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Gay Games 2006: registro histórico de uma participação

Wagner Xavier de Camargo

De vez em quando é importante retomar acontecimentos passados de nossa vida para nos lembrarmos de quem somos, o que fizemos e mesmo para entender o que significou algum fato passado. Exatamente há 14 anos se encerrava a sétima edição do Gay Games, um evento de mais de 30 modalidades esportivas, organizado para pessoas autoidentificadas com algumas das siglas LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, pessoas trans e demais), no qual participei como atleta.

Do evento, pouco sabia. Um ano antes, tinha recebido um folder de propaganda via e-mail com os dizeres “Gay Games: where the world meets… last days to celebrate…” (Gay Games: onde o mundo se encontra… últimos dias para celebrar) e a mensagem convidava para realizar inscrição nas últimas vagas. Ainda mantendo minha sexualidade no armário para a maior parte das pessoas e sabendo que um ano mais tarde estaria trabalhando numa competição lá nos Estados Unidos, resolvi me inscrever no Gay Games, que ocorreriam em Chicago.

Logo da sétima edição dos Gay Games, Chicago 2006. Foto: Wikipedia.

Esses jogos, como já registrado em vários lugares, foram criados no ano de 1982, em São Francisco, por um ex-atleta olímpico, Tom Waddell. Em fins dos anos 1970, num ambiente social ameaçado por uma onda conservadora nos EUA, ele decidiu realizar um evento esportivo que se caracterizasse num ambiente seguro para a prática de pessoas bissexuais, gays, lésbicas, travestis e quaisquer outros sujeitos aliados, inclusive heterossexuais. O Gay Games surge como iniciativa local e circunscrita, e, após algumas edições, transforma-se num evento milionário e multiesportivo.

Nos idos de 2005, trabalhava como professor de um colégio e uma faculdade particulares. Em meu tempo livre era voluntário num projeto nacional de esportes para pessoas com deficiência. Meu engajamento ativo fazia-me sempre estar assessorando algum evento esportivo estadual ou nacional (do lugar daquele que faz-tudo até o de quem coordena reuniões técnicas), participando de algum curso de especialização em arbitragem ou mesmo treinando com atletas cegos e com deficiência visual, grupo com o qual passei a compartilhar afinidades durante muitos anos.

Naquele período da minha vida, não dava para “ser gay” o tempo todo. Poucos sabiam que eu não era heterossexual e que mantinha relações afetivas com outros rapazes. Nos lugares de ensino em que trabalhava, não rolava levantar bandeira – o que não significava que não me posicionasse criticamente junto a alunos sobre estereótipos de gênero, quando isso aparecia. No âmbito do esporte e entre as pessoas com deficiência, era impensável, naquele momento, anunciar uma sexualidade não convencional. Sabíamos de um rapaz cego que tentava explicitar sua homossexualidade nos alojamentos de eventos. Era constantemente tomado por gozação e sempre motivo de falas preconceituosas.

Em meados de julho de 2006, findado meu compromisso numa competição em Spartanburg, Carolina do Sul, apanhei uma carona de carro para Nova Iorque a fim de passar alguns dias e esperar pelos jogos de Chicago. A casa que tinha me oferecido hospedagem só estaria liberada dia 14, véspera do início do evento e, por isso, minha chegada na cidade foi tardia. Numa longa lista de esportes disponíveis, acabei me inscrevendo em algumas provas de pista, no atletismo, dentre as quais fiquei em 5º lugar nos 800 metros e fui desclassificado ou terminei em último em várias delas. Um dos últimos suspiros de uma curta carreira de corredor de atletismo terminaria ali, então com 32 anos de idade.

Cerimônia de abertura dos Gay Games Chicago 2006. Foto: Wikipedia.

Surpreendentemente a competitividade das provas no atletismo era bastante alta para o nível amador. Partícipe do senso comum, visto que pouco ou nada sabia sobre tudo aquilo, eu pensava que o Gay Games era uma competição em que se celebravam a identidade sexual e de gênero, sem muita preocupação com marcas, índices, recordes e afins. Assistindo algumas modalidades e mesmo observando os bastidores de alguns esportes, nos 10 dias em que estive envolvido, percebi que do bilhar ao polo aquático havia uma disputa acirrada por resultados.

Um dos momentos mais emocionantes dos quais participei foi o desfile de abertura, algo muito similar com o que presenciamos pela televisão nas celebrações dos Jogos Olímpicos ou Paralímpicos. Como já registrei certa vez, esta cerimônia foi no Soldier Field, em Chicago, um estádio para jogos de futebol americano, construído no início do século XX e que naquela época tinha recém passado por uma reforma estrutural de anos. Ao chegar nele, localizei um voluntário com a bandeira do Brasil e, junto a ele, havia três outros brasileiros, formando então uma “equipe nacional”. Isso, obviamente, não era importante, visto que o Gay Games recebe as inscrições individualmente ou por clubes/associações de cidades. Mas a confraternização por nacionalidades acaba acontecendo, de qualquer forma.

Durante os Jogos, aprendi muito. Sobre esportes, mas também sobre gênero e sexualidade, o que me motivou a estruturar um projeto de doutorado para pesquisar o Gay Games na edição seguinte. Além de participar dos dias do atletismo, assisti às provas de natação, de ciclismo, de halterofilismo, de patinação artística e até de boliche. Na história do evento, a edição de Chicago foi muito exitosa, tanto em termos de inscrição (cerca de 16 mil participantes), como no que dizia respeito ao volume de dinheiro obtido com merchandising de marcas e patrocinadores.

A maioria dos atletas era, obviamente, estadunidense e canadense, talvez pela localização da cidade-sede do evento. E, desse montante, era identificável mais homens gays do que outros sujeitos sexuais, como lésbicas ou pessoas transgênero. O auge da política para inclusão de pessoas trans no Gay Games ocorreu em Sidney, em 2002, na Austrália, mas tal assunto vale ser tratado separadamente em outro momento. Os espaços de Chicago estavam lotados e os bares LGBT da cidade (localizados em Boystown, ao longo da Halsted Street) mantinham-se abarrotados. Nas festas temáticas do evento, encontravam-se mais de 10 mil pessoas, tranquilamente.

Cerimônia de encerramento dos Gay Games Chicago 2006. Foto: Wikipedia.

Foi desta experiência que vivi e de outras que se sucederam em eventos do mesmo tipo que me transformaram como pessoa e me fizeram pesquisador. Entendi mais sobre minha sexualidade, mas também a percebi criticamente, quando no coletivo. Observei que mesmo dentro de “ambientes segregados” como o do Gay Games (talvez uma expressão já ultrapassada em tempos atuais) há preconceitos contra sexualidades dissidentes e corpos não hegemônicos, a exemplo do de pessoas não binárias.

A coluna de hoje conta um pouco de mim, de coisas que não estão escritas em lugar algum, de um processo que vivi e me subjetivou de outra forma. Quis trazer tal relato para destacar que há sempre alguma pessoa que veio antes e que deixou alguma marca, não importa se não esteja na “história oficial” dos fatos. Recuperar uma experiência de nível pessoal e registrá-la em âmbito público é uma estratégia de construção de uma memória coletiva, tão importante em dias atuais, em que ou as pessoas se esqueceram do que se passou, ou propõem revisionismos históricos de modo a contar fatos a partir de seus referenciais, parciais e, algumas vezes, equivocados.


Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. Gay Games 2006: registro histórico de uma participação.