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Futebol, narrativas, assepsia: Brasil, Argentina

Alexandre Fernandez Vaz

Os brasileiros amantes do futebol não têm como não se impactar com a dinâmica da imprensa esportiva argentina. Do outro lado da fronteira o trato é muito mais caliente do que por aqui. Abre-se Ole, diário esportivo, e lá estão os chistes, os comentários sem meias-palavras, jogadores e treinadores tratados pela intimidade dos apelidos. Por exemplo, Marcelo para o público em geral, Gallardo para os brasileiros, El Muñeco para a imprensa e para os torcedores millionarios. Os personagens do futebol costumam falar de seu time e dos adversários sem censura. Mesmo a revista El Gráfico, mensal e mais comedida, não fica muito atrás. Lembro-me de há anos ler em suas páginas uma entrevista com Ramón Diaz, então treinador do River Plate, onde fora destaque também como jogador, em que ele se referia ao Boca Juniors, o grande adversário, como Bosteros, epíteto para lá de pejorativo destinado ao estádio La Bombonera, a casa do xeneizes no bairro portuário de La Boca.

Nas rádios argentinas o clima é ainda mais intenso. Já houve treinador da seleção nacional que polemizou com ídolo em programa de entrevistas. Tratava-se, tudo bem, de Maradona, o incontestável Diego, que não se furtou em dizer que Román, como estava jogando naquele momento, não lhe interessava para compor a equipe que representaria o futebol do país na África do Sul, em 2010. O recado era para nada menos do Riquelme, dono da camisa dez do Boca, que o eterno Diez também envergara em seus bons tempos. No dia seguinte à declaração do então treinador nacional, o craque renegado veio a público e, por meio de uma nota, declarou que renunciava ao selecionado. Drama é drama, e nada menos, para os portenhos.

Acompanho o futebol argentino e esse clima, se é comum por lá, está ainda mais acirrado nas vésperas de duas partidas que talvez entrem para a história com os maiores superclásicos já jogados. River e Boca fazem a final da Copa Libertadores e a atmosfera é, como não poderia deixar de ser, de rivalidade tremenda, o que inclui a identificação explícita dos treinadores com as equipes que dirigem, o citado Marcelo Gallardo – vencedor da Libertadores como jogador e técnico, sempre pelo River – e o multicampeão, como jogador, Guillermo Barros Schelotto, em busca do primeiro triunfo continental como comandante.

Tudo isso me fez pensar no futebol brasileiro, e não apenas porque as duas equipes bonaerenses venceram, nas semifinais, os brasileiros Grêmio e Palmeiras.

Lance da partida entre Grêmio e River Plate disputada na Arena do Gremio válida pelas semifinal da Conmebol Libertadores 2018. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA.

Parece que tudo ficou muito asséptico na relação com a imprensa no futebol brasileiro, os jogadores se expõem cada vez menos, a distância entre eles e jornalistas e radialistas é enorme, afora os obstáculos: salas de imprensa que inibem, limites de entrevistas por semana, poucas e mesmas perguntas, assessores diversos, proibições de que se toque neste ou naquele assunto etc. No campo já não se pode entrevistar os jogadores. Posso entender que a complexidade do espetáculo exija alguma restrição a tanto movimento que havia no gramado antes das partidas, com atletas cercados e fios de câmeras e microfones para todos os lados. Mas era bom ver José Luiz Datena entrevistando os futebolistas antes dos jogos do Campeonato Paulista, muito melhor, aliás, que presenciar seus arroubos autoritários em programas apelativos na TV.

No que se refere aos jogadores, toda declaração não trivial será castigada. Nem mesmo Pelé escapou da virulência de Romário, quando disse, há anos atrás, que este deveria retirar-se dos gramados, no momento em que ainda era um jogador de destaque. O Baixinho, que no final da carreira era o maestro minimalista da pequena área, sugeriu que o maior de todos os tempos só dizia bobagens, que deveria calar a boca. Por sorte, o tricampeão do mundo, ao invés de moralizar a conversa, como é costumeiro nesses casos, se disse fã do centroavante, suavizando uma esparrela que prometia gerar apenas mal-estar. Se nem mesmo o Rei está autorizado à opinião futebolista, o que nos resta?

Na preparação para o Mundial de 1982, quando Telê Santana, uma quase unanimidade à época, não convocou Emerson Leão para o selecionado. Melhor da posição no ano da Copa, mesmo assim ele ficou de fora da lista dos vinte e três convocados. Teria sido por receio de ter que enfrentar a forte personalidade do capitão da equipe por tantos anos? Quatro anos depois o goleiro voltou ao elenco para o torneio do México, onde aliás estreara em Mundiais dezesseis anos antes, mas não figurou entre os titulares. Logo abandonaria a carreira para começar a de treinador, na qual não deixou de ter sucesso, ainda que não no mesmo plano do de seus tempos de jogador.

Pois bem, três anos após retirar-se da função de guarda-metas, o então técnico do Palmeiras, equipe em que como atleta profissional fizera história como em nenhuma outra, Leão concedeu uma histórica entrevista para o programa Roda Viva, atração da TV Cultura que ainda hoje pode ser vista, embora sem a mesma pegada daqueles tempos.

A bancada não aliviou para o entrevistado, que tampouco deixou por menos. Declarou não gostar da Revista Placar, para a qual não dava entrevistas por discordar de sua linha editorial – ainda que lhe reconhecesse o êxito – e não se fez de rogado ao polemizar com Sílvio Luiz, ex-árbitro de futebol, já então na condição de comentarista da TV Bandeirantes. Com humor e posições firmes, mas sem grosserias, estavam ali dois ricos personagens do futebol fazendo sua batalha de narrativas. Quando assisto a uma das anódinas entrevistas de um Ronaldo Nazário ou de um Ronaldinho Gaúcho, ou mesmo de um Tite e seu ar professoral, acho que em algo regredimos no gosto e no gozo do futebol e de sua cultura.

Luiz Felipe Scolari costuma reclamar da imprensa quando ela divulga a escalação de suas equipes sem que ele o deseje. Brande a ameaça que os jogadores a ele subordinados não darão entrevistas, responde de forma evasiva aos repórteres. Nos últimos dias sua queixa é que um jogador em específico, Deyverson, chegado a ações e declarações não previstas, foi procurado para ser entrevistado no calor do pós-jogo. Scolari queria ajuda da imprensa. Ora tudo o que um bom jornalista não pode fazer é ajudar ao noticiado, seu compromisso é com o leitor, ouvinte, telespectador.

Está tudo muito calculado, sem lugar para boas interpretações que cada jogador, cada treinador, poderia fazer de sua história, do jogo ao qual se dedicam. A imprensa, sem grandes compromissos com narrativas mais densas e interessantes, tampouco ajuda. Pensando bem, em um ambiente em que até o Presidente da República eleito não costuma enfrentar jornalistas, colocando em risco um dos pilares da democracia, que é a imprensa livre, o que esperar do futebol? Talvez que nos seja um refúgio, e, mais que isso, uma experiência que afirme a imaginação, essa capacidade superior que aparece no jogo e em suas narrativas. Em meio a tanta desesperança, um pouco de fantasia não nos faria mal.

Por enquanto, ainda bem que existe o futebol argentino.

Ilha de Santa Catarina, novembro de 2018.