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Futebol: no campo eterno da pós-verdade e do anacronismo

Marco Antunes de Lima

No dia 16 de novembro de 2017, em reportagem da “Coluna do Fraga”, no portal de internet R7[i], o historiador, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, e coordenador do Ludens (Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre Futebol e Modalidades Lúdicas) Dr. Flávio de Campos disse, em razão do sétimo título do campeonato brasileiro conquistado pelo Sport Club Corinthians Paulista, que o clube com sede no bairro do Tatuapé, na capital paulista, seria “é o maior campeão brasileiro” pois, na opinião do professor “é o mesmo campeonato disputado desde 1971”. Tudo parece normal por ser mais uma opinião de um historiador, especialista nos estudos do futebol, que justifica seu ponto de vista dizendo, na mesma matéria “Antes disso, temos outros títulos que são importantes e importantíssimos para a formação do futebol brasileiro. Mas a unificação (feita pela CBF) equiparou títulos de natureza diferentes. Em uma reflexão mais ponderada, não faz sentido… Não dá para comparar (as competições). Tem que existir categorias históricas diferentes para não se cometer anacronismos”. Guardemos essa palavra final na fala de Flávio de Campos, anacronismo, discutiremos mais adiante no texto.

O que mais surpreendeu na fala do professor do Departamento de História não foi a sua opinião sobre o título corintiano, mas sim o fato desta opinião ter vindo de um cidadão declaradamente fanático pelo arquirrival do Corinthians: o Palmeiras – ou como prefere Flávio, o bom e velho Palestra.

Toda a discussão acerca do número de campeonatos brasileiros conquistados que fez Flávio de Campos emitir sua opinião decorre do fato da tal polêmica “unificação dos títulos brasileiros de futebol”, concretizada pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol), no ano de 2010, que passou a contar títulos do campeonato brasileiro a partir de 1959, com a conquista da Taça Brasil pelo Bahia e não a partir de 1971, com a conquista do Campeonato Nacional de Clubes, conquistado pelo Atlético Mineiro. Foram acrescentados à lista de títulos do Campeonatos Brasileiros 14 taças conquistadas, sendo 10 Taças Brasil (1959 – 1968) e 4 Torneios Roberto Gomes Pedrosa ou Taça de Prata (1967 – 1970). Todo o processo de “unificação” dos títulos se baseou em um dossiê escrito pelo jornalista Odir Cunha, que inclusive explica o processo de realização da mesma pesquisa em entrevista dada a este Ludopédio[ii] em 2011.

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Taça do Campeonato Brasileiro de 2017. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

O termo “pós-verdade” foi considerado a palavra do ano de 2016 pela Oxford Dictionaries, departamento da Universidade de Oxford, na Inglaterra, responsável pela elaboração de dicionários[iii]. Conforme a instituição inglesa definiu este termo (post-truth) como um “substantivo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoções e as crenças pessoais”. Ou seja, de maneira geral o que vale para a opinião pública, ou de um cidadão, são as suas paixões ou crenças pessoais acima dos fatos colocados de forma racional. Conforme a instituição, o termo foi usado pela primeira vez em 1992, mas passou a circular nos meios acadêmicos mais constantemente na última década e chegou ao seu auge em 2016, principalmente com os fatos que culminaram na eleição do presidente dos Estados Unidos, o Republicano Donald Trump, e na saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit.

O termo “pós-verdade” pode ser um termo que tenha surgido e se revelado com essa nomenclatura recentemente, mas no mundo do futebol não é novo. A ideia de que as convicções e paixões pessoais são mais importantes que os fatos, no mundo da bola, é uma coisa bem antiga. O discurso, principalmente no jornalismo esportivo, enviesado com paixões clubistas dos jornalistas não é algo novo e desde que o futebol passou a ser uma grande atração para o público brasileiro no início do século XX o discurso onde paixões se misturam aos fatos está presente. Grandes cronistas esportivos, como Nelson Rodrigues, José Lins do Rêgo e João Saldanha sempre deixaram claro a paixão por seus clubes de coração em seus textos. Não afirmo que isso seja ruim, pois narração dos fatos e paixões pessoais – sejam elas de qualquer espécie – sempre andaram juntas, o problema, a meu ver, é quando extrapolam os limites da realidade e criam outra realidade. Outro problema que percebo é quando o discurso enviesado que recria os fatos de acordo com as paixões e ódios do narrador cai na mente da grande massa torcedora, que é mais ainda apaixonada e menos racional, gerando novas verdades que nada condizem com os fatos, chegando até o nível da violência contra o diferente.

