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Cronologia das torcidas organizadas (III): Gaviões da Fiel (Parte 1) – torcida organizada do Sport Club Corinthians Paulista

Raphael Piva Favelli Favero, Bernardo Borges Buarque de Hollanda

* Nota explicativa. Esta série é parte integrante do projeto “Territórios do Torcer – uma análise quantitativa e qualitativa das associações de torcedores de futebol na cidade de São Paulo”, desenvolvida entre os anos de 2014 e 2015, com o apoio da FAPESP. A pesquisa foi realizada em parceria pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), equipamento público vinculado ao Museu do Futebol/Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Nesta seção, será apresentado um total de 12 torcidas organizadas da cidade de São Paulo. O propósito informativo desta série é compartilhar breves apontamentos cronológicos sobre a história e a memória das associações de torcedores paulistanos. Os dados aqui fornecidos foram de início a base para a montagem de um roteiro de perguntas que serviu à gravação dos depoimentos de fundadores e lideranças das respectivas agremiações torcedoras, tal como ilustram as fotos que acompanham os textos.

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Antes do surgimento das torcidas uniformizadas na cidade de São Paulo, que ocorre nos idos de 1940, o Sport Club Corinthians Paulista fazia-se representar por uma série de torcedores-símbolos nas arquibancadas dos estádios em que atuava. Ao menos dois deles merecem menção. Uma é a torcedora Elisa Alves do Nascimento, a Dona Elisa, que nasceria no ano de fundação do clube, em 1910. Do interior paulistano, Tia Elisa se muda para a capital paulista aos oito anos, em 1918. Outro nome digno de nota é Francisco Piciocchi, o “Tantã”, nascido em 6 de janeiro de 1915.

Os torcedores-símbolos adquiririam visibilidade a partir da década de 1920. Ainda naquele decênio, no dia da estréia do estádio da Fazendinha, uma linha de ônibus, cujo itinerário ligava a Penha ao Centro, foi alterada para atender o fluxo dos torcedores corinthianos. Nessa época, a arquibancada comportava apenas duas mil pessoas. O nome oficial da Fazendinha – Estádio Alfredo Schürig – foi uma homenagem ao 13º presidente do clube, responsável pela modernização da área e pela doação da verba usada na compra do campo. Os refletores, que garantiriam as partidas noturnas, foram instalados somente em 1961.

Existem, no entanto, registros que relatam a existência no Corinthians, já no final da década de 1920, de um grupo de torcedores organizados chamados “Extra-Corinthians”. Estes propunham-se a acompanhar competições internas e externas do clube em suas diversas modalidades. Ainda nos idos de 1920, o torcedor corinthiano João da Costa Martins tinha por superstição acender um charuto a cada vez que o Corinthians marcava um gol. O gesto acabou pegando entre os alvinegros, que passaram a fazer muita fumaça nas arquibancadas alvinegras a cada gol corinthiano, sob o coro ritmado, e até certo ponto estranho, de:

“Que é, que é? É Jacaré? Não é!

Que é, que é? É Tubarão? Não é!

Então que é? CORINTHIANS!”

Esse grito de guerra foi registrado pelo escritor modernista Antônio Alcântara Machado, em sua crônica “Corinthians (2) vs. Palestra (1)”, publicada no “antropofágico” ano de 1928. Já o grito abaixo, dos anos 1940, também mereceu o registro de Alcântara Machado, desta feita no livro Cavaquinho e saxofone:

“Tucu Rucutu! Já-já!

Tucu Rucutu! Já-já!

Hurra! Hurra!

CORINTHIANS!”

Nos anos 1930, mais precisamente em 1933, após derrota por 8 a 0 para o rival Palestra Itália, há um dos primeiros registros de distúrbios provocados pela insatisfação ante um resultado. Torcedores revoltados queimam a sede do Corinthians, então localizada na Rua José Bonifácio.

Dois anos depois, em 1935, Antônio Pereira, pintor de paredes e um dos fundadores do Corinthians, leva Dona Elisa pela primeira vez para ver o Corinthians jogar. A torcedora-símbolo, entretanto, apesar de já frequentar os jogos do alvinegro há seis anos, só em 1941 consegue tornar-se sócia do clube, o que faz com muito custo financeiro.

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O Corinthians e seus torcedores. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Em 1943, já se observam os primeiros agrupamentos de torcidas organizadas que apoiavam o Corinthians nas arquibancadas. Estes núcleos embrionários de aficionados animavam os jogos com instrumentos de percussão e de sopro. Registros fotográficos apontam a existência de um grupo uniformizado que se posicionava atrás de faixas com os dizeres “Torcida” e “Torcida Corintiana”. Mesmo em datas solenes, não esportivas, este grupo fazia-se representar, a exemplo do Desfile de Primeiro de Maio, dia do trabalhador, no estádio Pacaembu, com a presença do presidente Getulio Vargas.

Os componentes eram formados em sua maioria por homens e rapazes, tanto negros quanto brancos, trajados com dois modelos diferentes de uniforme: um deles era uma camisa branca, de mangas longas, com o brasão do Corinthians no lado esquerdo do peito, punhos pretos, uma faixa negra na região dos ombros e golas brancas; a outra era uma camiseta de manga curta branca, com punhos e golas pretas, escrito “Corinthians” na região toráxica.

