da Copa

A Bósnia e Herzegovina foi o país que precisou da guerra mais sangrenta para conquistar a sua independência da antiga Iugoslávia. Entre 1992 e 1995, mais de cem mil vidas foram perdidas em um conflito que tem até agora 61 pessoas condenadas no Tribunal de Haia.

O que faz da Bósnia tão especial é a variedade de etnias que vivem em seu território. Hoje, são 43% de bósnios, com grande maioria muçulmana (tradicionalmente chamada de bosniak), 31% de sérvios e 17% de croatas, além de outras minorias. Portanto, perdê-la era algo visto como impensável para uma Iugoslávia que ainda se recuperava da separação de importantes repúblicas como Croácia e Eslovênia.

Bosniaks, sérvios e croatas têm algo em comum: o amor pelo futebol. E se o esporte mais popular do mundo foi tão importante para a independência da Croácia, ele também marcou sua presença na Guerra da Bósnia.

Esse texto é um complemento ao episódio de setembro de 2020 do Podcast Copa Além da Copa, que fala sobre os esportes na dissolução da Iugoslávia. Você pode ouvi-lo clicando aqui.

O futebol bósnio durante a Iugoslávia

Apenas três times de fora do “clube dos quatro grandes” (Estrela Vermelha, Partizan, Dinamo de Zagreb e Hajduk Split) foram campeões iugoslavos entre 1946 e 1992. Dois deles, FK Sarajevo e Željezničar, eram bósnios.

O FK Sarajevo sempre foi um clube com maioria de torcedores da etnia bósnia, mesmo também tendo seus adeptos sérvios e croatas. Por isso, esteve ligado desde o princípio com o nacionalismo e com um sentimento de independência. Ele foi formado em 1946, após a dissolução da maior parte dos times da cidade devido à acusação de colaboracionismo com os nazistas.

O único clube de Sarajevo não dissolvido por Tito foi o Željezničar, fundado por trabalhadores da ferrovia, com origem operária e mais ligado, portanto, à ideia do pan-eslavismo. Seus torcedores dizem que “Sarajevo é geografia, Želje é filosofia”.

Durante os anos do governo de Tito, a rivalidade entre os clubes existia. Mas foi nos anos 1990 que ela de fato esquentou.

O FK Sarajevo como símbolo do nacionalismo bósnio

O Koševo City Stadium é a casa do FK Sarajevo. Localizado em uma vizinhança chave para os bosniaks, ele mostra em seus arredores o que significam time e cidade: são muitas as cruzes aos seus arredores. No próprio estádio, existem oito. São os memoriais das vítimas da guerra.

As cruzes não são as únicas lembranças da guerra que há no estádio.

Desde 1987, existe a Horde Zla, ou Horda do Mal, em português. Esse é o maior grupo de ultras do FK Sarajevo. Durante os primeiros anos da dissolução iugoslava, a presença das torcidas organizadas dentro do conflito foi marcante. E, quando chegou a vez da Bósnia, a Horde Zla também tomou partido.

A ligação com o nacionalismo bósnio fez com que muitos dos integrantes da torcida fizessem parte da linha de frente da luta pela independência. Em homenagem aos que deram sua vida por essa causa, a entrada do Koševo City Stadium traz um memorial.

Memorial. Foto: Marlboro1946.

Željezničar: estádio na linha de frente

O bairro que sedia o estádio do Željezničar, Grbavica, foi construído pelo governo de Tito para servir como área residencial para a classe operária. Um pouco mais longe do centro, nunca teve uma predominância étnica.

Por ser mais afastado do centro, o bairro de Grbavica era a linha de frente do Cerco de Sarajevo. Era lá que as tropas dos dois lados se encontravam e se enfrentavam. Não à toa, o estádio sofreu sérios danos estruturais e precisou ser parcialmente reconstruído após o fim do conflito.

O principal grupo de ultras do Željezničar é chamado “The Maniacs” e também surgiu em 1987. Apesar de não ter apresentado uma orientação oficial durante a guerra, muitos de seus membros se juntaram aos exércitos. A maior parte, porém, também esteve do lado bósnio. O fundador e dirigente Dževad Begić-Đilda foi morto em 1992, enquanto tentava salvar alguns civis.

