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Garrincha na periferia do futebol

Luiz Henrique de Toledo

O que vou relembrar deve ter acontecido nalgum mês de 1978, ano da Copa do Mundo na Argentina, tempos da Junta militar e do general Jorge Rafael Videla. Ou teria acontecido no comum ano de 1979? Tenho alguma dificuldade em determinar eventos pessoais, desses que não podem ser acessados por aí mesmo recorrendo ao Google. Espremido um pouco para lá, um pouco para cá, a memória desliza sem compromisso com a tola precisão de calendário.

Memória é algo que compõe a experiência temporal errante do espírito, resgatada consciente ou inconscientemente de um imenso celeiro chamado passado. E hoje com toda fenomenotécnica virtual confiamos cada vez menos na sua infalibilidade. Borges, outro Jorge argentino, mas para nossa felicidade e alívio um grande escritor, narra num conhecido conto a perturbadora história de Funes, personagem que nada esquecia, e desarticuladamente tudo apreendia. Certamente uma experiência de vislumbramento excessivo e tormento existencial.

Estabeleço com a memória uma espécie de amizade, daquelas amizades ligeiras tocadas por meias-verdades e cultivadas em espaços frementes, como reuniões de políticos, estádios de futebol ou sociabilidade de boteco. Amizades que suportamos apenas por conta dos perigos de ficar sem nenhum fiapo da boa fofoca ou do gole da cerveja. Nesse sentido memória é instante. Por isso deixemo-nos a memória fixar-se naquele ano brasileiro eleitoral de 1978, marcado por datas precisas como a reforma política alcunhada de pacote de abril de 1977. Um golpe dentro do Golpe que tentava frear o avanço da oposição, distribuindo senadores biônicos governistas eleitos indiretamente por emenda Constitucional.

Mas aqui na terra se jogava futebol, cantava Chico Buarque desde 1976, e Zico era grande promessa naquela Copa marcada pelas estranhezas vindas das entranhas políticas. Rivelino era a eterna esperança. Logo no primeiro jogo contra País de Gales o galinho teria um gol anulado depois de um escanteio cobrado por Nelinho em que o juiz ao permitir a cobrança encerraria o jogo com a bola no ar. No ar também ficaria nosso destino de campeão moral saído invicto daquela Copa.

Mas a aparição que tenho a relatar aconteceu bem longe de Mar Del Plata, se logo antes ou depois da Copa, permanece o mistério. Possivelmente uma meia-verdade que aconteceu ali na periferia da zona oeste, grande São Paulo, nos tempos em que os focos de resistência ao malufismo e à ditadura corriam soltos. Logo conheceríamos a tática desesperada de organizações políticas de direita que explodiriam bancas de jornal onde circulava uma imprensa de esquerda. Prática que culminaria, mais adiante, em 1981, na desmoralização do regime com a bomba detonada no colo dos executores, gente do deep state, cuja função era empastelar a comemoração de 1º de maio no Rio Centro, onde estaria, se não me falha a memória, o Chico Buarque, que não parava de cantar a frase hoje por certo desconfortável “a coisa aqui tá preta”.     

Um primo de minha mãe, a quem agradeço por ter me iniciado na arte do bebericar pelos botecos e no diletantismo político-futebolístico, estava exultante e me arrastou para o bar do Chico. Naquela época já era bem iniciado no torcer, política era assunto mais espinhoso, na Copa falava-se que tinha uma tal de ditadura acontecendo lá na Argentina, escondida pela festa imensa das arquibancadas. Para desdenhar do rival esquecíamos do nosso rabo preso.  Eu e o primo militávamos pelo mesmo time, o São Paulo FC. Arrastado, como disse, fui com uma pergunta na cabeça: por que ir para o bar do Chico?

Ponto de encontro da família extensa, a casa da minha corinthiana e janista avô materna ficava equidistante de dois bares na então principal avenida da cidade, de nome peculiar e aromático, Roselândia, que depois seria rebatizada com nome de egrégio político emancipador da cidade.