O jornal A Gazeta Esportiva, em parceria com a Rádio Gazeta, organizava um campeonato de torcidas. Casanova, um dos membros da torcida uniformizada do Corinthians, afirmou que a equipe alvinegra já possuía à época a maior torcida da cidade. Seus torcedores assim entoavam seu grito nas arquibancadas:

“Uh, Balasquiê! Uh, Balasquiá!

Zum, zum, zum,

Rá rá rá

CORINTHIANS!”

Outra palavra de ordem da torcida corintiana nos anos 1950 foi ouvida nos estádios e reproduzida ao final da música “Campeão do IV centenário”, de Alfredo Borba, alusão ao título de 1954. A interjeição, que hoje soa cifrada, enigmática e onomatopaica, dizia:

“Chi Bumbá,

Iubaraca, Iubaraca, – Á!

Zun Zun Zum,

Ra Ra Rá,

Co rinth Ans!

CORINTHIANS”

No começo da década de 1950, era comum ouvir das arquibancadas corinthianas o grito de “Dá-lhe, Gualicho!”. Extraído do anedotário de então, tratava-se de menção ao cavalo “Gualicho”, campeão do turfe em São Paulo e no Rio de Janeiro de meados do século XX. A expressão, transposta ao âmbito clubístico, relacionava-se à grande fase vivida pela equipe alvinegra.

Em tom laudatório, A Gazeta Esportiva Ilustrada observava no mês de fevereiro de 1955: “Há tempos, aliás, comentando uma das muitas facetas interessantes da vida do tradicionalíssimo alvinegro do Parque São Jorge, dizíamos, sem receio de erro, que o Corinthians era no Estado o clube do povo, a agremiação que reunia em torno de sua bandeira a massa popular propriamente dita”.

Durante a década de 1950, as manifestações públicas de apoio ao Corinthians se avolumaram nos espaços da cidade. Em 1952, aproximadamente 30 mil pessoas recepcionaram a delegação corinthiana, que acabava de retornar de uma vitoriosa excursão na Europa. A ovação foi testemunhada no aeroporto de Congonhas e se espraiou pela cidade. Naquele dia de regresso da viagem  continental, mais de 70 mil pessoas se concentraram no Vale do Anhangabaú para saudar os atletas alvinegros.

No final da década de 1950, comentavam-se nos jornais as cenas de intolerância entre adeptos de diferentes clubes. Dona Elisa, por exemplo, figura carimbada nos jogos dentro e fora de “casa”, teve sua bandeira do Corinthians queimada por torcedores do XV de Novembro, na cidade de Piracicaba. O incidente não impediria que, em 1966, Dona Elisa fosse convidada a contracenar no filme O corintiano, estrelado por Mazzaropi e dirigido por Milton Amaral, que gravaria diversas imagens nas arquibancadas de cimento do Pacaembu.

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É somente no ano de 1965 que o embrião dos futuros Gaviões da Fiel começa a ser gestado nos estádios. Jovens se reuniam nas arquibancadas com o objetivo de questionar a vida política e administrativa do Corinthians. A memória coletiva do grupo reproduz que: “O Corinthians estava sob a administração de Wadih Helu, que durante anos tentou impedir a criação dos Gaviões através de represálias e atos característicos do tempo da ditadura” (trecho extraído do site da torcida).

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Chico Malfitani, um dos fundadores dos Gaviões, em depoimento ao projeto “Territórios do torcer” (Museu do Futebol/FGV – 2014/2015).

O ano de 1969 e o dia 01 de julho assinalam a data oficial da fundação do Grêmio Gaviões da Fiel Torcida. O ideal dos fundadores era participar de maneira mais efetiva do dia a dia do clube, sendo ao mesmo tempo uma “força independente”. Chico Malfitani, um dos fundadores dos Gaviões, em depoimento ao projeto “Territórios do torcer” (Museu do Futebol/FGV – 2014/2015), conta que a primeira reunião para fundar a torcida aconteceu na garagem de seu avô, na Alameda Santos, quase esquina com a Rua Joaquim Eugênio de Lima.

O grupo fundador juntou aproximadamente quinze garotos, entre os 14 e os 20 anos de idade, de diferentes lugares da cidade, que já conviviam em dias de jogos, nas arquibancadas corinthianas. O estudante Flávio Tadeu Garcia La Selva foi o primeiro presidente dos Gaviões. A primeira ata do grêmio foi assinada por Flavio La Selva, Alcides Jorge de Souza Piva (Joca), Cláudio Faria Romero (Vila Maria), Orlando Rosato (Rosinha), Carlos Marino Chagas (Manchinha), Igor Dondo, Francisco Malfitani (Chico), Carlos Augusto Saraiva (Linguiça), Artur Timerman, Brasil de Oliveira, Ivan de Oliveira, Benedito Amorim (Lampião).

