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Histórias do Galo carijó, nosso mascote

Djalma Oliveira de Souza

A mascote é uma figura que, para um clube de futebol, pode se tornar tão importante que, muitas vezes, fica demasiadamente impossível fazer referências a determinados times sem que automaticamente possa vir à mente sua imagem. O tipo de mascote mais recorrente vem mesmo do reino animal, mamíferos, aves e seres aquáticos. Quanto a isso, é razoável salientar que a figura da mascote costuma exercer uma espécie de magia no público, certo encantamento, que, em alguns casos, pode conduzir os torcedores às margens da devoção.

Grande teórico e autor de histórias em quadrinhos, Scott McCloud (2011, apud FEIX, 2016) afirma que, para a criação de uma boa personagem, “são necessários três elementos: uma vida interior, distinção visual e traços expressivos.” (2016, p.20) Dos elementos elencados por McCloud (2011), trazemos para nossa análise o fato de que acreditamos que as personagens escolhidas para representar os clubes futebolísticos, ou seja, as mascotes carregam, em si, uma vida interior e, mais ainda, podem representar, na escolha desta enquanto mascote, parte da própria história do clube.

Partindo da ideia de “vida interior”, pensando na questão da historicidade de cada mascote enquanto personagem, nesta parte da pesquisa, analisaremos alguns elementos e características peculiares das comunidades que teriam se tornado determinantes para a concepção da mascote. Entendemos que a mascote é uma figura concebida a partir de uma escolha, que pode acontecer levando em consideração os elementos da cultura dos torcedores do clube, seja relacionado a hábitos do dia a dia, ou mesmo envolvendo fatos que poderiam estar relacionados a casos específicos da agremiação. Com base em tais pressupostos, é que buscaremos atribuir uma explicação acerca das razões por que o time do Goiânia Esporte Clube teria chegado à imagem do Galo Carijó para adotá-lo como a mascote do clube.

Na carência de documentos que poderiam elucidar a questão ou com o qual pudéssemos dialogar – no caso, fontes escritas e/ou orais –, dando-nos a noção de como teria se dado a adoção da mascote para o Goiânia, adotamos como recurso atribuir uma compreensão para essa questão, considerando os elementos que, de certa maneira, estiveram envolvidos com os momentos do clube, seja na relação com a torcida ou com nomes que estiveram à frente da instituição.

Normalmente, as mascotes dos clubes nascem ou são incorporadas aos times anos mais tarde, em um tempo relativamente distante ao de sua fundação. Em alguns casos específicos encontramos histórias em que as mascotes foram trocadas por outra, ora por motivações a respeito de direitos autorais (PESSOA, 2012, p.8), ora por vontade de alguma pessoa importante (FEIX, 2015, p.29) do clube, torcedores e/ou jogadores, ou até mesmo pelo efeito negativo causado pela mascote, ou a ela atribuído, como teria acontecido, por exemplo, no caso do Fluminense carioca que, por conta da visão pejorativa de sua mascote, o cartola, o clube decidiu fazer a mudança da figura, trocando-a pela imagem de um guerreiro.

Verificamos na plataforma da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – Instituto Oswaldo Cruz, trabalhos feitos por um grupo de estudantes da área de Ciências Biológicas, nos quais encontramos referências aos animais que são utilizados como mascotes pelos clubes brasileiros. Dessa forma obtivemos a informação que a espécie animal mais usada pelos clubes na composição de seus mascotes seria a de aves, sendo que, destas, em primeiro lugar, viria a água, e, em seguida, o galo.

É importante acrescentar que, em visita a diversos sites especializados nesse tipo de informação, constatamos que, dos sessenta clubes brasileiros que disputaram as séries A, B e C em 2011, 39 clubes utilizam a figura de algum animal. Destes, 18 são imagens que representam alguma espécie de aves. Identificamos ainda13 mascotes com representação de figuras humanas e nove que, apesar de alguma diversidade, seriam representações de figuras sobrenaturais e/ou folclóricas.