Para quem estivesse dentro da casa da avó o bar do Chico ficava à direita e o do Nelsinho à esquerda. De fora, tudo se invertia. Política é mesmo uma questão de jogo de posição, como querem os modernos esquemas táticos. Salvo as metáforas espaciais e contrastivas ambos tinham o mesmo fim, mas em nada se pareciam. No bar do Nelsinho respirava-se futebol e política. Bar de ethos próprio com direito a heráldica dos bebuns que ostentavam por ali seus maneirismos de uma classe média local formada por profissionais liberais, intelectuais orgânicos e outros mais em suas obscuras ocupações. Alguns playboys apareciam, mas não descaracterizavam as feições do bar, que de fato não era lugar de afetações juvenis. Mas havia também a presença da classe trabalhadora, sobretudo personagens notabilizadas pelo amor ao futebol, torcedores intempestivos que ali ganhavam fama. Lembro do corinthiano Nelson Pintor, que apareceu, e a cidade inteira comentou, na Capa da revista Placar no caneco conquistado em 1977. Tudo era capitaneado pela dupla de jaleco branco, o dono, Nelsinho, outro são paulino fanático e seu fiel escudeiro, o corinthianíssimo Motinha. O bar era continuação do bar do seu Nelson, o pai, responsável pelo sucesso de público e crítica do empreendimento familiar, que contava ainda com aquela “força” dos filhos e da esposa.

O outro, a bar do Chico vivia na penumbra das classes trabalhadoras, descuidado e de densa atmosfera. Apreensivo, sisudo, calado, Chico parecia se descuidar também de seus clientes. Não era itapeviense, diziam. Ali servia PF preparado por sua mulher e esperava que os frequentadores mantivessem a pressa necessária para que desocupassem rapidamente as mesas. Lugar de trabalho e não do ócio, nem de falação ou sinceras meias- verdades. Habitado por uma classe em si, o bar do Chico transpirava aquela tristeza melódica do jeca, atavismo nacional que há muito havia sido superado pela pulsante moda de coisas como o futebol, traço indiscutível da modernidade urbana que igualmente arrebatava nossos periféricos modos de vida.

O fato era que o burburinho e a aparição tinham um nome e se chamava Garrincha. Passaria pela cidade e acabou almoçando logo ali no bar do Chico. Não sei até hoje se consegui vê-lo no tumulto generalizado que sua presença causou. Presença um tanto inusitada que, para desespero da rotina laboral que orientava o ascetismo do Chico, não passou desapercebida dos habitués do bar do Nelsinho, que para lá atabalhoadamente se deslocaram.

Ilustração: Xico

O acesso ao bar do Chico era ainda mais interdito aos meninos se comparado ao bar do Nelsinho, que mesmo sabendo que bares populares eram espaços masculinizados de adultos,   oferecia sua complacência e camaradagem atendendo a meninada ligada em futebol, que para participar daqueles fóruns muitas vezes fingia comprar doce e refrigerante para levar para casa.  

Provavelmente Garrincha, de passagem pela cidade, se dirigia a algum evento próximo (seria em Cotia, São Roque, ali mesmo na cidade, quem poderia me dizer?) em que iria se exibir com o time do Milionários F.C. Garrincha foi um entre tantos ex-jogadores a amealhar alguns trocados no mambembe futebol itinerante de veteranos. O Milionários, cujo irônico escudo presente no uniforme traz a personagem do Tio Patinhas, que à época, hoje bem menos, encantava os jovens leitores com suas histórias de avareza jocosa e capitalismo selvagem.

O Milionários já atuava desde os anos sessenta e abrigaria Garrincha de modo intermitente até o fatídico último jogo na cidade de São Pedro, em 1982,[1] outro ano de Copa do Mundo, quando penduraria de vez as chuteiras mal tratadas pelos campos varzianos. Garrincha nos deixaria logo em seguida, em 1983. A história do clube é tão enxuta quanto curiosa e imprecisa. Agora vale “dar um google” para ler em seu blog que foi fundado em 1964 por um porteiro que trabalhava na TV Bandeirantes. Sua itinerância ainda permanece. Congregando mais de oitenta ex-jogadores do passado, numa obstinada celebração da memória fracionada do futebol, o Milionário seguiu como negócio pelas mãos do irmão do ex-jogador do Corinthians e da seleção Zé Maria.

