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Futebol nos campos, nas quadras e nos tabuleiros: algumas possibilidades de jogar e de torcer

Luciana Cirino Lages Rodrigues Costa

O que é o futebol? Esta tem sido uma indagação frequente para mim e que vem me motivando a ampliar a perspectiva de compreender essa manifestação cultural. E cada vez que paro para refletir sobre o que ele seria, para observar a sua execução e para viver experiências que envolvam o futebol, surgem novas respostas e perguntas sobre ele.

Segundo o dicionário Michaelis[i], o futebol é o

Jogo entre dois grupos de 11 jogadores, em campo retangular, durante o qual cada grupo procura chutar a bola para dentro da baliza da equipe adversária, sem o uso das mãos, tantas vezes quantas forem possíveis, durante os noventa minutos de prática; quem dirige o jogo é o juiz, auxiliado pelos “bandeirinhas” (juízes de linha); balípodo, ludopédio.

Mas tenho observado que o futebol é muito mais do que essa definição apresentada no dicionário. Um aspecto que se destaca é a possibilidade de nos relacionamos com o futebol de modo múltiplo. Ele pode ser profissão, lazer e campo de estudos. Pode ser a arte evidenciada na plasticidade de jogadas memoráveis ou a inspiração para diferentes manifestações artísticas, encontradas na literatura, na música, no cinema e em fotografias. Há quem tenha paixão pelo futebol e até mesmo pessoas que expressam devoção por esse esporte.

Além de gostar muito de observar a dinâmica que envolve a realização do jogo e de seus aspectos técnicos e táticos, também é interessante analisar a expressão das pessoas que estão na torcida. O futebol pode nos sensibilizar a ponto de estimular a manifestação de sentimentos antagônicos: tristeza e alegria; paixão e ódio; apatia e euforia.

Jogadores do time infantil do Campo São Bernardo/Esporte Esperança comemorando o título da Copa Centenário de Futebol Amador 2017. Foto: Vilma Tomaz/PBH.

Enquanto torcedora, o futebol é uma motivação para eu me reunir com as irmãs e uma amiga, e irmos para o estádio acompanhar o nosso time do coração. Ainda que por algumas vezes o cansaço, a rotina cotidiana e outras barreiras nos distancie da possibilidade de estar dentro do Mineirão, quando conseguimos reunir nossas forças e vamos ao campo, além de acompanhar o jogo e mandar nossas energias para a nossa Constelação Azul, temos a possibilidade de compartilhar o nosso tempo, risos, angústias e o famoso tropeiro. É fato que ultimamente essa constelação anda meio apagada, ofuscada devido aos resultados ruins que vem apresentando no Campeonato Brasileiro. Mas isso é como o vento de uma brisa, balança, mas não derruba. E como torcedora vejo que a luz da constelação está lá, espero que ganhe força e brilhe nas próximas rodadas da série A. Força Cruzeiro!

Outra aproximação que tenho com o futebol é no campo de atuação profissional. Acompanhando as atividades do Programa Esporte Esperança, que é uma das ações executadas pela Secretaria Municipal de Esportes e Lazer da Prefeitura de Belo Horizonte, tenho a oportunidade de me aproximar das atividades que são desenvolvidas em um campo de várzea na região Norte da cidade. Para uma parte das crianças e dos jovens que frequentam o local, o futebol é correria, brincadeira e também o sonho de futuramente se tornarem grandes jogadores com fama e dinheiro. Essa expectativa podia ser ouvida nas conversas dos garotos durante os treinamentos e quando participavam de campeonatos, em que eles buscavam vitórias que pudessem ajudá-los a alcançar títulos e outras categorias.

O jogo dos garotos do Programa Esporte Esperança em Belo Horizonte. Foto: Luciana Cirino

Mas o futebol pode ser jogado em outros locais. Além dos campos gramados em grandes estádios e dos campos de várzea, ele pode ser visto e praticado em quadras de concreto ou de grama sintética. Também encontramos pessoas jogando nas ruas e em locais como as praças, as praias e em lotes vagos. Nesses casos, é muito comum a reordenação da estrutura e dos equipamentos: as balizas podem ser sapatos, cones, pedras, latas, garrafas, qualquer coisa que demarque as duas extremidades que limitarão o local para marcar o tento do jogo; as luvas para goleiro(a)s são improvisadas com os chinelos de dedo; e até mesmo a bola pode ser uma tampa de garrafa, jornais velhos amarrados com durex ou uma laranja.

Futebol em dias de chuva. Foto: Luciana Cirino[ii].

E temos também o futebol que é jogado nas mesas, em que os campos são feitos de madeira e as mãos são a parte do nosso corpo que impulsiona o jogo. Esse conjunto é composto pelo futebol de botão, o futebol de prego e o Totó. Mas estes não são facilmente encontrados nos dias atuais. Antes eram encontrados em escolas, casas, clubes e bares. Quando eu era criança, sempre que possível eu jogava com meus irmãos, irmãs e vizinhos. E em alguns momentos de minha trajetória profissional eu estimulei os alunos e alunas das turmas para as quais eu lecionava a praticá-los. Mas observo que atualmente são pouco praticados. Estariam caindo em desuso? Ficarão no esquecimento?

Campo de futebol de prego. Foto: Luciana Cirino

Durante o levantamento documental da pesquisa de Doutorado defendida recentemente sobre a história e a memória do Mineirinho[iii], foi possível identificar que existem algumas federações esportivas que estão alocadas nele. Elas utilizam algumas das salas desse equipamento público como sede administrativa de esportes variados, e, entre elas, identifiquei a Federação Mineira de Futebol de Mesa.

Placa da Federação de Futebol. Foto: Luciana Cirino

Foi bastante positivo constatar a existência de uma federação para essa modalidade, uma vez que o seu funcionamento pode ser uma demonstração de que o Futebol de Mesa continua sendo praticado e que há grupos envolvidos com a sua continuidade. E se não temos mais as mesmas possibilidades que tínhamos anteriormente de observar a sua prática, ao menos temos a perspectiva de ele não caiu no esquecimento.

Vida longa aos futebóis!

Notas

[i] Disponível em: <http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=futebol>. Acesso em: 08 out. 2019.

[ii] Fonte: COSTA, Luciana Cirino Lages Rodrigues. Participação popular e transformação do espaço: a área de lazer Jardim Leblon. 2010. 167 f. Dissertação (Mestrado)-Escola de Educação Física Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010.

[iii] Pesquisa vinculada ao Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, da EEFFTO/UFMG, orientada pelo professor Dr. Elcio Loureiro Cornelsen e defendida em 30 de julho de 2019.