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Futebol se aprende na escola?

Luiz Gustavo Nicácio

A pergunta do título remete a uma questão discutida nos mais diversos espaços da sociedade. Muito se ouve dizer que futebol não se ensina, se nasce sabendo, se têm o “dom”. O professor Arlei Damo discute muito bem esta questão em seu livro “Do dom a profissão”. Mas e o torcer? Já se nasce sabendo torcer? Jocimar Daolio (2000) observa que no Brasil a relação com o futebol vem desde o nascimento, quando a criança, especialmente os meninos, recebem um nome, uma religião e um clube de futebol. A partir deste momento estaríamos prontos como torcedores? Ora, nunca ouvi ninguém dizer que teve aulas de como torcer, e menos ainda venho aqui dizer algo próximo disso. Mas procuro aqui apontar algumas reflexões sobre como esta forma de engajamento no futebol está presente no nosso dia a dia e não pode passar despercebido.

Ao circularmos pelas cidades, com destaque para aquelas que são sedes de grandes clubes do futebol brasileiro, podemos perceber como a dinâmica do torcer se confunde com a cidade, com camisas dos clubes e/ou torcidas organizadas, pichações pela cidade, rodas de conversa, vez ou outra bandeiras, toques de celular com os hinos dos clubes. Assim, como no caso do jogar, existe um imaginário social sobre o que é torcer, ainda que, como dito por Arlei Damo (1998) exista a liberdade para que o torcedor pratique a sua fidelidade clubística. As formas de torcer dialogam diretamente com aquilo que se tem por identidade do torcedor, o mais apaixonado que segue incondicionalmente, que vão sempre ao estádio, outros vão ao estádio quando o clube está bem, alguns compram mais ou menos produtos de seu clube. Cada torcedor opera com o imaginário de como deve ser o torcedor de seu próprio clube, entretanto algumas questões que permeiam o torcer merecem atenção e acredito um trato pedagógico.

Roberto DaMatta (1994) afirma que o futebol é um meio pelo qual a sociedade brasileira se expressa e pontos como a violência dialogam diretamente com questões mais amplas da sociedade que somente o futebol. Destaquei a violência, pois este foi o tema mais abordado por professores de escolas públicas da cidade de Belo Horizonte durante a pesquisa de campo para minha dissertação do mestrado. Outros temas como gênero, consumo, história, podem e devem ser objeto do trato pedagógico acerca do torcer nas escolas.

Em minha pesquisa de mestrado busquei investigar se na percepção dos professores de Educação Física do Ensino Médio da rede pública de ensino de Belo Horizonte o torcer era um tema tratado nas aulas da referida disciplina e se estes viam o torcer como um tema importante. Foram pesquisados 66 professores de escolas municipais, estaduais e federais, distribuídas por 61 diferentes bairros da cidade.

Antes mesmo do contato com os professores algo chamou a atenção, durante as ações de campo desta pesquisa. Foi possível identificar, de diferentes maneiras, a presença do torcer em absolutamente todas as escolas em que estive para dialogar com os professores. Camisas de clubes/torcidas organizadas, chaveiros, bonés, mochilas, cadernos, toques de celular, cadeiras/mesas/paredes escritas com marcas de torcidas organizadas e/ou nomes/escudos dos clubes. Em um caso uma escola está situada em frente a uma sede de torcida organizada, outras duas encontram-se a menos de 200 metros de outras sedes.

Ao dialogar com os professores, pude perceber que eles não estavam alheios a esta presença constante do torcer nas escolas e procuravam dar trato pedagógico a este elemento do dia a dia na medida em que percebiam que se fazia necessário. Entretanto, apenas seis afirmaram já ter preparado alguma aula especificamente com foco de se trabalhar este tema em ao menos uma aula. Mas por que se faz importante trabalhar o torcer na escola? Lanço mão agora de um exemplo simples para ajudar-nos a refletir um pouco sobre isso. Em recentes trabalhos Silvio Ricardo da Silva et al (2007), Martin Curi et al (2008), Luiz Nicácio et al (2009), apontam para o desconhecimento dos torcedores em relação ao Estatuto de Defesa do Torcedor (EDT). No momento de sua promulgação a lei que regulamenta o EDT foi amplamente divulgada nos meios de comunicação, cartilhas foram distribuídas, ainda assim foram constados os quadros de desconhecimento pelos autores anteriormente citados. Poderia ser a escola um dos espaços de difusão do conhecimento sobre esta importante lei? Bem, acredito que sim e entendo que este exemplo é apenas a apresentação de um dos temas correlatos ao torcer que podem ser abordados na escola, não necessariamente pela Educação Física, podendo ser alvo das várias disciplinas escolares.