A princípio, é razoável destacar que a espécie ave, incluindo uma variedade delas, por sua simbologia, é historicamente significativa entre diferentes povos, determinando parâmetros comportamentais, sociais e culturais. Destacamos, a partir deste ponto, algumas representações simbólicas de aves que, de certo, nos permitirão compreender a importância da escolha da ave para ocupar a função de mascote de clubes esportivos, tendo em vista, ser a escolha realizada pela maioria dessas instituições.

O poeta africano, nascido por volta de 250 d.C., Firmiano Lactâncio, em seu poema Da ave Fênix, conta a história de uma ave que, de forma sobrenatural, renasce das cinzas. O autor, ao descrever o animal, reforça a ideia de poder, de valentia e de respeito.

95 Enquanto isso, seu corpo, destruído pela morte fecunda,
arde, e o próprio calor produz uma chama,
e, ao longe, recebe o fogo proveniente do esplendor eterno:
queima e, abrasado, se decompõe em cinzas.
Essas cinzas, como reduzidas a uma massa, na morte
[…]
100 ela as reanima e tem um efeito equivalente ao do sêmen. 

Ao demonstrar sua capacidade de reverter uma situação aparentemente irreversível, o autor pode estar representando outra ideia, o que poderia naturalmente ser uma metáfora. Mas ao usar a ave, reforça ainda a ideia de liberdade, de reconstrução e de novidade.

Os alemães e os norte-americanos, ao utilizarem a águia como símbolo de seus países, possibilitam-nos compreender que a escolha da ave decorreria do fato de ela representar força, poder, proteção e longevidade para os povos. Por outro lado, os franceses, ao adotarem o galo como símbolo de proteção e coragem de sua gente, entre as várias possibilidades de atribuição de sentido, estariam explorando a capacidade do país em produzir fatos importantes para o mundo, a exemplo da própria Revolução Francesa, acontecimentos históricos que, figuradamente, teriam ganhado asas e ecoado, como o canto do galo, por todo o planeta (VOVELLE, 1987).

O antropólogo norte americano Clifford Geertz (1973), em seu livro A Interpretação das Culturas, ao relatar pesquisa realizada em uma aldeia Balinesa sobre as rinhas de brigas de galo, no capítulo intitulado “Um Jogo Absorvente: Notas sobre a Briga de Galos Balinesa”, analisou parte da sociedade Balinesa tendo por pano de fundo o supracitado evento. Dessa forma, o antropólogo define a ave galo da seguinte forma:

A linguagem do moralismo cotidiano pelo menos é eivada, no lado masculino, de imagens de galos. Sabung, a palavra correspondente a galo (que aparece em inscrições tão antigas como 922 d.C) é usada de forma metafísica com o significado de “herói”, “guerreiro”, “campeão”, “homem de valor”, “candidato político”, “solteiro”, “dandi”, “Don Juan” ou “cara durão. (GEERTZ, 1973, p.284)

Na esteira deste raciocínio, procedemos nossa análise quanto à escolha da ave galo como mascote do Goiânia Esporte Clube, porque o recorte descritivo formulado por Clifford Geertz, ao aproximar a imagem metafísica do “galo” da imagem do “herói”, do “guerreiro” e do “campeão”, oferece-nos um conjunto de características relevantes para a vida do clube de futebol. Há, entretanto, quatro outros elementos que poderiam estar alinhando o time GEC ao Galo Carijó. Em primeiro lugar, as cores dessa espécie de ave são dadas em preto e branco, numa relação imediata com as cores da camisa do clube. Em segundo, colocamos a possível relação entre o futebol mineiro e o futebol goiano, dada a influência de Minas Gerais, tendo em vista que muitos goianos tinham no estado mineiro local de trabalho e/ou estudo. Durante a pesquisa, várias entrevistados sugeriram a ideia de que a escolha do galo do Goiânia teria sua origem no galo do Atlético Mineiro, alguns deles reforçando sua opinião, considerando o fato de um dos principais fundadores, senhor Zezé da Veiga, ser mineiro da cidade de Uberaba. Uma terceira sugestão teria sua origem nas características do Antigo Estádio Olímpico, à época, denominado Estádio Pedro Ludovico Teixeira, por questão das primeiras arquibancadas serem de madeira, cuja disposição de tábuas lembrava poleiros. O fato teria favorecido para que o local recebesse a alcunha pejorativa de galinheiro. A quarta possibilidade poderia estar vinculada a questões de ordem subjetiva, oriundas da parte de seus fundadores, torcedores e/ou dirigentes que, possivelmente, em algum momento da história do clube, teriam construído uma relação entre o time e a figura do galo, este sendo entendido como “o único”, “o rei do terreiro”, em contraposição a outras equipes.

