137.6

Garrincha

Phelipe Caldas

É uma postura altiva. Garrincha está parado. Pernas eretas e afastadas uma da outra. Braços um pouco inclinados para trás. Tronco do corpo sutilmente projetado para frente para facilitar o momento exato em que a inércia momentânea será quebrada.

É, sem dúvida alguma, uma posição de ataque.  De enfrentamento. De quem, em algum momento incerto, vai dar o bote certeiro.

O adversário sabe disso. Ainda que não imagine em que microssegundo para frente isso acontecerá. Ainda que não saiba qual dos milhares de botes possíveis o outro vai escolher.

Indeciso, pois, o tal adversário se posiciona de forma defensiva a cerca de um metro de distância. Será dele o dever de conter aquele homem, de dar o primeiro combate, enfim. Mas a mão direita levemente erguida para a frente, como que tateasse o nada em busca de algum tipo de amparo, o denuncia. O rival está titubeante. Não aparenta saber bem o que deverá fazer para conseguir parar o imparável.

A descrição da cena é retirada de um videoteipe em preto e branco. O jogo é entre Botafogo e Flamengo. E ainda que eu não tenha certeza absoluta, minha suspeita é a de que seja a final do Campeonato Carioca de 1962.

Se isso for mesmo verdade, o impacto é ainda maior.

Porque o desorientado, o tolo que não sabia o que fazer, não é outro senão Gerson. Ainda jovem, é bem verdade, mas aquele que viria a ser tricampeão do mundo em 1970.

Aliás, o próprio Gerson já deu inúmeras entrevistas falando daquele dia em que foi um dos “Joãos” de Garrincha, o que reforça minha suspeita.

Mas, isso não importa tanto aqui.

Fato mesmo é que estão, frente a frente, Garrinha e João – chamemo-lo assim, afinal.

Garrincha veste calção negro. Camisa do Botafogo listrada em preta e branca, de mangas compridas, número 7 às costas.

João veste uma camisa escura, que é difícil de distinguir os detalhes. O calção é branco.

Estão no Maracanã. Lado direito do campo de jogo. Na imagem dá para ver a linha lateral à direita e os limites da grande área numa diagonal à esquerda. Pouco mais atrás, um segundo defensor (Jordan, um dos maiores nomes da história flamenguista, acaso minhas suspeitas estiverem corretas).

Uma cena épica está prestes a acontecer.

Garrincha e João se olham de frente, mas não chegam a se encarar. Têm as visões meio abaixadas, mirando as pernas um do outro.

Próximo ao pé de Mané, a bola, alvo de desejo dos dois.

O repertório de Garrincha é incalculável. E a paralisia de João mostra o respeito que tem ao rival.

É uma cena comovente, até. Poética. Rara. Engraçada também.

Por alguns segundos, parece que o jogo está suspenso.

Garrincha está imóvel. Não toca na bola. Como que convidando o outro para avançar inadvertidamente.

João não avança. Aguarda. Teme, acima de tudo.

Se nada mais acontecesse, o jogo acabaria ali mesmo. Garrincha convidando, João vacilando. Até o apito final do árbitro.

Mas, a poesia acontece.

Garrincha dá um impulso para a direita, numa cena que lembraria uma largada de 100 metros rasos, não fosse o detalhe de que ele dá apenas um passo e retorna exatamente para onde estava.

Foto: Divulgação

João, na certeza absoluta de que a corrida era para valer, tenta acompanhar o adversário, e somente muito atabalhoadamente percebe o blefe e consegue retornar para onde estava.

O que torna a cena única, contudo, é que, nos segundos seguintes, Garrincha vai repetir exatamente o mesmo movimento mais duas vezes, e em ambas as oportunidades vai conseguir ludibriar o adversário da mesma forma que a primeira.

Dá para entender?

Seis segundos, três dribles idênticos e bem sucedidos em cima do mesmo marcador, zero vezes a bola incomodada.

Até que Garrincha se cansa da brincadeira.

A impressão é que ele poderia repetir o movimento quantas vezes quisesse e em todas elas João cairia no engodo.

Mas ele se cansa, toca a bola de lado, deixa João zonzo sem saber bem o que danado aconteceu.

Os tolos vão dizer, talvez, que o lance não é tudo isso, visto que não levou a nenhum resultado mais efetivo.

Mas esses são o que são: tolos.

O lance, muito pelo contrário, representa toda a essência, toda a habilidade, toda a irreverência, toda a genialidade do homem que completaria 87 anos (28 de outubro) se estivesse vivo.

Parabéns, Garrincha.


Texto originalmente publicado no blog do LEME.


Como citar

CALDAS, Phelipe. Garrincha. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 6, 2020.