No Dossiê que propunha a unificação dos títulos brasileiros, elaborado por Odir Cunha, há uma construção narrativa, baseado em bons documentos encontrados e apresentados pelo autor que levam à tese da necessidade da unificação e Odir faz isso baseado na sua paixão: o Santos Futebol Clube. Não se pode entretanto crucificar Odir pois ele sempre deixou claro isso (vide a entrevista para o Ludopédio) e que a sua paixão pelo Santos e a vontade de dar a Pelé um título do Campeonato Brasileiro eram a base para a pesquisa e elaboração do Dossiê. A meu ver, o problema não está na elaboração da pesquisa, mas sim na ratificação como uma nova história do futebol brasileira feita pela CBF, em 2010, sob os auspícios de Ricardo Teixeira, homem em que a lógica do jogo político está acima de qualquer paixão ou verdade.

Apesar de não se referir diretamente à Unificação dos Títulos brasileiros é sobre isso que Flávio de Campos está falando ao dizer que o Corinthians é o primeiro campeão por 7 vezes do Campeonato Brasileiro. O professor Flávio, como historiador que é, propõe no seu discurso se ater no tempo histórico dos fatos, sem que suas paixões do presente construam uma nova realidade histórica. E a palavra chave na fala de Flávio de Campos é “anacronismo”.

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Mosaico da torcida do Corinthians: Hep7a. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Anacronismo é o erro de cronologia em que se atribui a uma época fatos, personagens, ou ideias e sentimentos que são de outra época. No caso dos títulos das Taças Brasil e Torneios Roberto Gomes Pedrosa, para o historiador Flávio de Campos, lhes atribuir como títulos de Campeonato Brasileiro seria um anacronismo. E não cometer anacronismos é um dos maiores desafios do trabalho do historiador.

O jornalista Odir Cunha, em sua entrevista ao Ludopédio, explica que tinha conhecimento que poderia sofrer críticas e que sua tese da unificação podia ser exposta como anacrônica. O jornalista diz, que em reunião que apresentou a pesquisa aos presidentes dos clubes que venceram as Taças Brasil e os Torneios Roberto Gomes Pedrosa foi alertado pelo economista e professor Luiz Gonzaga Belluzo, à época presidente do Palmeiras, que poderiam haver críticas ao anacronismo da pesquisa, ou seja, dar valores do presente a fatos do passado.

Em nossa opinião não há dúvidas que escrever e discutir futebol, sob seus vários aspectos é muito difícil pois em todo momento a paixões muito fortes interferindo na lógica do pensamento do escritos. Não há como negar isso. Elaborar qualquer discurso isento é praticamente impossível em nossa concepção. Se o escritor consegue ser isento na paixão clubística, não consegue ser isento na posição política e ideológica. Não existe futebol sem partido, mas é preciso que não se caia no maior erro do discurso: o erro do anacronismo. Esse anacronismo que é uma das bases do discurso da pós-verdade.

Vale lembrar que este autor que vos escreve não está isento de paixões, não está isento de ideologias e de valores. Ele acredita que ninguém está. Quanto à unificação dos títulos este autor acredita que o Corinthians tem 7 títulos brasileiros, acredita que até meados da década de 90 os campeonatos estaduais tinham uma grande importância para os torcedores e para a imprensa em geral, que o Palmeiras é o clube com mais títulos de torneios com características nacionais, que o Santos FC da década de 50 e 60 é um dos maiores times da história e que não acredita que se possa dizer “se jogasse hoje em dia ganharia de todo mundo”, por causa do anacronismo e que Pelé não precisa de títulos para ser Pelé. E este autor tem sim um clube de coração, pois acredita que todos tenham – torcedores comuns e jornalistas – e se o leitor ainda não descobriu qual é, é porque não entendeu a intenção do texto. Esse autor também continuará relativizando os fatos, e os reinterpretando a partir de suas paixões quando for discutir futebol com seus conhecidos, e somente com eles, pois se não, não há graça.

[i] https://noticias.r7.com/coluna-do-fraga/corinthians-e-o-maior-campeao-brasileiro-diz-historiador-palmeirense-da-usp-16112017 – acessado em 28/11/2017

[ii] https://www.ludopedio.com.br/entrevistas/odir-cunha/

[iii] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/11/16/O-que-%C3%A9-%E2%80%98p%C3%B3s-verdade%E2%80%99-a-palavra-do-ano-segundo-a-Universidade-de-Oxford?utm_source=socialbttns&utm_medium=article_share&utm_campaign=self – acessado em 28/11/2017