As notícias sobre o fato em questão são bastante deficitárias quanto ao número de documentos que fazem menção ao ocorrido. Na parte de entrevistas, não obtivemos nenhuma resposta contundente sobre o fato. O que de fato ouvimos nas entrevistas e em conversas, não gravados com os entrevistados, foi a informação de que a adoção do galo como mascote do Goiânia Esporte Clube estaria mesmo relacionada às arquibancadas, ou seja, ao galinheiro, e também por conta de uma possível influência da mascote do Atlético Mineiro.

Nas fontes e documentos escritos, o termo Galo Carijó é bastante usado, porém, nunca explicado. Dessa forma, para lançar alguma luz sobre o assunto, o primeiro passo dado por nós foi ao sentido de tentar encontrar alguma fonte documental oficial, extra-oficial e manuscrito mais antigo, que pudesse fazer menção ao momento a partir do qual teria sido construída a similaridade entre o GEC e o Galo Carijó.

Tivemos acesso a manuscritos pertencentes à família de José Henrique da Veiga Jardim e a um livro manuscrito por Joaquim da Veiga Jardim. Em ambos os casos, não identificamos menção ao fato. A fonte mais antiga encontrada durante a pesquisa que nomeia o GEC como Galo Carijó é o jornal Folha de Goiáz de 1945. Embora a referência mais antiga que nomeia o GEC como Galo Carijó seja de 45, observamos que a prática de nomear os times fazendo ilações a mascotes seja mais antiga que a data da figura 34 (ver imagem abaixo). Portanto, nossa suposição é de que, se o GEC já era chamado de Galo antes de 1945, essa informação não aparece nos noticiários com os quais foi possível entrar em contato no decorrer da pesquisa, que envolveu todas as edições do jornal Folha de Goiaz, desde o ano 1936 até 1970.

Jornal Folha de Goiaz. 28 de junho de 1945. (IHGG). Foto: Reprodução.

Dessa forma, e a partir da notícia em destaque acima, dado as datas de adoção das mascotes serem muito aproximadas, acreditamos que o GEC não teria se tornado Galo a partir da influência do Galo Mineiro, já que ambas as agremiações teriam estabelecido suas mascotes em tempos relativamente simultâneos.

A ideia de que a mascote Galo seria em decorrência das arquibancadas de madeira, onde se acomodavam exclusivamente os torcedores do time do Goiânia no interior do Estádio Olímpico é uma afirmação que não tem base sólida, pois não se sustenta em decorrência da falta de documentos que possam elucidar a questão. Isso, porque, não se pode afirmar qual dos adventos teria se dado primeiro, já que, assim como a mascote Galo poderia ter surgido em decorrência das arquibancadas de madeira, da mesma forma, estas poderiam ter sido chamadas de galinheiro por conta da adoção do Galo como mascote.

Montagem idealizada por Djalma Oliveira, a partir das seguintes fontes: 1) Revista Futebol Milionário nº2 (década 70), arquivo particular Márcia da Veiga; 2) Desenho feito por Jorge Braga na década de 80, Revista Federação Goiana de Futebol. Fonte: o próprio autor por e-mail no dia 14/01/2019; 3) Desenho extraído de um quadro de sócio do time. Arquivo particular Dª Nenzinha, irmã do ex-Funcionário Fidelino Ferreira; 4) Imagem do site oficial do Goiânia Esporte Clube; 5) Folha de Goiaz, dia 28/11/68, (IHGG), foto do presidente Sergio Dias Guimarães sendo carregado por torcedores com um galo carijó (vivo) em uma das mãos, por ocasião da conquista do 13º título estadual.

