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Futebol na Garça: a diversão dos agregados!

Mateus Alexandre Silva

“Esse texto é dedicado às pessoas que fizeram parte da história de Quartel Geral, muitas vezes trabalhando pesado no campo, e que, mesmo com o corpo cansado, uniram forças para ter no futebol um momento de alegria!”

 

Quartel Geral é um pequeno município do interior de Minas Gerais, hoje com uma população de 3.330 habitantes, localizada na microrregião do Alto São Francisco no centro oeste. É um dos muitos pequenos municípios do nosso peculiar estado. Assim como muitas cidades da região, Quartel Geral tem suas histórias que carregam curiosidades que mesmo sem tantas imagens para reafirmar, soam como algo encantador.

Cresci ouvindo sobre times de futebol nas comunidades rurais e até frequentei alguns jogos na minha infância, mas em especial, um movimento futebolístico me chamou a atenção e que infelizmente não presenciei. Na metade da década de 1960, na região da Garça, onde se concentravam grandes fazendas e hoje marcada por propriedades diluídas, depois de passarem pelo processo de divisão de heranças, existiu um time de futebol que encantava os amantes do esporte bretão e ao mesmo tempo era símbolo do tempo de lazer e diversão da população que morava na cercania.

Após o falecimento do senhor Cornélio Rodrigues de Araújo, foi feita a divisão de suas terras para seus filhos e Vicente Rodrigues de Araújo, conhecido como Moreno, lidando com o pedaço que lhe tocou, juntando com a sua paixão pelo futebol, adicionado pela também grande paixão futebolística de um dos seus agregados, deu início a todo esse processo. Eis que a passagem de uma herança iniciou um movimento futebolístico local.

Para entender a história, é preciso desenhar o contexto da região, não somente a região da Garça, mas também o município de Quartel Geral era carregado de acontecimentos marcantes e que foram substrato para essa e muitas outras histórias. Nos anos 1960, o regime trabalhista vigente na região não era o emprego nos moldes da CLT. O que vigorava era a condição de agregados no meio rural, visto que a cidade de Quartel Geral não havia passado por um processo de criação de indústrias ou empresas. É importante pensar a categoria “rural”, que carrega em si a diversidade das próprias relações entre os espaços rurais e urbanos – e entre as populações do campo e das cidades – tais como se modificam histórica e socialmente, no tempo e no espaço (WANDERLEY, 2000), mantendo um elo que às vezes as tornam indissociáveis, ainda mais quando se apropriam de elementos uma da outra.

Esses agregados eram grupos de famílias inteiras que residiam nas fazendas e, em troca da moradia, cultivavam a terra, criavam animais para abate e também ajudavam nas tarefas da propriedade. Não existindo salário, o que girava a economia e a subsistência local para a parte dos agregados era a parcela da produção que a eles tocavam. Aos proprietários, a outra parte da produção, nem sempre dividida ao meio, e também a mão de obra que era oferecida paralelamente à estadia dos agregados em suas terras. Os autores que estudaram o meio rural não exportador brasileiro enfrentaram o tema da agregação, que foi frequente em todas as regiões do Brasil, e não só no meio rural: os romances e as memórias da cidade do século XIX são repletos de referências aos agregados às famílias (RIBEIRO, 2008).

Outro fato comum em relação a esse quadro era a presença de mais de uma família na propriedade, geralmente com um alto número de integrantes nessas famílias. Isso fazia com que as fazendas concentrassem uma parcela considerável de pessoas. Ribeiro (2008) aponta que a relação entre fazendeiros e agregados era flexível, o trânsito de agregados era livre, permitida a entrada e saída de uma para outra fazenda. Quando se ouve histórias do passado, de pessoas mais velhas, são comuns as referências sobre a fazenda ou a região que o personagem dessa história foi “criado”.

Exatamente de um agregado veio a ideia de construir um campo de futebol. Apaixonado por futebol, Dairinho, acompanhava todos os jogos possíveis em seu rádio de pilha. Sendo nascido e criado na região, não tinha conhecimento de como era de fato um estádio como o Mineirão, onde o seu Cruzeiro encantava com o fantástico time dos anos 1960. A falta de energia elétrica na região fazia com que o rádio a pilha fosse o meio de comunicação mais famoso e apreciado e também um grande pilar influenciador cultural.

Campo de futebol. Foto: Visualhunt.

 

Dairinho, como é conhecido Adair Carvalho da Silva, hoje um comerciante longevo na cidade de Quartel Geral, era mais um dos muitos filhos das famílias agregadas da fazenda da Garça e apaixonado por futebol. Segundo o relato do mesmo, ele era “o protegido” da família proprietária e contava com o apreço da mesma. Essa aproximação e gosto pelo futebol encorajou o mesmo a falar com o proprietário sobre a possibilidade de construírem um campo de futebol na fazenda.

Segundo o seu irmão, José Maria Carvalho (Zé Maria), Dairinho tomou a iniciativa e, com a autorização do dono, iniciaram a construção do campo. Nas palavras de Zé Maria: construímos o campo com as próprias mãos, usando enxadas para nivelar e “enxadeco” para arrancar os cupins e “murundus” que eram retirados com carrinho de mão. A comunidade local foi a responsável por todo o trabalho.