Na pesquisa de mestrado foi possível perceber que os professores entendem que o torcer é um tema relevante para ser trabalhado na escola, ainda que apenas seis deles tenham preparado aula especificamente para este objetivo.

O materializar aulas com esta temática mostrou-se como um grande empecilho para os professores participantes da pesquisa, ausência de material disponível aos professores, como vídeos e textos com conteúdo mais próximo a realidade dos escolares, surge como o principal ponto a ser trabalhado. Em trabalho de Silvio Ricardo da Silva et al (2010) foi realizado um levantamento da produção sobre o futebol nas ciências humanas e sociais de 1980 a 2007, tal trabalho pode ser um ponto de partida para os professores encontrarem referenciais para sua ação docente, entretanto dificilmente estes trabalhos, que tem caráter acadêmico, poderão ser utilizados como textos para discussões com os estudantes dado a dificuldade que poderiam ter em tais leituras. A produção de material pedagógico para este tema ainda parece ser uma lacuna a ser preenchida.

Entre aqueles professores que prepararam aulas tendo o torcer como objeto de trabalho de uma ou mais aulas, os temas que surgiram foram: torcidas organizadas; mídia; rivalidade. É importante ressaltar que a violência foi sempre centro das atenções dos relatos dos professores sobre as aulas, bem como ao falar sobre o tema de uma maneira geral. Sobre as formas de trabalhar o tema, destacam-se o uso de textos e vídeos com discussões posteriores, além de jogos como júri simulado, e o uso do próprio campeonato escolar como espaço educativo.

Ao fim da pesquisa ficou clara a necessidade de que se elaborem ações de preparação dos professores para o trato deste tema, ressaltando como dito antes a necessidade de elaboração de materiais didáticos para uso nesta temática que se aproximem mais da realidade escolar, sem é claro perder o dialogo com a produção acadêmica.

Torcer certamente não se aprende na escola, contudo indubitavelmente a escola pode ser um espaço para reflexão desta forma tão agradável e adorada pelos brasileiros de se engajar no futebol.

Referências Bibliográficas

CURI, Martin; ALVES JUNIOR, Edmundo de Drummond; MELO, Igor Alves; ROJO, Luiz Fernando; FERREIRA, Melina Aurora Terra; SILVA, Robson Campaneruti. Observatório do torcedor: o estatuto. Revista Brasileira de Ciências do Esporte. V.30. N1, p 25-40. Setembro de 2008.

DAMATTA, Roberto. Antropologia do óbvio: notas entorno do significado social do futebol brasileiro. Revista USP. P. 10-17. N22.1994.

DAMO, Arlei Sander. Do dom a profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França. Porto Alegre: Hucitec. 2007.

_____. Bons para torcer, bons para se pensar – os clubes de futebol no Brasil e seus torcedores. Motus Corporis, vol 5, nº 2, 1998, Editora Gama Filho.

NICÁCIO, Luiz Gustavo; SANTANA, Thiago José Silva; GOMES, André Silveira; ABRANTES, Felipe Vinícius de Paula; SILVA, Silvio Ricardo da. Campeonato Brasileiro de 2007: a relação do torcedor de futebol com o Estatuto de Defesa do Torcedor na cidade de Belo Horizonte. Revista Brasileira de Ciências do Esporte. V.30, N.2, janeiro de 2009(a), p.25-38.

SILVA, Silvio Ricardo; NICÁCIO, Luiz Gustavo; CAMPOS, Priscila Augusta Ferreira; MELO, Marcos de Abreu; CRUZ, Rodrigo Martins. Levantamento da produção sobre o futebol nas ciências humanas e sociais de 1980 a 2007. Belo Horizonte: Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional/UFMG, 2009.

SILVA, Silvio Ricardo; NICÁCIO, Luiz Gustavo; SILVA JUNIOR, Mauro Silva de Lacerda; ABRAHÃO, Bruno Otávio de Lacerda; SANTANA, Thiago José Silva; VIEIRA, Yuri Vítor Guimarães; MELO, Marcos de Abreu. Futebol e lazer: refletindo sobre o Estatuto de Defesa do Torcedor no Campeonato Brasileiro de 2006 em Belo Horizonte. In: SEMINÁRIO LAZER EM DEBATE, 8., Rio de Janeiro, 2007. Anais… Rio de Janeiro: s.ed., 2007. p. 201-209.

Como citar

NICáCIO, Luiz Gustavo. Futebol se aprende na escola?. Ludopédio, São Paulo, v. 11, n. 8, 2010.