Definir a motivação para o surgimento da mascote do Goiânia exigiu de nossa parte, portanto, uma avaliação subjetiva na compreensão do fenômeno, considerando um conjunto de fatores: a representação simbólica da ave de modo geral, por sua força, longevidade e resistência; o simbolismo inerente às cores do time, preta e branca, que coincidem com as cores da ave escolhida como mascote; e, por último, em decorrência da paixão de José Henrique da Veiga Jardim por galos que, além de incentivador das práticas esportivas, em um manuscrito de próprio punho, afirma ser responsável também pela organização de rinhas na nova capital:

colaborei, com imenso prazer, na fundação de vários clubes de futebol, tais como: União Americana Sport, Atlético Clube Goianiense, e meu (ilegível) GEC, Vila Nova, futebol, brigas de galo e corridas de motores e de bicicleta.

Cremos que a explicação sobre a adoção do galo carijó como a mascote do GEC seja decorrente da fusão entre o imaginário – de força, de guerreiro, de campeão – “que deve ser descrito, mas nunca explicado” (RUIZ, 2015, p.102) e o real – o galo e suas cores, as rinhas na cidade, as cores do uniforme – “atribuído a interpretação humana, existente a partir das idéias dos signos e dos símbolos” (LAPLANTINE, 2015, p. 10). Dessa fusão, em que o imaginário se sobrepõe ao real na sua gênese, a alternativa de explicação e entendimento passa pela associação dos elementos constituintes da história cotidiana do clube, dos problemas, das alegrias, dos personagens e daquilo que possa estar envolvido com a história do time. Seguindo este raciocínio, o real, que outrora, fora sobreposto pelo imaginário, teria se materializado no percurso do tempo e enraizado em forma de objetos, através da pintura, do desenho, da literatura e da música. Dito isso, acreditamos que a escolha do Galo como mascote tenha se dado de maneira gradual e natural, graças a um emaranhado de fatores visíveis e pela carga de componentes invisíveis adquiridas pelos fundadores, dirigentes e torcedores do clube ao longo de sua história.

Fotografia: autor desconhecido. José Henrique da Veiga Jardim e sua outra paixão (galos de briga). Fotos de 1950 na cidade de Uruaçu. Arquivo pessoal Dª Márcia da Veiga Jardim. Fotos P/B. Tamanho 6×8.

Referências

FEIX, Gabriel de Azambuja. Redesenho da Mascote Gremista. Universidade Federal do Rio Grande do Sul Faculdade de Arquitetura. 2016.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.

LAPLANTINE, François.; TRINDADE, Liana. O que é imaginário.1. ed. São Paulo. Editora Brasiliense, 2017,

PESSOA, Flavio Mota de Lacerda. Mascotes do futebol carioca na estratégia mercadológica do jornal dos Sports. Podium: Sport, Leisure and Tourism Review, São Paulo, v. 1, n. 1, p. 120-145. 2012.

RUIZ, Castor M. M. Bartolomé. Os paradoxos do imaginário: ensaio de Filosofia. São Leopoldo: Unisinos. 2005.

VOVELLE, Michel. A Revolução Francesa e seu eco. Texto apresentado no 7º Congresso Internacional das Luzes, em Budapeste, Tradução: Magda Sento Sé Fonseca, 1987.

(DA AVE FÊNIX, LACTÂNCIO (?) — TRADUÇÃO; CARRARA, Daniel Peluci e NATIVIDADE, Everton da Silva. 2006, p.141; CALÍOPE Presença Clássica Programa de Pós-Graduação em Letras Clássicas Departamento de Letras Clássicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro)


Como citar

SOUZA, Djalma Oliveira de. Histórias do Galo carijó, nosso mascote. Ludopédio, São Paulo, v. 138, n. 25, 2020.