Essa passagem meteórica de Garrincha por Itapevi guarda algumas metáforas que podem ajudar a dirimir as sinceras dúvidas que pairaram por muito tempo na cabeça daquele menino que ficou surpreso com aquela aparição do craque na rotina tão agnóstica do bar do Chico. Afinal, os “verdadeiros” torcedores estavam no bar do Nelsinho, ali é que acontecia a resenha e a magia, ali é que Garrincha seria dignamente acolhido. De todo modo, aquela pequena procissão que se dirigiu até o Chico haveria de corrigir o “erro” protocolar.

Garrincha e Ademar Pantera no Milionários. Foto: Manoel Motta. / Revista Placar – 12 de janeiro de 1979.

Garrincha perambulou pelos campos modestos em São Paulo e cidades interioranas convidado ou fazendo parte do “elenco” do Milionários Futebol Clube por sete anos.[2]  Hoje consta do rol dos super craques que militaram no time ao lado de Bellini, Nilton Santos e tantos outros. Numa longa entrevista nesse mesmo ano de 1978 para a TV Cultura, no programa “Vox Populi”, cita o referido time ao menos duas vezes, como se estivesse falando do próprio Botafogo. Garrincha parecia evocar nessa entrevista aquela personagem borgeana, não omitiu nada, não se esquivou das perguntas evidentemente constrangedoras que escrutinaram sua memória, atormentada com questões financeiras, amorosas, fracassos e frustrações esportivas que se intensificaram após 1966.

Respondeu a tudo no mesmo tom resiliente. Só a seleção receberia mais deferência. Já adoecido e consumido pelos “tratamentos” físicos que visaram pura extração bruta de seu futebol, rememorava seu ofício com diversão e zelo patriótico. Possivelmente foi o mais inumano dos operários da bola num país em que a tecnocracia sufocava as classes trabalhadoras. Garrincha só poderia encontrar guarida num bar como o do Chico, longe da classe média, onde aquele silêncio ruidoso da sua memória poderia ser ruminado e misturado ao prato feito com dignidade e à sombra dos holofotes, em que pese a turba do Nelsinho ter aparecido por lá. Sua trajetória, traduzida numa explosiva mistura de emoção e necessidades prementes, testemunhou a existência de um proletário transformado em supercraque, que depois conheceria as agruras no ofício de saltimbanco da bola.

 

Notas

[1] Conforme matéria do GloboEsporte/Globo.com. Acessado em: 16.08.2020.

[2] Segundo o texto que consta no site do Milionários.

 

Referências (algum Garrincha pela bibliografia acadêmica)

Leite Lopes, José Sérgio & Maresca, Sylvain. “A morte da ‘Alegria do Povo’”. Revista ANPOCS, no 20, 1992.

Souza, Denaldo Alchorne. Pra frente, Brasil! Do Maracanazo aos mitos de Pelé e Garrincha, a dialética da ordem e da desordem (1950-1983). São Paulo, Intermeios, 2018.

Toledo, Luiz Henrique. “Mortes esportivas e alegorias políticas: etnografando temores em torno dos esportes-nação”. Anuário Antropológico, UnB, Brasília, volume 44, no 1, pp 253-284, 2019.  

_____________. “Garrincha, Pelé e Maradona: o sagrado esportivizado em tempos de iconoclastia futebolística”. In GIGLIO, Sergio, PRONI, Marcelo W. (Orgs). O futebol nas ciências humanas no Brasil Campinas, editora da Unicamp, 2020.


Sobre o LELuS

Aqui é o Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade. Mas pode nos chamar só de LELuS mesmo. Neste espaço, vamos refletir sobre torcidas, corporalidades, danças, performances, esportes. Sobre múltiplas formas de se torSER, porque olhar é também jogar.


Como citar

TOLEDO, Luiz Henrique de. Garrincha na periferia do futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 61, 2020.