No início das atividades no campo de futebol, ainda não existia o time da Garça, era apenas um espaço onde o pessoal desfrutava para treinar, ou também, brincar, nas palavras dos entrevistados. Ali chegavam jogadores de outras regiões para jogar, vindo principalmente das regiões próximas, Marmelada, Cubatão, Esteios, Campo Alegre e as sessões de futebol que aconteciam nas quartas e sextas, e às vezes aos domingos. O número de jogadores era alto, pois, segundo Dairinho, formavam-se dois times e sobrava muita gente de fora, no decorrer da atividade havia tempo para que todos jogassem, para Vitor Melo (2011), o lazer pode ser majoritariamente compreendido como um fenômeno urbano, herdeiro direto da organização e crescimento das cidades modernas. As diversões, não necessariamente. Nesse contexto é perceptível o engajamento dos envolvidos com a intenção da diversão, dadas às circunstâncias locais, o fato de encabeçarem o movimento de construção do campo e de acolher jogadores da região qualifica quais as intenções, bem como a organização de um tempo social (MELO, 2011), que foi incrementado pela prática do futebol.

Depois de um tempo, o time da Garça foi formado efetivamente. Passaram a jogar contra times da região, entre eles o Cabiúna (da região de Esteios), o Marmelada (da região onde nasce o rio de mesmo nome), o Campo Alegre (um povoado do município de Quartel Geral). Essas localidades eram vizinhas e isso facilitava o deslocamento dos jogadores depois de cumprirem suas atividades obrigatórias.

O movimento do futebol na fazenda da Garça ficou popular na região. Alcides Gonçalves de Sousa, outro morador da região na época, conta que os jogos aos domingos movimentavam a população local que se deslocava para assistir as partidas a cavalo, de carroça, de bicicleta ou mesmo caminhando, era um movimento diferente e acabava por ser ponto de encontro dos moradores que queriam ver o jogo ou dos que queriam apenas conversar. O time formado principalmente por Belo, Dirceu, Zé Joana, João do Mateus e Artumiro; Demarinho, Carlinho Ventura, Zé Maria e Geraldinho, Zé do Aprígio e Dairinho, se tornou conhecido e era o ponto central da festa dos agregados, que tinha confraternização com galinhada e cachaça como elementos principais, e um pequeno comércio, montado por Dairinho, ao lado do campo. Por mais que muitos comportamentos se assemelhassem a comportamentos urbanos, esse contexto é referência e exemplo de uma sociedade rural, pois o meio rural é identificado ao “meio natural”, lugar por excelência da agricultura [e pecuária] e da vida social camponesa, distinto, portanto, da cidade, considerada como um “meio técnico” (WANDERLEY, 2000).

Dentre as peculiaridades do time, a bola era um dos pontos principais. Já que era quase impossível comprar uma bola na região, o time desfrutava de apenas uma bola, era uma de capotão número 5 que era muito pesada e nas palavras de Zé Maria, lhes deu vantagem quando saíram para jogar e tinham acesso a bolas mais leves. Outro ponto marcante era a existência de um rateio entre os participantes. Com o dinheiro acumulado compravam uniformes e pagavam as viagens de pau-de-arara, famoso meio de transporte sertanejo que era um caminhão com um toldo na carroceria, muito importante visto que o time começou a se aventurar em localidades mais longínquas e também em outras cidades. O time também começou a receber jogadores da cidade de Quartel Geral e começou a emprestar seus talentos para outros times das comunidades rurais ou da cidade. Melo (2011) aponta que no período anterior à modernidade as atividades rurais de diversão eram relevantes fatos sociais que ajudaram a entender certos quadros sociais. Até porque, em muitos momentos da história, as cidades não tiveram a centralidade que ocuparam a partir do século XVIII e, mesmo nos anos 1960 e 1970 do século XX, Quartel Geral ainda não fazia frente à importância das grandes fazendas da região.

Nas palavras dos entrevistados, o Time da Garça “batia” em todos os times da região, não fisicamente, pois Dairinho não permitia brigas, mas no campo, no futebol, fazendo gols e impondo seu jogo físico e de habilidade. O fim de toda essa história se deu com o êxodo rural, que começou a acentuar na região. Os agregados viraram empregados e os proprietários das fazendas não tiveram mais condições de manter tanta gente em suas propriedades. De outro lado, a sedução do mercado de trabalho urbano, que ofereceu salários e direitos a trabalhadores de reduzida qualificação nos anos 1960/1970, contribuíram para esvaziar essas fazendas (RIBEIRO, 2008). Muitas histórias ainda são comentadas na cidade e os jogadores do time da Garça foram fazer sucesso nas equipes de Quartel Geral, como o Alagoano, o Quebra Canela e o time do União. Hoje o campo da Garça ficou perdido em uma plantação de eucaliptos e não se tem mais marcas físicas de sua existência.


MELO, Victor Andrade de. O lazer (ou a diversão) e os estudos históricos. In: Estudos do Lazer: um panorama. [Orgs.] ISAYAMA, Hélder Ferreira; SILVA, Silvio Ricardo da. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011.

RIBEIRO, Eduardo Magalhães. Agregação e poder rural nas fazendas do baixo Jequitinhonha mineiro. Unimontes Científica, v. 5, n. 2, p. 13-24, 2008.

WANDERLEY, Maria de Nazareth Baudel. A emergência de uma nova ruralidade nas sociedades modernas avançadas–o “rural” como espaço singular e ator coletivo. Estudos sociedade e agricultura, 2000.