Outra passagem do site dos Gaviões explica a inspiração para o nome da torcida:

“O Gavião foi escolhido como a ave-símbolo da torcida, por suas características marcantes: voa mais alto, enxerga mais longe, não erra a presa, não possui um predador natural, etc) e por influência da história de uma tribo indígena que na época estava em muita evidência. A tribo Gaviões vivia no Pará e no final da década de 60, muitos grileiros e posseiros, prevendo a valorização das terras da tribo, com a construção da Rodovia PA 70, passaram a invadi-las. Os índios gaviões reagiram tão violentamente que um trecho ao longo da PA-70 teve que ser interditado pelo Exército, pela FUNAI, Governo do Pará e Polícia Federal até que os gaviões aceitassem sair das terras em volta da Rodovia”.

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Vila Maria, fundador da Gaviões que, em 1971, criaria a torcida dissidente Camisa 12.

Dois anos depois da fundação, em 1971, registra-se uma primeira dissidência, em decorrência da iniciativa de um dos fundadores da torcida de criar a Camisa 12, apoiada por sua vez pelo presidente do clube, Wadi Helu. Naquele mesmo ano, Alcides Jorge de Souza Piva (Joca) assume a presidência dos Gaviões da Fiel, no lugar de Flávio La Selva, o primeiro presidente. O sistema eleitoral adotado previa mandato de apenas dois anos, sem a possibilidade de reeleição.

Em 1972, a chapa de Wadih Helu perde a eleição para Miguel Martinez, que assumiu o comando do Corinthians. Os Gaviões da Fiel reinvidicam protagonismo nesse epísodio. Em trecho retirado de seu site, afirmam: “Os Gaviões da Fiel escrevem um fato inédito em sua história: a derrubada de um ditador à frente do Corinthians”.

Ainda naquele ano, após estabelecer-se em vários endereços, inclusive no próprio Parque São Jorge, os Gaviões alugam uma sala na Rua Santa Ifigênia, no centro de São Paulo, que serviria de sede para a torcida.

Em 1973, ainda segundo afiança o site oficial dos Gaviões, a torcida “já possuía um número muito grande de associados e manter os Corinthianos reunidos na fase pós-campeonatos era um desafio para seus integrantes, pois muitos associados se dispersavam e só voltavam a freqüentar a quadra após o carnaval”. A partir desse diagnóstico, membros da torcida passaram a desfilar e ocupar uma ala na escola de samba Vai Vai. Naquele ano, Andres Moreno Castilho torna-se o terceiro presidente dos Gaviões da Fiel.

Em 1974, inaugura-se a sede social do grêmio. Um ano depois, Ângelo Fasanelo, sócio dos Gaviões da Fiel, fundou o bloco carnavalesco da torcida, com o intuito de congregar os demais associados que, na época do carnaval, se dispersavam por outras entidades. Nesse ano, o bloco carnavalesco Gaviões da Fiel participou do último desfile realizado pelas agremiações carnavalescas paulistas na Avenida São João. Ainda em 1975, Júlio César de Toledo, o Julião, é o quinto a assumir a presidência dos Gaviões da Fiel.

Em 1976, o bloco carnavalesco conquista seu primeiro título, com o enredo “Vai, Corinthians”, composto por Osvaldinho da Cuica e José Ribamar (Papeti). Neste ano também, realiza-se o curta metragem A Fiel, que narra o drama de uma torcida incondicional, sempre presente nos estádios, mesmo na “fila” por mais de duas décadas.

1976 é o ano da mítica “invasão corintiana”, quando mais de 70 mil corintianos viajam até o Rio de Janeiro para apoiar a equipe contra o Fluminense pela semifinal do Campeonato Brasileiro. Em seguida, quase 20 mil pessoas viajam a Porto Alegre para apoiar o Corinthians na final contra o Internacional.

Nelson Rodrigues, em sua coluna no jornal O Globo, de 6 de dezembro, relatou a invasão corinthiana:

“Ninguém sabia, ninguém desconfiava. O jogo começou na véspera, quando a Fiel explodiu na cidade. Durante toda a madrugada, os fanáticos do Timão faziam uma festa no Leme, em Copacabana, Leblon, Ipanema.  E as bandeiras do Corinthians ventavam em procela. Ali, chegavam os corinthianos, aos borbotões. Ônibus, aviação, carros particulares, táxis, a  pé, a bicicleta (…) A coisa era terrível. Nunca uma torcida invadiu outro Estado, com tamanha euforia. Um turista que, por aqui passasse, havia de anotar no seu caderninho: – “O Rio é uma cidade ocupada”. Os corinthianos passavam a toda hora e em toda parte. (…) Dizem os idiotas da objetividade que torcida não ganha jogo. Pois ganha.”

Bandeirão da Gaviões da Fiel. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Bandeirão da Gaviões da Fiel. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Em 1977, com o enredo, “Gaviões no Reino da Assombração”, composto por Nelson de Almeida Cerqueira (Carioca), Dióceles Pereira e Moisés Pereira das Neves, o bloco carnavalesco conquista o seu segundo título. Naquele ano vitorioso, de fim do jejum de títulos para o time alvinegro, Roberto Daga torna-se o sexto presidente dos Gaviões da Fiel.