Nem FK Sarajevo, nem Željezničar, nem a rivalidade, nem os torcedores passaram imunes por essa guerra que deixou tantas cicatrizes para a Bósnia.

Velež Mostar: identidade socialista

Mas nenhum clube talvez tenha sofrido mais com a guerra e suas consequências do que o Velež da cidade de Mostar. Fundado em 1922 por operários, o clube era historicamente ligado ao socialismo, muito antes de a própria Iugoslávia se tornar socialista. Até mesmo seu distintivo é uma estrela vermelha.

Nos anos 20, seu antigo rival, o Zrinjski, chegou a exigir que os jogadores removessem as estrelas de seu uniforme para que jogassem com eles, e a recusa do Velež se tornou um momento definidor dessa identidade.

Uma vez que o socialismo era uma causa acima das etnias, o Velež era um clube de bosniaks, sérvios e croatas, tanto na torcida quanto entre os jogadores. Até mesmo iugoslavos de outras regiões, fora da Bósnia e Herzegovina, carregavam o clube como um segundo time do coração, pelo que ele representava. Mas estar muito ligado a uma identidade iugoslava significava não ter mais espaço numa Bósnia que procurava ser independente.

Em abril de 1992, as coisas se complicaram no Cerco a Mostar, um conflito que, inicialmente, colocou croatas e bosniaks lado a lado contra o exército iugoslavo. Na época, o Velež era o único time da cidade, já que o Zrinjski havia sido banido pelo governo comunista. Porém, com o início do cerco, as leis comunistas caíram, e o Zrinjski ganhou autorização para retomar as atividades.

O clima do derby de Sarajevo. (Fonte: Wikipédia).

O estádio como campo de batalha

Há uma razão para o retorno do Zrinjski naquele momento. Com a resolução do conflito inicial, que terminou em vitória sobre as forças iugoslavas, croatas e bosniaks voltaram-se uns contra os outros, já em 1992.

O Zrinjski era um clube ligado aos croatas, e a razão para o seu banimento durante o comunismo se deu justamente por que o clube disputou a liga do Estado Independente da Croácia, um Estado fantoche dos nazifascistas durante a 2ª Guerra Mundial (assunto sobre o qual já falamos em um texto anterior). Como as etnias importavam menos que o ideal comunista, o clube foi forçado a suspender as atividades depois disso.

Porém, nos anos 90, seria o Velež o clube a ser perseguido pelas autoridades. A cidade de Mostar, antes unida para apoiar o clube, agora se dividiria entre bosniaks e croatas, com os últimos virando as costas para o Velež e celebrando o refundado Zrinjski.

Em maio de 1993, forças militares croatas removeram à força de suas casas os bosniaks da região oeste de Mostar, onde eles eram minoria, e os levaram até o estádio Bijeli Brijeg, a tradicional casa do Velež, para decidir o que seria feito com eles. O que acabou acontecendo foi uma divisão: os croatas morando na região oeste e os bosniaks na região leste.

No entanto, o estádio Bijeli Brijeg se localizava na região oeste, e os croatas da cidade haviam acabado de refundar um time que desaparecera por 50 anos e estava precisando de uma casa. Não deu outra: o Velež Mostar perdeu sua casa para o Zrinjski.

Ao final do confronto, o clube se instalou num estádio na pequena vila de Vrapčići, ao norte de Mostar, improvisando um aumento de capacidade que desse conta de receber seus jogos.

Uma cidade dividida

A guerra eventualmente acabou, mas a configuração da cidade de Mostar, dividida entre leste e oeste, ainda se mantém. O estádio Bijeli Brijeg ainda é a casa do Zrinjski, e a rivalidade entre os dois clubes, que não existiu durante quase meio século, é hoje mais forte do que nunca.

Atualmente, essa rivalidade é protagonizada por jovens ultras das duas equipes, sendo que muitos deles sequer estavam vivos nos tempos da guerra. A Bósnia, porém, tem uma taxa de desemprego alta entre os mais jovens, e a cidade de Mostar não tem eleições municipais desde 2008, para evitar mexer na estrutura administrativa. É uma região onde a paz é frágil.

Portanto, o local onde esses jovens podem mais livremente expressar suas visões de mundo é o estádio. E é nele onde se pode ver claramente a divisão de Mostar, um microcosmo da Bósnia multiétnica.