02.13

Futebol, torcida e consumo

Paulo Miranda Favero

Muito se tem falado do desinteresse dos torcedores brasileiros pelo futebol no que tange às idas aos estádios. Mas essa ausência do público está intimamente ligada, mais do que a qualquer outro fator, ao alto preço dos ingressos. O professor do Instituto de Economia da Unicamp, Marcelo Weishaupt Proni, na década de 1990 já atentava para o fato: “… na lógica do mercado quem paga mais pode mais, ou melhor, tem preferência. Assim, ao tratar o torcedor como consumidor, o clube vai privilegiar o cliente de maior renda (o torcedor ‘vip´). E com o fim da ‘geral´ e o previsível aumento no preço dos ingressos, ficará ainda mais difícil a ida ao estádio dos torcedores de baixa renda – a não ser que haja algum esquema de promoção com ingressos. (1999: 57)

Neste Campeonato Brasileiro, a situação ficou escancarada. Em jogos que têm a promoção da Nestlé, na campanha “Torcer faz bem”, as arquibancadas estão sempre cheias. Em 45 partidas realizadas pela promoção, a média de torcedores foi de 21.178 pessoas, algo muito próximo ao recorde histórico do Brasileirão de 1983 (22.953). Dos 20 times da primeira divisão, apenas Náutico, Sport, América-RN, Atlético-MG e Atlético-PR preferiram não aderir à promoção, por diversos motivos diferentes. E os clubes que estão na promoção não têm do que reclamar.

A tabela abaixo mostra as médias de público do Campeonato Brasileiro a cada ano (pode-se perceber um declínio cada vez maior do torcedor presente no estádio) e apresenta a diferença que as promoções fazem no cômputo geral para levar os fãs para o estádio. Sem essas iniciativas, as médias de público ficariam abaixo dos valores dos outros anos, números deprimentes para o chamado “país do futebol”.

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Renda Líquida. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Pode parecer coincidência, mas não é, que a campanha da Nestlé tenha-se iniciado em 2005, logo após o primeiro Campeonato Brasileiro realizado pelo sistema de pontos corridos. Como era de se esperar, em 2004, os estádios ficaram às moscas, atingindo o menor público médio de todo sua história: 8.085 torcedores. O alerta foi dado pela CBF e a Nestlé criou a campanha (que partiu da própria empresa). Foi a ajuda que precisava para tentar passar a idéia que uma competição sem final é atraente para o torcedor brasileiro.

Desde que surgiu a campanha, a Nestlé já levou quase quatrro milhões de torcedores aos estádios e arrecadou 740 toneladas em alimentos. Para a empresa, fica claro que é um sucesso de marketing. Para nós, amantes do futebol, prova que o preço do ingresso está fora dos padrões nacionais. Dos dez maiores públicos do Brasileirão neste ano, seis tinham a promoção Nestlé, três eram clássicos estaduais (a Nestlé não faz campanha em clássicos) e o outro jogo era o Botafogo x São Paulo, partida considerada uma “final” antecipada no momento em que foi realizada. E exemplos de incentivo como este não estão restritos à campanha da Nestlé.

O governo de Pernambuco aproveitou a onda e relançou um programa chamado “Todos com a nota”. Nele, por cada R$ 100 em notas fiscais, o torcedor adquire um vale cidadão, que troca pelo ingresso dos jogos. O Sport colocou à disposição 15 mil ingressos para a promoção. Em todos os jogos, a capacidade máxima foi atingida. Assim, sem a promoção, a média de torcedores do clube não passaria dos 11 mil, mas com a campanha salta para 25.504 torcedores por partida e conquista o primeiro lugar no ranking dos clubes de maior torcida da Série A, à frente de Flamengo, Cruzeiro, Botafogo e São Paulo.

O Náutico preferiu aderir à campanha disponibilizando apenas 4 mil lugares no Estádio dos Aflitos, e por isso sua média de público (12.015) é baixa. Já o Santa Cruz liberou 25 mil lugares em seu estádio para a promoção de notas fiscais do governo – não é à toa que o time tem a melhor média de público da Série B, com 27.006 torcedores por jogo. Logo em seguida vêm Vitória, Ceará e Fortaleza, todos times nordestinos. E o recordista de público no Campeonato Brasileiro é do Nordeste também, mas vem da Série C: o Bahia, com média de 27.624 torcedores por partida, mesmo com duas partidas que teve de jogar com portões fechados.

Assim, mesmo que incipientes, algumas questões são sugeridas por essa situação do futebol brasileiro. A primeira é que tipo de pessoa é pretendido pelo futebol. Se acharmos que é o torcedor, aí não vejo outra solução que não seja diminuir o preço dos ingressos. Mas se a tentativa é de transformar o torcedor em consumidor, aí a procura recai para as classes altas, que poderão ir ao estádio como se fossem a um teatro ou shopping center: “No estádio modelado como um shopping center, o fim das gerais prenuncia a exclusão popular do espetáculo do século e o futebol-arte, principal criação histórica do povo brasileiro, apropriado pelos grandes grupos financeiros internacionais, pode estar em via de se transformar num entretenimento de luxo, reservado aos torcedores dos grupos sociais privilegiados que podem pagar o ingresso do estádio-shopping-center e a tv por assinatura” (FLORENZANO, 1999: 100).

O discurso da violência até corrobora para que estas mudanças – do torcedor em consumidor – se dêem de forma mais dinâmica, já que muitas vezes justifica-se a ausência de público por causa da violência. Agregado a isto está o Campeonato Brasileiro de pontos corridos, no qual todas as partidas valem a mesma coisa (ou nenhuma vale mais que as outras), onde toda emoção é diluída em 38 rodadas. Outra questão que devemos colocar é quanto ao fato de que os times que lideram a média de público nas três divisões do Campeonato Brasileiro pertencem à região Nordeste – e talvez no próximo ano poderemos ter o fato inédito de não ter nenhum time do Norte ou do Nordeste na primeira divisão – mas isso é assunto para outro momento.

Por último, a questão que aparece é sobre a economia que gira em torno do futebol. Se a principal forma dos clubes ganharem dinheiro é através das cotas de televisão, da venda de jogadores e do patrocínio na camisa, por que não diminuir o preço dos ingressos? A CBF até coloca no regulamento da competição que o preço é estipulado pelo clube mandante, só não pode ser de graça. Mas aí nas bilheterias está R$ 15, R$ 20, ninguém precisa fazer as contas para descobrir qual o custo de uma partida de futebol para o pai levar a mulher e os filhos, sem contar o transporte e a alimentação. Os clubes só existem por causa dos torcedores. Mas será que a torcida não é mais necessária?

Bibliografia
COSTA, Márcia Regina da (org.). Futebol: espetáculo do século. São Paulo: Musa Editora, 1999.